A EXPERIÊNCIA DO INDESCRITÍVEL – O relato diário de uma singular e irrepetível aventura por Bolívia e Peru (2009)

Tenho algumas paixões na vida, e uma delas é viajar. Amo meu trabalho, e realmente o executo com prazer, mas independente disso, trabalho para poder viajar. Desde que conquistei minha independência profissional e financeira – o que aconteceu tarde porque depois de pós-graduada decidi reiniciar minha vida acadêmica ingressando na faculdade de Direito –, comecei minha vida de viajante.

Já tive oportunidade de conhecer lugares incríveis, cidades famosas e encantadoras, como Paris, Londres e Brugge, e outras que representam o fascínio de uma fã incondicional, como Memphis, mas as férias de 2009, passadas na Bolívia e no Peru, superaram todas as anteriores.

Confesso que saí do Brasil esperando encontrar um estereótipo de cidades sulamericanas, com muita pobreza, falta de higiene e condições precárias. De fato encontrei tudo isso, mas o que vi e vivi na Bolívia e no Peru, países de belezas incomparáveis e nada comuns, tornaram minha experiência indescritível. Mas ainda assim me atrevo a tentar descrevê-la – sabendo que não chegarei próximo à realidade – para compartilhar o encantamento de dois países que já fazem parte de minha história.

Este relato será desenvolvido com os fatos de cada um dos 20 dias de viagem, com informações de locais, preços, horários e duração de percursos, o que pode ser útil para quem se encorajar a viver a mesma aventura, mas também está carregado de impressões e opiniões, principalmente sobre as pessoas maravilhosas que cruzaram meu caminho.

Muitas foram as pessoas que direta ou indiretamente possibilitaram essa viagem, desde meus pais, que me apoiaram e sustentaram enquanto eu investia nos estudos de uma nova carreira que me possibilita custear as viagens, até amigos que emprestaram os mais variados objetos que me acompanharam na viagem e sócios/amigos que mantiveram o escritório em perfeito funcionamento durante minha ausência.

E quando falo de amigos e companhia, é inevitável começar este relato sem falar de João e Lisiane, que por três semanas estiveram ao meu lado e foram perfeitos como amigos e companheiros.

Os nomes presentes neste relato não são acompanhados por seus respectivos sobrenomes para proteger a identidade dos envolvidos, já que publico esta experiência 10 anos após terem acontecido e não os contatei para pedir permissão de publicar suas verdadeiras identidades, sem contar que não tive mais contato com várias pessoas que conheci no exterior.

A preparação

O motivo da viagem era conhecer Machu Picchu. Definida a data e estipulado que faríamos a viagem por conta própria, sem a intervenção de qualquer agência e fugindo das temíveis e limitadas excursões, começamos a levantar informações com amigos e pela internet.

Por certo que os dados levantados da internet foram muito úteis, principalmente em sites de mochileiros, mas os relatos mais assustavam do que encorajavam. Muito se fala das péssimas estradas, dos motoristas ensandecidos, dos vendedores que enganam e tiram vantagens de turistas, da falta de segurança, falta de higiene, falta de conforto, falta de estrutura, falta de tudo. E pouco se fala das qualidades e dos bons motivos pelos quais vale a pena enfrentar as “agruras” desta viagem. A propósito, as adversidades fazem parte dos atrativos da aventura.

De forma alguma tais relatos são mentirosos – porque realmente falta higiene, segurança, conforto, estrutura,… –, mas tudo depende do espírito com que se inicia a viagem com destino à Bolívia e ao Peru e dos olhos com que se perscrutam as realidades desses dois países.

Providência indispensável para esta viagem é a vacinação contra a febre amarela, que deve acontecer com pelo menos 10 dias de antecedência. A vacina, aplicada gratuitamente em qualquer posto de saúde, deve ser registrada na carteira de vacinação e depois levada ao posto da Anvisa (Agência Nacional da Vigilância Sanitária), que em Curitiba localiza-se no Aeroporto Afonso Pena, para a transcrição em uma carteira internacional de vacinação. A ausência dessa carteira pode impedir a entrada na Bolívia e no Peru.

Em nossa preparação o que mais importou foram as conversas com amigos que já haviam feito essa viagem e outros que, a despeito de ainda não terem ido para lá, são “estudiosos” da aventura. Foi em uma dessas conversas que ouvimos falar pela primeira vez do Salar do Uyuni, o maior deserto de sal do planeta (10 bilhões de toneladas de sal; uma das maiores reservas de lítio do mundo), com inacreditáveis 12.000 Km2 de área, a mais de 4.000 metros de altura, rodeado por vulcões há muito extintos.

Uma pesquisa em fotos na internet rapidamente nos convenceu a ir para lá, mesmo que isso representasse um “desvio” no caminho que a maioria nos indicava, considerando que a cidade e o salar ficam ao sul da tradicional rota Santa Cruz de la Sierra / Cochabamba / La Paz / Copacabana / Puno / Cusco / Machu Picchu.

Uma lista do que levar na bagagem foi imprescindível, mas infelizmente insuficiente para preparar-nos para o frio que encontramos no salar. Com um esboço de roteiro e “artigos úteis” nas mochilas (como lenços umedecidos, barras de cereal e uma “farmácia básica”), iniciamos nossa viagem em Curitiba, percorrendo a maior parte do caminho por via terrestre, o que nos possibilitou não somente muita economia, mas também a oportunidade de encantar-nos com a beleza das paisagens por onde passamos e deu-nos muitas histórias para contar.

04 de julho de 2009, sábado

Eu, João e Lisiane saímos da rodoviária de Curitiba pontualmente às 21h pela Eucatur. Em promoção pagamos R$ 100,00 cada passagem até Campo Grande-MS. Tudo estava – e seria até o último dia de viagem – sendo filmado por João. A resistência que tenho a ser filmada é diretamente proporcional à satisfação que João tem em filmar. Por falta de alternativa, decidi que isso não seria um fator de stress, então simplesmente tentei ignorar essa quarta companheira de viagem.

O ônibus é confortável e permite até aos mais resistentes ao sono, como eu, descansar nas poltronas semileito, mas as péssimas condições das estradas brasileiras transformam o ônibus em uma lata sacolejante e barulhenta. Encontraríamos na Bolívia e no Peru estradas muito melhores.

05 de julho de 2009, domingo

Às 10h fizemos uma parada para o café da manhã em uma lanchonete de beira de estrada na cidade de Casa Verde-MS. Uma hora depois chegamos em Campo Grande-MS (10h no horário local)

Nossas descendências européias (espanhola, italiana e austríaca) confundiram os agentes de viagem locais, pois logo que descemos do ônibus fomos abordados por um rapaz que se dirigiu a nós em inglês para oferecer passeios ao Pantanal e a Bonito. Ao respondermos, nosso interlocutor espantou-se ao ver três “alemães” (segundo as palavras dele) falando Português. Se estávamos sendo confundidos em nossa própria terra natal, não teríamos chance nenhuma de passar despercebidos em solo estrangeiro de características índias.

Compramos as passagens para Corumbá na Viação Andorinha (R$ 82,15, já com as taxas de embarque) e almoçamos na Churrascaria da Gaúcha, próxima à rodoviária, lugar simples, mas de boa comida caseira.

Saímos da rodoviária pontualmente às 12h em um ônibus confortável e espaçoso. Depois de uma parada na rodoviária de Miranda, que demorou mais do que consideramos necessário, seguimos para Corumbá, onde chegamos às 18h. Tão logo descemos fomos abordados por vendedores de passeios turísticos (o que se tornaria uma constante em toda a viagem), nos “alertando” de que se não comprássemos os tickets do Trem da Morte com eles, não conseguiríamos as passagens. Resolvemos ignorá-los, como também ignoramos as ofertas de táxis e seguimos a pé os quase 2 Km até o hostal sobre o qual havíamos pesquisado na internet.

Corumbá Hostel

O Corumbá Hostal Internacional (Rua Colombo, no 1419) é um lugar limpo e agradável, com funcionários simpáticos e atenciosos, melhor do que outros hostals que já estive em viagens anteriores pela Europa, Chile e Argentina. Por R$ 30,00 por pessoa ficamos em um quarto com banheiro privado (com água quente) e ar-condicionado. Também havia sala de televisão, piscina e churrasqueira, dependências que não desfrutamos devido à rápida passagem pelo local, que serviria apenas para nossa pernoite.

Fomos “jantar” em uma lanchonete quase em frente ao hostal. Sanduíche “generoso” e saboroso, mas caro. Enquanto comíamos, víamos na TV as extensas reportagens sobre a recém-morte do astro pop Michael Jackson. Voltamos ao hostal e preparamo-nos para dormir e acordar cedo na manhã seguinte para atravessarmos a fronteira.

06 de julho de 2009, segunda-feira

A satisfação com o hostal completou-se com o bem servido café da manhã, com pão fresco, queijo, presunto, suco, chá e frutas. Na saída a recepcionista orientou-nos como ir para a fronteira. Fomos a pé até a praça central da cidade e no ponto de ônibus que fica em frente à igreja, depois de uma longa espera, tomamos a linha “Fronteira”. Um grupo de rapazes brasileiros, de Santa Catarina, tomou o mesmo ônibus.

Ao chegarmos ao ponto final imediatamente tomamos um táxi para cruzar a fronteira. Os catarinenses fizeram o mesmo, mas em um carro muito melhor do que o nosso. Estávamos em um Toyota que andava mais por força divina do que por força mecânica. Seguimos diretamente para a estação de trem de Puerto Quijarro. Ao chegarmos, encontramos com os brasileiros já voltando da bilheteria e informando-nos que todos nós passamos direto pela imigração sem carimbar nossos passaportes. No tempo que percorremos de volta até a fronteira ficamos ilegais na Bolívia!

Ilegalidade corrigida, com o mesmo táxi voltamos à estação de trem. As 3 viagens nos custaram R$ 16,00. O motorista deu-nos a preciosa dica para que fizéssemos o câmbio somente em Santa Cruz de la Sierra, onde conseguiríamos cotação melhor, o que de fato aconteceu. Assim, trocamos somente o suficiente para a compra da passagem. Pagaram-nos Bs 6,90 por dólar (em Santa Cruz a cotação foi Bs 7,00).

Fomos para a fila da boletería, onde havia somente um funcionário, que de repente interrompeu o atendimento e deixou todos na fila esperando por longos minutos (qualquer minuto é longo quando se está carregando mochilas). Com as passagens compradas (Bs 115,00; US$ 17,00) fomos a uma farmácia comprar máscaras (Bs 1,00 cada) porque nos informaram que em Santa Cruz  encontraríamos foco da temida gripe suína, máscaras que nunca saíram de nossa bagagem. Compramos também as primeiras cartelas de soroche pill (10 comprimidos – ácido acetil salicílico e cafeína – por Bs 30,00) para evitar o “mal da altitude”, que eu tomei a cada 8h. Em minhas leituras pré-viagem eu tomei conhecimento desse medicamento e resolvi experimentar. Alguns dizem que só tem efeito psicológico. Com resultado efetivo ou psicológico, o fato é que fiquei invicta às famosas reações à altitude (fortes dores de cabeça, náuseas, vômito, falta de ar,…).

Procuramos então um local para almoçar antes de embarcar. Optamos por um hotel para escapar da falta de higiene e aparência suspeita do que encontrávamos nas lanchonetes (ou algo que o valha) na avenida principal. Por Bs 35,00 (US$ 5,00) comemos sopa, frango assado, arroz, batata frita e Coca-Cola. Não tivemos tempo para a sobremesa porque já passava das 12h e o trem sairia às 12h30.

Só na hora de embarcar nos demos conta que não estávamos todos juntos. João e eu estávamos no vagão 101, em poltronas separadas, e Lisiane no vagão 103. João gentilmente trocou de lugar com Lisiane para que ela não viajasse sozinha, mas pouco antes de o trem partir o vagão 101 não tinha mais nenhum passageiro, então chamamos João para que se juntasse a nós.

O trem saiu e poucos minutos depois parou na primeira estação, quando aconteceu a primeira “invasão” de vendedores ambulantes. Durante toda a viagem o vagão foi palco de incessante entra-e-sai de mulheres e crianças anunciando tudo quanto era tipo de comida e bebida: frango (pollo), pastéis, pães, bolinhos de chuva, chicharrón (qualquer coisa que se possa jogar em um tacho cheio de gordura), água Lindóia, limonada, Coca-Cola,…

Antes de embarcar no trem eu costumava dizer que eu comia de tudo, e comia mesmo! Mas depois da experiência do Trem da Morte, tenho que acrescentar uma exceção ao fim da frase: como tudo exceto a comida servida pelos ambulantes da Bolívia. O aspecto é repugnante, o cheiro é enjoativo, a higiene é completamente ausente. Com exceção de Coca-Cola, não nos atrevemos a adquirir mais nada.

O que no início era diversão e novidade, com o tempo foi transformando-se em tédio. O vai-e-vem lateral do trem e a paisagem sem nada de excepcional foi nos cansando. Em busca do que fazer, Lisiane e João (ela matemática, ele engenheiro) propuseram-se a calcular a velocidade do trem com base nas estacas que indicavam a distância e o tempo de percurso. Concluíram que estávamos a 47 Km/h, o que significava que as horas que teríamos pela frente seriam bem longas.

E com o passar dessas horas chegou o momento inevitável: eu precisava ir ao banheiro do trem, sobre o qual eu já havia ouvido milhões de desagradáveis histórias. Eu tentei evitar, mas ainda tínhamos 12 horas de viagem e não há força de vontade que vença uma bexiga cheia em um trem em movimento. Tive que encarar.

Acabei tendo uma boa surpresa. Apesar do cheiro que estava longe do desejável, havia papel higiênico, papel toalha, sabonete líquido, água na torneira e descarga com desinfetante. Provavelmente este cenário não se repetiria em uma segunda visita, mas foi um bom começo.

À medida que íamos passando pelas estações, locais onde sempre havia muita criança, cachorros e porcos, nosso vagão ia se enchendo. No final da tarde já estávamos em 13 pessoas no 101. De madrugada estava lotado.

À 1h30 paramos na estação Perla del Oeste, que me pareceu maior do que a de Puerto Quijarro. Os incansáveis vendedores ambulantes oferecendo pollo seguiam cruzando os vagões. Os cheiros de gordura velha e de início de azedo, somados à aparência nada atrativa, eram um convite para continuarmos com fome.

Nesta parada subiu em nosso vagão um grupo de religiosos que falavam entre si um idioma que não conseguimos identificar. Os homens eram loiros e muito altos, vestidos com macacões que formavam um “V” nas costas e ladeados por botões. As mulheres estavam totalmente cobertas por vestidos e meias grossas e um lenço negro envolvendo a cabeça. Chapéus adornados com fitas negras foram pendurados no bagageiro sobre as poltronas. Os estreitos corredores tiveram que ceder espaço para as enormes pernas que extrapolavam o apertado espaço entre as poltronas. Definitivamente era um grupo que chamava atenção.

Também de madrugada a questão dos números de nossas poltronas começou a ser um problema. Eu estava na poltrona indicada na minha passagem (29P), Lisiane estava na poltrona do João (23V) e João estava ao meu lado, na 29V. O “dono” da 29V, um boliviano muito simpático que gentilmente havia cedido seu lugar para que João seguisse a viagem ao meu lado, precisou sair da poltrona que estava temporariamente ocupando porque o “dono” dessa poltrona havia entrado no trem. Como ele viajava sozinho, pedimos que ele fosse para a poltrona onde João deveria estar, no vagão 103, no que fomos prontamente atendidos, mas ele retornou com a notícia de que o lugar havia sido vendido também para outra pessoa, uma mulher com uma criança.

O rapaz, de quem me arrependo de não ter perguntado o nome, simpatizava com brasileiros (e falava muito bem o Português) e parecia querer fazer o que fosse possível para não tirar João da 29V. Ele disponibilizou-se a procurar o encarregado do trem para resolver a questão dos lugares, mas acabou encontrando outra poltrona livre. Somos gratos ao gentil e desconhecido boliviano que ficou pulando de poltrona em poltrona para não separar dois companheiros de viagem.

O encarregado do trem, por várias vezes desde o início da viagem, pediu que apresentássemos nossos bilhetes. Em todas essas vezes ele mandou que João fosse para o vagão 103. Em todas essas vezes nós ignoramos suas ordens e assim seguimos a viagem até o destino final.

Os acontecimentos da madrugada seguiram com a necessidade de uma segunda ida ao banheiro, que já estava bem diferente desde a primeira visita. O vaso sanitário ainda tinha água com desinfetante para a descarga e a torneira ainda tinha um filete de água, mas esses eram os únicos elos em comum entre as duas rápidas passagens por lá. Em uma situação “normal”, eu prontamente me recusaria a usar esse banheiro, mas a necessidade (necessidade mesmo!!) faz milagres. E mal sabia eu que esse banheiro era o melhor do que os próximos que eu encontraria pelo caminho.

07 de julho de 2009, terça-feira

No início da manhã, com a lua cheia ainda presente no céu, percebi que a descrição de uma noite “dormida” no Trem da Morte nunca poderia ser fidedignamente descrita. Por mais que eu tente, transmitir essa experiência em palavras é realmente impossível. Mas me atrevo a tentar.

O espaço entre as poltronas era insuficiente para minha altura acima da média das mulheres brasileiras. As pernas não cabiam, o banco era estreito. A pouca espuma do assento foi se estreitando e compactando durante as intermináveis horas de viagem. Minha coluna reclamava da provação à qual estava sendo submetida. O joelho esquerdo também se manifestava com dores latejantes. Eu precisava esticá-lo, tentar aliviar a pressão, mas a falta de espaço impedia qualquer sucesso. O ombro sofria com a carga que no dia anterior teve que suportar com a mochila que ainda não se adaptara ao corpo.

A falta de banho e de qualquer possibilidade de higiene primária juntava-se aos demais suplícios, aos quais a fome também já se fazia presente. As bolachas que estavam na bagagem teriam que dar conta de desempenhar o papel de café da manhã.

Às 8h chegamos em Santa Cruz de la Sierra e abandonamos para sempre o Trem da Morte. A experiência serviu somente para que este relato fosse possível e não há a menor chance de voltar a acontecer.

Tão logo descemos na Estação Bimodal de Santa Cruz, providenciamos a compra da passagem para Sucre. Ao contrário do que estamos acostumados a ver no Brasil (viações organizadas e limpas que são procuradas pelos clientes), em Santa Cruz os balcões das companhias de ônibus são precários e os funcionários ficam gritando nos corredores os destinos de seus veículos: Cochabambaaaaaaaaaa, Sucreeeeeeeee, Potosíííííí, sempre arrastando a última sílaba.

Minha preocupação era comprar passagem em um ônibus que tivesse banheiro, mas minhas esperanças foram logo derrubadas. Nenhuma companhia oferecia esse conforto, mas na Flota Copacabana, onde compramos a passagem para Sucre (Bs 90,00 = US$ 13,00), “tranquilizaram-me” informando que o ônibus faria paradas. Tentamos fazer o câmbio na rodoviária, mas a casa de câmbio do local estava com o sistema fora do ar. Paguei as passagens em dólar e recebi o troco em bolivianos, mas houve perda com a cotação, feita a Bs 6,80 por dólar.

Como a partida seria somente às 16h30, tomamos um táxi (Bs 12,00; menos de US$ 2,00) e pedimos para sermos levados na Gelateria Dumbo, lugar famoso em relatos de mochileiros na internet. O táxi na Bolívia e no Peru, bem diferente do Brasil, precisa ser negociado antes de iniciar a corrida. A primeira oferta que recebemos foi de Bs 20,00. Posteriormente descobrimos que Bs 12,00 estava caro, mas ainda estávamos muito “frescos” nos costumes locais.

A Gelateria Dumbo estava fechada, mas havia muitos outros locais semelhantes. Escolhemos uma lanchonete para a primeira refeição do dia, às 10h, onde comi misto quente com pingado. Com a fome saciada, saímos para caminhar e encontramos a casa de câmbio onde conseguimos a melhor cotação: Bs 7,00 por dólar.

Passamos pela Praça 14 de Setembro, um local arborizado, limpo (apesar dos pombos) e bastante agradável, e seguimos em busca do famoso Mercado de los Pozos. Só encontramos tapumes de construção e a aparência do lugar convenceu-nos a voltar para a praça, onde sentamos para nos aliviar do peso das mochilas e curtir o clima do local. Às 13h fomos para a Sorveteria Pícolo, onde nos deliciamos com uma grande taça de sorvete com brownie e chantilly por Bs 25,00 (R$ 7,00). Foi nosso almoço.

Tomamos um táxi (Bs 10,00) e voltamos para a rodoviária aguardar a hora da saída para Sucre. Gastamos 1 hora na lan house da rodoviária (Bs 4,00) para avisar amigos e familiares que tudo estava correndo bem. Saímos da lan e fomos fazer nossa última improvisação de higiene no banheiro, que nos custou Bs 1,00. O local não estava exatamente asseado, mas para os padrões bolivianos podemos dizer que estavam razoavelmente limpos.

Às 16h dirigimo-nos ao embarque. Também ao contrário do que estamos acostumados no Brasil, não existe uma área de venda de passagens e outra de embarque. Os passageiros aguardam na frente do balcão da companhia onde adquiriram os bilhetes e saem pela porta dos fundos do guichê, que vai dar no pátio de chegada dos ônibus, onde novamente estão vendedores ambulantes anunciando a plenos pulmões seus produtos comestíveis mas “incomíveis”. Ao nos apresentarmos no balcão de nossa companhia, fomos informados que devido a um bloqueio na estrada o ônibus só sairia às 18h30. Fomos então tomar um café com leite e pão com queijo. O gosto do café boliviano é bem diferente do saborosíssimo café brasileiro, mas não deixa de ser atrativo.

Quando nosso ônibus chegou, descobrimos que nos haviam sido vendidas poltronas inexistentes. O número de poltronas do ônibus era inferior aos números das poltronas que constavam em nossas passagens. Mas felizmente isso não foi problema, já que em pouco tempo colocaram-nos em outros lugares, dessa vez nas poltronas 20, 21 e 22. Antes de viajar, em minhas pesquisas na internet eu havia lido que se vendem passagens de bus cama (similar ao nosso leito), mas na verdade nunca são efetivamente bus cama. Surpreendentemente as poltronas eram bem reclináveis, embora não muito confortáveis. Pelo menos me permitiu dormir algumas horas.

Durante a noite surgiram os primeiros momentos de frio e as jaquetas e cachecois saíram da bagagem. O ar começava a gelar.

08 de julho de 2009, quarta-feira

A primeira parada aconteceu à 1h30 em um pequeno aglomerado de casas fracamente iluminadas. Ao contrário do que eu ingenuamente esperava, a parada informada no balcão da companhia realmente aconteceu, mas “parada”, na Bolívia, não tem qualquer similaridade com as paradas no Brasil, onde se para em lanchonetes com refeição e banheiro. Na Bolívia, parada é….parada! O ônibus simplesmente para, as pessoas descem e fazem de qualquer muro ou meio-fio seu banheiro particular.

Desesperada por um banheiro, vi as pessoas aliviarem-se despreocupadamente nos muros e em volta do ônibus. Apesar de minha agonia, decidi que eu continuaria lutando fortemente contra a natureza. Voltei ao ônibus indignada com minha condição feminina e tentando evitar pensar na próxima parada, quando minha força de vontade poderia sucumbir à força da natureza com a qual eu lutava ainda bravamente.

Do lado de fora a lua cheia continuava suavizando os contornos da noite e mostrando a paisagem que pouco a pouco ia mudando. Muito morro pedregoso, árvores secas e cactos. O ônibus deixava no caminho sinuoso um rastro de poeira suspensa no ar. Passamos por pequenos aglomerados de casas bastante rústicas, algumas com pequenos currais e até uma escuela. Em um povoado mais à frente um muro pintado anunciava a cerveja local: Taquiña Export, Date el gusto. Esses anúncios, embora com outras marcas, repetir-se-iam pelo caminho.

O ônibus seguia muito lentamente. Com frequência ele parava, como que para “pegar fôlego” e continuar a subida. Em outros trechos ele não chegava a parar, mas andava a uma velocidade muito próxima de zero. Também as horas pareciam passar muito devagar, o que aumentava a sensação de fome e sede que há muitas horas me faziam companhia. Eu havia comprado uma garrafa de água, que no meio da noite desapareceu (deve ter rolado para debaixo dos bancos). De qualquer forma, a falta de banheiro no ônibus e nas “paradas” desaconselhava a ingestão de líquidos. A fome poderia ser aplacada com as bolachas que seguiam na mochila, mas seu consumo aumentaria a sede, o que levaria novamente à questão da água e do banheiro. Em um incrível exercício de paciência, novamente só restava esperar (e rezar!).

Às 10h30 paramos em um vilarejo. Enquanto os demais passageiros comiam sopa com frango, uma vez mais só nos encorajamos a comprar Coca-Cola, que tomamos com “mandolates” que eu havia levado do Brasil. Pelo risco que a água boliviana oferece, a globalizada Coca-Cola revela-se uma salvação aos sedentos viajantes.

Nessa parada eu e Lisiane enfrentamos uma de nossas primeiras grandes provações sanitárias: um típico banheiro boliviano. Por total falta de alternativa (há 6 horas eu já havia recebido um ultimato de meu sistema urinário), tive que abandonar princípios e preconceitos e enfrentar o banheiro local: imundo, fétido, nojento.

Uma pequena construção nos fundos da “venda” era dividida em duas partes: do lado esquerdo o banheiro masculino e do direito o feminino, embora apenas uma parede baixa, que não chegava ao teto, separasse os dois “ambientes”. Na entrada havia latões cheios de água e vasilhames vazios. Tínhamos que encher esses vasilhames e levá-los para os “reservados”, pois esse era o mecanismo de descarga, um sistema bastante comum nos banheiros da Bolívia, que acabamos apelidando de “descarga de caneca”.

Não havia portas, mas somente pedaços insuficientes de tecidos imundos que dava um mínimo de privacidade. O vaso sanitário não tinha qualquer conexão com tubulações. O chão estava alagado e muito sujo. Precisamos de muito equilíbrio e concentração (as aulas de yoga foram úteis nesse difícil momento!) para evitar encostar em tudo que nos rodeava. Enfrentado esse desafio, senti-me forte para encarar qualquer outra coisa dali para frente.

Os mesmos latões que forneciam água para a “descarga” eram utilizados pelos usuários para lavar mãos e rostos. Isso já era demais para mim e poderia ser evitado, já que eu carregava salvadores lenços umedecidos na bagagem. Não era o ideal, mas certamente mais higiênicos do que aquela água “polivalente”.

Enquanto os demais passageiros terminavam suas refeições, tiramos algumas fotos do local. Ao subirmos novamente no ônibus fomos informados pelo motorista que ainda teríamos mais 2 horas de viagem.

Chegamos em Sucre às 12h30. Ao descermos fomos abordados por uma “agente de viagens” que nos oferecia passagens em um micro-ônibus para Potosí por Bs 15,00 (US$ 2,00). Compramos as passagens, de modo que não pisamos o solo de Sucre por mais do que 5 minutos.

O pequeno ônibus estava lotado, com pessoas “acomodadas” no corredor (isso também seria uma constante pelos outros ônibus que viajamos pela Bolívia e pelo Peru). Ao meu lado, no corredor, viajaram 3 crianças cobertas por catapora. Como eu sou imunizada por ter sido infectada pela doença na adolescência, não me preocupei com o fato.

A viagem foi tranquila, mas bastante lenta. Levamos 3 horas para percorrer somente 160 Km. A paisagem compensou a jornada. Muitos vales, vegetação que variava entre o verde, amarelo e tons de vermelho em contraste com um céu muito azul, quase sem nuvens. Pela primeira vez tomávamos contato com as inacreditáveis cores da Bolívia.

A estrada, asfaltada, estava muito melhor do que muitas estradas brasileiras. Chegamos em Potosí às 16h e logo saímos em busca de passagem para Uyuni. Os escritórios das empresas de ônibus ficavam a cerca de 4 quadras de onde descemos. Eram locais apertados, sujos, entulhados de coisas. Caminhar essas quadras com as mochilas nas costas nos fez sentir os primeiros sintomas da altitude, para mim bastante minorados pelas primeiras pílulas de soroche que eu havia tomado desde Santa Cruz.

As ruas estavam apinhadas de cholas vendendo de tudo, principalmente pães, expostos em enormes cestos, sem qualquer cobertura ou proteção. Passamos por um mercado/feira onde se vendia de tudo e por lojas de CDs com caixas de som para fora tocando os sucessos do recém-falecido Michael Jackson.

No primeiro escritório que entramos havia passagem para Uyuni a Bs 35,00 (US$ 5,00) com saída às 18h30. Saímos dali para pesquisar preço nas outras viações. Há várias pequenas empresas que oferecem saídas diárias para Uyuni. Na empresa que ficava ao lado da primeira em que entramos, as passagens já estavam esgotadas. Resolvemos então voltar na empresa anterior e comprar as passagens, mas fomos surpreendidos com a informação de que as passagens que há 2 minutos tínhamos recusado haviam acabado de ser vendidas.

Fomos em todas as viações da cidade, mas as passagens estavam esgotadas. Voltamos para a rodoviária para uma desesperada tentativa de conseguir embarcar para Uyuni naquele mesmo dia. Não havia passagens! Tentamos verificar se algum taxista se animaria a fazer o trajeto, mas continuamos sem sucesso. Só nos restava buscar um lugar para dormir. Fiquei muito chateada, pois foi minha incessante vontade de pechinchar e conseguir preços melhores que nos fez perder as passagens do primeiro lugar em que entramos. Mas o aborrecimento passou logo, seja porque meus companheiros de viagem não me culparam (pelo menos não declaradamente), seja porque, não fosse esse contratempo, não teríamos conhecido as pessoas que conhecemos na sequência da viagem.

Escolhemos o Hotel Nobleza, que fica em frente à rodoviária. Um quarto para 3 custou Bs 90,00 (R$ 25,00) para cada um. O quarto era amplo, com 3 camas de solteiro, cobertores suficientes para o frio da noite, TV a cabo e banheiro privado com água quente (luxo que ficaríamos tempo sem voltar a ter!). O carpet vermelho, armário, cadeira e mesa de madeira e um cabideiro completavam a decoração.

Deixamos nossas mochilas no quarto e voltamos a percorrer as 4 quadras para comprar as passagens para Uyuni. A Bs 35,00 adquirimos os bilhetes para o dia seguinte na Viação Trans Quijarro, que era a empresa que oferecia a saída em horário mais cedo (10h). Compradas as passagens, fomos procurar lugar para comer. Nossa última refeição (aqui não estamos considerando os sorvetes, bolachas e mandolates consumidos até então) havia acontecido em Puerto Quijarro às 11h30 de segunda-feira, 06.07, há 3 dias.

Entramos em um restaurante com ornamentos chineses, mas ao invés de frango xadrez e arroz shop shuei no cardápio, encontramos o que parecia ser a única opção na Bolívia: frango (pollo), batatas (papas) e macarrão. Com a fome que estávamos, a refeição foi ótima. Voltamos ao hotel para o banho, já que o último acabara de completar 3 dias. Esgotados e aliviados pelo banho quente, dormimos cedo para continuar a jornada no dia seguinte.

09 de julho de 2009, quinta-feira

O primeiro despertador tocou às 6h20 (e isso passaria a ser uma rotina) e às 7h estávamos todos encasacados na recepção do hotel aguardando o café da manhã (pão, café, leite, margarina e geléia), que só seria servido às 7h30. Terminado o desjejum, voltamos ao quarto para reforçar os agasalhos porque o frio já começava a ficar difícil.

Novamente percorremos as 4 quadras que nos separavam da Trans Quijarro, viação que prometia Esmero y Puntualidad e que nos levaria até Uyuni. Antes de subirmos no micro-ônibus, nossa bagagem foi amarrada em cima do veículo, do lado de fora, “protegida” por uma lona azul. Como companheiros de viagem havia um pequeno grupo de brasileiros e a população local. Não só os bancos, mas também o ínfimo corredor estava lotado. Ao meu lado havia um rapaz que se identificara como testemunha de Jeová que em pouco tempo abandonou a rápida distribuição de folhetos religiosos para concentrar-se em dormir em pé.

A paisagem do caminho, que aos poucos ia revelando a incrível Bolívia, compensou o desconforto do ônibus. Vimos desde córregos congelados (um “anúncio” do frio que nos esperava) e montanhas com picos nevados até cactos espalhados por um cenário desértico de aparência lunar. As montanhas apresentavam incontáveis matizes e formatos que desafiam a criatividade humana. Vimos também as primeiras lhamas. No trajeto os ocupantes do corredor iam alterando-se à medida que cruzávamos os minúsculos povoados. Mulheres com crianças amarradas nas costas por panos multicoloridos juntavam-se à caravana.

Na primeira parada já não nos surpreendíamos tanto com os banheiros disponíveis aos turistas, embora nunca tenhamos chegado ao ponto de encará-los com naturalidade. Eram na verdade um “mal necessário”.

Às 12h30 uma barra de cereal serviu-me de almoço. No rádio (que o motorista ligava e desligava a intervalos regulares), chamou-me a atenção melodias e letras familiares:

Yo sé, siempre en ésa carretera

Al volante pienso en ella

Ya pinté en el parachoque

Un corazón y el nombre de ella

Era o “rei” Roberto Carlos mostrando seu espanhol! Foi divertido tentar identificar as músicas que se seguiram e conhecer a versão castelhana de “Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada” e “Eu quero ter um milhão de amigos”:

Tu eres mi hermano del alma realmente el amigo

Que en todo camino y por nada está siempre conmigo

Aunque eres un hombre aún tienes el alma de un niño

Aquel que me da su amistad, su respeto y cariño

Recuerdo que juntos pasamos muy duros momentos

Y tú no cambiaste por fuertes que fueron los vientos

Es tu corazón una casa de puertas abiertas

Tú eres realmente el más cierto en horas inciertas

Yo sólo quiero mirar los campos

Yo sólo quiero cantar mi canto

Pero no quiero cantar solito

Yo quiero un coro de pajaritos

Quiero llevar este canto amigo

A quien lo pudiera necesitar

Yo quiero tener un millón de amigos

Y así más fuerte poder cantar

Yo quiero tener un millón de amigos

Várias foram as vezes em que as mesmas músicas (os mesmos milhões de amigos e os amigos de fé, irmãos, camaradas) foram tocadas.

Às 16h chegamos em Uyuni e a primeira providência foi tentar salvar as mochilas que eram lançadas de cima do ônibus, em um “salve-se quem puder”. A que me pertencia só não teve um violento encontro com o chão porque os brasileiros que estavam no mesmo ônibus tiveram a gentileza de me ajudar com a “entrega” de bagagens da Trans Quijarro.

As mochilas ainda nem tinham sido acomodadas nas costas quando fomos abordados por Andréia, uma agente de viagens local da Isla Tours que se dirigiu a nós em inglês e ficou feliz em saber que éramos brasileiros e que eu podia comunicar-me com ela em sua língua nativa. Ofereceu-nos o passeio de 3 dias pelo Salar de Uyuni com transporte, 2 hospedagens e 8 refeições mais a estada daquela noite no Inti Hotel, que segundo ela oferecia calefação, banheiro privado e chuveiro com água quente, tudo por US$ 105,00 (também informou que estava nos dando um desconto no quarto do Inti). O preço pareceu-nos razoável e nem pensamos em regatear.

Andréia nos perguntou para onde iríamos depois de Uyuni e dissemos que o destino seria La Paz. Ela então nos apontou um grande e bonito ônibus que estava estacionado, com dois andares, segundo ela um bus cama com banheiro e disse que a passagem custava Bs 150,00. Nem pensamos: “queremos este”, e ela prontificou-se a comprar as passagens por nós.

Os serviços de Andréia e da Isla Tours teriam sido perfeitos não fosse ela nos ter enganado quanto ao ônibus. Pagamos os Bs 150,00, mas quando embarcamos rumo a La Paz, 3 dias depois, era em um ônibus sem banheiro e sem poltronas reclináveis e cuja passagem não custava mais do que Bs 90,00. É uma pena que essa atitude tenha manchado o que realmente poderia ter sido uma prestação de serviço impecável.

Chegamos ao hotel e fomos levados para um quarto com calefação (na verdade era um aquecedor portátil), banheiro privado e duas camas, sendo uma de casal. Largamos as mochilas sobre as camas e descemos para fazer o pagamento a Andréia, que acrescentaria o custo com o aluguel com saco de dormir para enfrentarmos o frio do salar, cuja previsão apontava para vários graus abaixo de zero.

Pagamento realizado, fomos transferidos para o quarto no 12, com 3 camas, mas… sem a “calefação” e sem banheiro privado. Esse foi o real desconto que recebemos! Estávamos tão cansados e ansiosos por começar o passeio (até ali só havíamos subido e descido de vários ônibus), que não achamos nada ruim.

Saímos para conhecer a cidade e para comer. A impressão que tive da cidade contraria o que eu havia lido em guias de turismo. Achei a cidade um encanto. Praças arborizadas, organizadas, com espaços para as crianças brincarem e muitas cores saindo das centenas de lojas de artesanato.

Uyuni (cidade)

Famintos, entramos em uma pizzaria para a primeira refeição do dia, quase no fim da tarde. O lugar era muito agradável, com lareira e mantas coloridas decorando teto e paredes e boa música. A pizza também era muito boa.

Depois do almoço/jantar fomos passear pela feira montada no meio da rua, na qual se vendia de tudo (eletrônicos, CDs piratas, óculos de sol e as tradicionalíssimas toucas e meias de lã). João e Lisiane iniciaram suas “comprinhas” naquele mesmo dia, mas eu resisti a meus fracos e controláveis impulsos consumistas.

Feitas as compras, fizemos uma rápida passagem por uma lan house para contatos com o Brasil e encerramos a noite em um bar tomando um Casillero del Diablo (Bs 100,00) e ouvindo dois cantores colombianos que estavam viajando pela América do Sul com seus violões e gaitas apresentando sua música.

10 de julho de 2009, sexta-feira

Por curiosidade – e para aplacar a indignação do Tio Zezé por eu ignorar tão magnífico lugar –, busquei fotos e informações na internet. As primeiras imagens que eu vi já foram suficientes para eu negociar com meus companheiros de viagem a inclusão do Salar em nosso roteiro. A visita significaria o acréscimo de vários quilômetros e alguns dias na rota, mas Lisiane e João foram incríveis desde os preparativos da viagem e topavam tudo que se lhes propunha.

A imensidão e brancura dos 12.000 Km2 desse deserto de sal é visível do espaço e deixa atônito qualquer um que o visite. Os limites da imensidão branca unem-se à linha do horizonte numa infinidade de reflexos produzidos pela luz do sol em incidência direta nos cristais de sal. A mais de 4.000 m de altitude, em alguns pontos a superfície plana e alvíssima apresenta polígonos originados pela evaporação de água formando uma gigante colmeia irregular. É difícil para os olhos compreenderem as imagens e as cores que o Salar lhes apresenta de forma inédita e atrevida, uma demonstração de divindade perante a insignificância dos simples mortais.

Nas orlas dessa imensidão, aldeias e vilarejos são habitados por homens e mulheres que tiram seu sustento da exploração do sal. Além da destinação para consumo, o sal extraído de Uyuni é matéria-prima para objetos artesanais e tijolos para edificações no próprio salar, a exemplo dos hotéis que deslumbram os turistas.

Pelo pacote que compramos, outras 3 pessoas juntar-se-iam a nós no Jeep Toyota Land Cruiser placa 1315NKU para um passeio de 3 dias pelo Salar e pelo deserto. O motorista, Sr. Lúcio, seria também nosso guia e cozinheiro.

A saída com o jeep, que estampava em sua lataria um adesivo com uma águia e a frase El placer de volar, estava programada para às 10h15. Acordamos às 7h para tomar banho, para o café da manhã e talvez mais um rápido passeio pela cidade. Fui a primeira a acordar para iniciar a “fila do banho”. Entrei na porta do chuveiro (que ficava logo em frente ao nosso quarto) e deparei-me com a falta de energia elétrica. Percorri os corredores do hotel em busca de algum funcionário, mas não encontrei ninguém, nem mesmo na recepção. A propósito, com exceção de Andréia, que havia nos levado até ali no dia anterior, não havíamos avistado mais ninguém nas dependências do hotel (essa não foi minha primeira estada em “hotéis fantasmas”, pois tive uma experiência semelhante quando estive em Buenos Aires, mas esta é outra história).

Não encontrei ninguém que pudesse me ajudar, mas achei a caixa de força e mexi nos disjuntores. Voltei ao banheiro e preparei-me para entrar no banho. Roupas precariamente penduradas no gancho que havia na parede, abri a torneira e dessa vez foi a falta de água que me frustrou. Vesti-me novamente e voltei a perambular pelos corredores do hotel em busca de uma viva alma. Andei, chamei, encostei o ouvido nas portas para identificar sinal de vida, mas ninguém aparecia.

Depois de longos minutos finalmente uma senhora abriu uma porta e com cara de pouca simpatia foi por mim informada da impossibilidade de banho. Ela disse que as caixas de água estavam vazias desde o dia anterior e que seria necessária 1 hora até que houvesse água disponível novamente. O banho teria que esperar.

Voltei ao quarto e informei meus companheiros da temporária impossibilidade de banho. Retornamos à praça da pizzaria e encontramos um simpático lugar para o desayuno, onde começamos o dia ao som de hits dos anos 80. De volta ao hotel, a água já se fazia presente, mas o banho mal pôde ser classificado como morno. Ali começaria a minha tortura com o frio.

Andréia apareceu para nos buscar (o que foi um alívio, pois ela havia ido embora no dia anterior com nosso dinheiro sem deixar qualquer recibo ou endereço e telefone de contato; com o tempo nos acostumaríamos com as transações “no fio do bigode” que se fazem na Bolívia e no Peru).

Fomos até o escritório da Isla Tours, uma sala apertada, entulhada de coisas, com um mapa atrás da escrivaninha (sobre o qual o nome da agência está escrito com letras trocadas) e muitos cartazes com depoimentos manuscritos de turistas em várias línguas (inglês, francês, alemão e caracteres orientais) cheios de elogios aos serviços da agência. Andréia queixou-se de não ter nenhum em Português, pois seus turistas brasileiros costumam ficar na fronteira do Chile. Como voltaríamos a Uyuni, prometemos a ela inaugurar um cartaz no idioma luso.

No dia anterior, Andréia havia nos informado que os turistas que completariam nosso grupo eram 2 suíços e 1 australiano. Não me agradou a informação, pois eu queria “gastar meu espanhol” e não estava disposta a ter que utilizar o inglês, idioma que “manejo” infinitamente com menos domínio do que o espanhol.

Enquanto nos dirigíamos para a agência, questionei se os suíços já estavam nos esperando e recebi a boa notícia de que eles haviam sido substituídos por 2 espanhóis e 1 mexicana. Minha integração com os gringos estava garantida!

Nós fomos os primeiros a chegar na agência e nos sentamos no sofá que ocupava grande parte do apertado espaço para esperar nossos companheiros hispanohablantes. O primeiro a entrar foi Mario, um basco formado em Engenharia Aeronáutica e dono de uma beleza estonteante.

Meus olhos se perderam naquele modelo de beleza masculina. E meus pensamentos se desesperaram com a consciência de minha situação. Quando eu me deparo com o homem mais lindo que já conheci pessoalmente, ao invés de apresentar-me com uma saia que revelasse os contornos de minhas longas pernas e as curvas de minha cintura e com delineador que ressaltasse o verde de meus olhos, eu estava com uma touca enterrada até as orelhas e tremendo dentro de uma jaqueta enorme que me dava a aparência de uma barraca do exército local.

Poucos minutos depois conhecemos Abrahan, um galego sem ocupação definida, e a mexicana Yolanda, sua namorada e advogada recém-formada. A empatia foi imediata. Dirigimo-nos para fora da agência para acomodar as bagagens em cima do jeep. Eu, João e Lisiane só pudemos levar bagagem de mão para não sobrepesar o veículo. Mario, Abrahan e Yolanda puderam levar as suas porque ficariam na fronteira com o Chile. Junto com as bagagens seguiam o farnel e um botijão de gás. 133 horas depois de termos iniciado a viagem em Curitiba, eu estava pronta para o que foi a melhor viagem de minha vida.

A primeira parada foi no Cemitério de Trens, onde trens do final da década de 70 repousam em meio a muita ferrugem. Depois fomos a um pequeno povoado onde se pode adquirir artefatos de sal e visitar um Museo, onde há muito artesanato à venda. Na sequência visitamos o hotel de sal, uma construção em que quase tudo (paredes, mesas, cadeiras, camas,…) é feito de sal. No interior há estátuas de sal que certamente estão presentes em milhões de fotografias de turistas espalhados pelo mundo.

Seguimos para a Incahuasi, onde o deslumbramento com as belezas e com as cores da Bolívia parecia não ter fim. No passado o lugar foi um imenso lago salgado que com o tempo evaporou deixando aquele pedaço de terra cercada por uma infinita camada de sal.

Ao chegarmos, nosso jeep parou em frente a uma das mesas de pedra que rodeiam o pé da “ilha”. Ali seria servido o nosso almoço: quinúa (um grão cultivado nas altas montanhas bolivianas e largamente consumido pela população andina, considerado pela ONU o alimento mais completo do planeta), frango à milanesa, salada de pepino e tomate, catchup, maionese e Coca-Cola. A companhia e a vista do local compensaram a falta de sabor.

Depois do almoço pagamos o simbólico valor de Bs 15,00 (US$ 2,00), registramo-nos no livro da recepção e subimos o morro para vislumbrar os gigantescos cactos que infestam a ilha, alguns ultrapassando 10 metros de altura.

Seguimos o passeio pelo Salar com várias paradas para fotografias. As lentes das 6 câmeras de nosso grupo não dariam conta de registrar o fascínio das belezas que tivemos o privilégio de presenciar. A parada seguinte foi mais um hotel de sal, que para minha grande surpresa não era mais um local de visitação, mas onde passaríamos a noite.

A brancura dos móveis de sal era alegrada por coloridos tecidos postos nas mesas e banquinhos de sal. O chão também era todo de sal. Era como se estivéssemos caminhando na praia, mas ao invés da areia pisávamos muito sal. As bases de nossas camas também eram de sal.

Enquanto nosso grupo saiu para conhecer o pequeno povoado onde estava o hotel, Lúcio, nosso motorista-guia-cozinheiro, preparou-nos o café da tarde: água quente para chá, café (o brasileiríssimo Nescafé), leite em pó e bolacha doce.

Terminado o café, saímos para o que foi o mais fantástico, incrível e também indescritível pôr-do-sol que já presenciei. Entre a imensidão de sal e as montanhas que nos rodeavam não havia nada mais do que o jeep e os membros de nosso grupo. O frio também foi o mais inacreditável que já tive que suportar. O vento era cortante e atravessava o grosso tecido de minha enorme jaqueta. A pele era castigada e até os ossos sentiam o frio atravessando-os. Os tremores eram incontroláveis. Mas a beleza daquele pôr-do-sol impedia que eu cedesse ao frio intenso para refugiar-me no abrigo do jeep aquecido pelo ar condicionado (refúgio que em pouco tempo foi buscado pelas demais mulheres do grupo).

Nenhuma indústria de tinta é capaz de reproduzir as escalas e a intensidade das cores do céu boliviano durante o pôr-do-sol no Salar de Uyuni. De tudo o que vi durante toda a viagem – e eu ainda teria a oportunidade de deslumbrar-me com várias outras belezas –, nada superou aquele pôr-do-sol. Enquanto à minha frente o sol ia baixando e colorindo o céu com fortes tonalidades de cores fascinantes, às minhas costas a linha do horizonte separava a brancura do solo de um céu com suaves rajadas de rosa e azul. Toda a grandiosidade de Deus estava estampada no céu. Jamais conseguirei traduzir em palavras – tampouco as fotos traduzem-na em imagens e cores – aquele majestoso e divino pôr-do-sol.

Retornamos ao hotel e Lúcio serviu-nos o jantar: sopa com pão, frango, batatas fritas encharcadas de óleo e banana assada com casca. Depois do jantar os espanhois ensinaram-nos um divertido e desafiante jogo de cartas, que apesar do nome nada atrativo (“come mierda”), exigia raciocínio e estratégia para ganhar. Às 22h o jogo foi interrompido pelo desligamento da energia elétrica. A partir desse horário todo o hotel fica às escuras (não há luz nem mesmo no banheiro e nos quartos).

A intenção é mandar todos os hóspedes para a cama, mas não estávamos dispostos a deixar nossa diversão ceder lugar à escuridão. Em poucos minutos alguém providenciou uma vela que foi equilibrada na boca de uma garrafa de cerveja recém-esvaziada. Jogamos por cerca de mais uma hora e fomos todos nos recolher, os seis no mesmo quarto.

Como não tínhamos troca de roupa porque nossa mochila havia ficado em Uyuni, só tirei as botas e encaixei-me dentro do saco de dormir alugado com os cobertores disponibilizados pelo hotel mais a jaqueta, servindo-me também como cobertor, sobre um lençol estampado com o Homem-Aranha (o lençol da cama ao lado era da Cinderela!). Nada – NADA! – foi capaz de afastar o frio. Tremores incontroláveis acompanharam-me durante toda a noite. Meus ossos estavam gelados! Somando os curtos momentos de cochilo, calculo que “dormi” no máximo 2 horas. No dia seguinte seríamos informados que a temperatura naquela noite atingira 19 graus negativos.

11 de julho de 2009, sábado

Com o hotel ainda sem luz e a manhã ainda aguardando os primeiros raios do sol, levantei, calcei as botas, peguei minha mochila de mão e dirigi-me ao banheiro (um único banheiro para todos os hóspedes do hotel) procurando guiar-me pela fraca luminosidade que separa a noite do dia. Com dificuldade e contando quase somente com o tato para localizar o que estava dentro da mochila, improvisei a higiene matinal.

Ao voltar para o quarto descobri que outros colegas de habitación também já haviam deixado suas camas. Saí na manhã gelada para contemplar as primeiras luzes do dia. A lua, que ainda estava firme no céu, perdia os contornos de cheia para tornar-se minguante. A mesa do café da manhã já estava posta quando voltei ao hotel e pela última vez os 6 membros de nosso grupo reuniram-se para uma refeição no inacreditável hotel de sal.

Saímos do hotel rumo ao segundo dia da excursão. No caminho passamos por uma base militar e paramos em San Juan, mais um dos inúmeros pequenos povoados espalhados pela Bolívia. Passamos por desertos e vulcões na fronteira com o Chile. Ao longo do caminho, cuja viagem já durava mais de 4 horas, íamos parando para tirar fotos. A primeira surpresa do dia foi o almoço no deserto. Paramos “no meio do nada” (o que voltaríamos a fazer com bastante  frequência). Enquanto subíamos o morro para conhecer a natureza do local, Lúcio preparava nosso almoço, dessa vez frango à milanesa, macarrão, salada de vagem e cenoura, batata assada e suco de manga, que comemos sentados em pedras e equilibrando nossos pratos sobre os joelhos.

A necessidade de banheiro e o fato de não ter avistado nenhum desde que havíamos saído do hotel levou-me a perguntar a Lúcio se na próxima parada haveria algum. Com expressão de incredulidade recebi o que, para ele, era a resposta mais óbvia do mundo: “Amiga, estamos en el desierto; el baño es la naturaleza”.

E por isso, pela primeira vez na viagem, tive que procurar a natureza! Não foi fácil localizar um lugar com privacidade e protegido da vista dos turistas dos outros jeeps que foram juntando-se a nós.

Continuando o passeio paramos na primeira lagoa com bórax, também conhecido como borato de sódio, um composto de boro que dá à água uma luminosidade ofuscante e contornos brancos aos lagos. O próximo deslumbramento veio com a Lagoa Honda, mais uma prova de que só a natureza é capaz de produzir matizes inalcançáveis pela obra humana. Nesse local tive a experiência inusitada de caminhar sobre um pedaço congelado do lago ouvindo o ranger do gelo que trincava em pontos mais finos. O frio estava mais uma vez mostrando sua capacidade de atravessar qualquer tipo de tecido, ignorando luvas, gorros e cachecois

Seguimos para a Lagoa Colorada, situada na “Reserva Nacional de Fauna Eduardo Avaroa”, onde flamingos exibem-se em uma lagoa de cor roxa, resultado das algas e planctos que os alimentam. Neste parque fica o hostal que nos acolheu. O lugar era muito rústico e sem nenhum conforto, adversidade que, como todas as outras, foi compensada pela exuberância da beleza natural. Para entrar na Reserva é preciso pagar Bs 30,00.

Deixamos a bagagem no quarto que novamente seria dividido pelos 6 membros do grupo e saímos para caminhar e ver os flamingos. O solo era branco e poroso, muitas vezes cedendo sob nosso peso como aviso para buscarmos caminhos mais seguros. Havia gelo em muita parte do caminho. A intensidade do frio, que começava a provocar queimadura na pele e nos lábios, levou-nos de volta ao hostal. João havia se “desgarrado” do grupo e continuava, a despeito do frio, explorando o local. Lisiane, Yolanda e Abrahan foram para o quarto antes que Lúcio nos servisse o café da tarde.

Durante o café, que tomamos em um “corredor” onde ficavam as mesas ocupadas pelos grupos de outros jeeps, trocamos e-mails e endereços para futuros envios de fotos. Antes do jantar voltamos a jogar o “come mierda” aprendido na noite anterior. Foi nessa ocasião que conhecemos Sebastián, um advogado equatoriano recém-formado que ganhará enorme destaque na sequência dessa narrativa, mas que até aqui não passou de um simpático membro de outro grupo de excursão que se aproximou para participar de nossa diversão.

Com a chegada do jantar – sopa, pão, macarronada com queijo e uma inesperada garrafa de vinho boliviano – interrompemos o carteado e eu não voltaria a falar com Sebastián até o dia seguinte. Lisiane e Yolanda foram dormir e eu, Mario, Abrahan e João ficamos jogando cartas somente até às 22h, pois no dia seguinte teríamos que estar no jeep às 5h30. Essa foi mais uma noite de frio torturante. O saco de dormir, os três cobertores disponibilizados pelo hostal, uma blusa de lã e a sempre gigante jaqueta não eram páreo para o frio congelante que novamente só me permitiu pouquíssimas horas de sono.

12 de julho de 2009, domingo

Comecei o dia com mais uma tentativa esforçada de higiene matinal no único, precário e imundo banheiro, que com somente 2 vasos sanitários com o sistema de “descarga de caneca” servia para todos os hóspedes indistintamente. Às 5h32 nosso jeep iniciava nosso último dia de viagem da excursão.

A primeira parada foi nos gêiseres, incrível espetáculo da natureza. De um buraco no chão sai um jato de ruidoso vapor, visão que se enriquece pelo horário em que o visitamos, quando a manhã ainda nem tinha chegado. Na sequência fomos para uma parte em que os gêiseres apresentam-se como lagos borbulhantes fétidos de enxofre, uma experiência inusitada depois de tudo o que já tínhamos visto.

Continuamos até as águas termais, um local com uma piscina feita para represar parte de águas naturais quentes nas quais um surpreendente número de turistas corajosos ignoram o frio absurdo com muitos graus negativos para, em traje de banho, deleitar-se na temperatura daquelas águas. De nosso grupo somente João e Mario tiveram coragem de ignorar o frio que nos castigava para juntar-se aos demais turistas na piscina de água quente.

Nesse lugar vimos o amanhecer entre os vapores das águas e dividimos, com muitos outros turistas, a sala onde foi servido o café da manhã. Enquanto aguardávamos Lúcio tirar a mesa e aprontar-se para seguirmos viagem, reunimo-nos em uma roda de conversa onde o assunto era o roteiro para os próximos dias. Foi aí que conversei pela primeira vez com Sebastián. Como o roteiro dele coincidia com o nosso, convidei-o a juntar-se a nós, embora isso fosse pouco provável de acontecer, já que não estávamos no mesmo grupo e não tínhamos qualquer meio para nos comunicar (meu celular ficara no Brasil). E de fato perdemos Sebastián depois que voltamos ao jeep.

A parada seguinte foi no Deserto de Dalí, assim chamado devido à semelhança das pedras espalhadas no local e das cores do lugar com os quadros do pintor. O último ponto da excursão foi a Laguna Verde, uma lagoa de exuberante cor esverdeada margeada pelo branquíssimo bórax e que reflete em suas águas os 6.200 metros de altura do Vulcão Licancabur que lhe margeia.

Mais alguns minutos de viagem e chegamos à imigração na fronteira com o Chile, onde infelizmente Mario, Abrahan e Yolanda nos deixariam para seguir pelo Deserto do Atacama.

A previsão de retorno até a cidade de Uyuni era de 7 horas. Às 12h30 paramos mais uma vez “no meio do nada” para o último almoço no deserto (salada de tomate com pepino, atum enlatado e arroz cozido com batata e cenoura –  provavelmente as sobras do almoço anterior – e Coca-Cola). Nessa parada pudemos nos aproximar e fotografar as lhamas que pastavam no local.

Continuando a viagem de volta, passamos por muitos riachos congelados, paisagem distinta mas igualmente embasbacante. Descemos no Vale das Rochas, um lugar bonito mas sem nada de realmente especial. Segundo Lúcio, a grande rocha que existe neste vale tem a forma de um dinossauro. Por mais que eu forçasse a imaginação, não consegui ver o animal préhistórico. Terei que ficar com a palavra de Lúcio. A última parada do passeio foi em um povoado chamado San Cristóbal e cujo único atrativo é uma igreja construída inteiramente em pedra.

Voltamos para o escritório da Isla Tours, onde cumprimos a promessa feita a Andréia de deixar uma mensagem em Português, a qual esperamos que se junte às demais mensagens como a primeira representante de nossa língua pátria. Antes de irmos para a companhia de ônibus (Omar Turismo), de onde partiríamos para La Paz, paramos em uma lanchonete onde comemos um sanduíche gigante enquanto víamos na televisão “Apollo 13”.

O ônibus, que nada tinha em comum com o que Andréia tinha nos prometido, estava lotado. Nesse ônibus conhecemos Fernanda e Tiene, duas brasileiras de São Paulo que nos contaram a terrível experiência que tiveram em La Paz (elas foram de La Paz a Uyuni para um passeio de 1 dia e estavam retornando a La Paz para buscar a bagagem e voltar ao Brasil). Em um aparente conluio entre um motorista de táxi e um meliante, elas foram assaltadas. Essa foi somente uma das péssimas experiências que elas tiveram da cidade, o que não nos deixou muito empolgados com nosso destino.

Ao meu lado, no corredor, viajou deitada uma chola e duas crianças. Apesar do horrível cheiro que exalava delas e da quase inexistente inclinação da poltrona, o cansaço acumulado pelas pouquíssimas horas dormidas nos últimos 3 dias me venceu e não senti as 9 horas que separam Uyuni de La Paz.

13 de julho de 2009, segunda-feira

Às 5h30 chegamos em La Paz. Dividimos um táxi com as brasileiras e seguimos para o hostal onde elas estavam, única boa recomendação que elas nos deram de La Paz. O Hostal República era realmente muito bom e agradável, embora tenha nos custado caro: Bs 298,00 que nos foi cobrado pelo quarto (com 5 camas). A notícia de que os albergues da cidade estavam lotados e o clima agradável do lugar nos fez pagar o preço pedido.

A primeira providência foi tomar banho, já que o último já datava de 3 dias. Foi o melhor banho que tive desde que saímos do Brasil (apesar da necessária e lamentável briga com a cortina de plástico que envolvia a área do chuveiro). A água era realmente quente.

Quando voltei ao quarto, João disse que tinha acabado de encontrar Sebastián passando pela frente do hostal e que dali a alguns minutos ele voltaria para juntar-se a nós para conhecermos a cidade. Sebastián também merece um capítulo totalmente destinado a ele, embora por motivos diferentes do que me levaria a escrever um sobre Mario. Apesar de ainda muito jovem, Sebastián viveu experiências em seus 24 anos que superam a de pessoas muito mais vividas. As histórias dele são incríveis. A falta de dinheiro não é empecilho para nada. Para conhecer a Europa ele passou meses estudando para participar de um concurso entre universidades em que somente os quatro melhores alunos de cada universidade participante seriam premiados. Ele foi um dos quatro!

Para a viagem pela América do Sul, valeu-se de um torneio de golfe do qual foi campeão e trocou o prêmio por dinheiro. Enquanto estávamos em Cusco e o dinheiro dele acabou, entrou em contato com um amigo no Equador para cobrar o prêmio de uma outra competição que havia ganhado (algo envolvendo bebida alcoólica em um bar). Ele é daquelas pessoas que fazem acontecer independente da sorte que têm (e vocês não acreditariam nas histórias dele envolvendo muita sorte!).

A juventude, bom humor, disposição, gentileza e lábia para conseguir qualquer coisa que queira fizeram de Sebastián uma das pessoas mais interessantes que já tive oportunidade de conhecer. Ele ganhou minha simpatia, minha admiração e minha intenção de cultivar a amizade que nasceu de forma tão peculiar e pelas mãos do destino, já que muitos foram os encontros e desencontros até chegarmos em Cusco.

Muitas são as histórias de Sebastián (principalmente as de perda de objetos durante a viagem), mas tenho que me conter em contá-las, primeiro porque não conseguirei ser tão fiel aos acontecimentos e segundo porque este é o diário da minha viagem. Sei que Sebastián já começou a escrever a dele (eu espero poder lê-la).

De volta ao meu relato, naquele dia saímos para caminhar por La Paz, uma típica cidade caótica sulamericana. É quase um milagre as pessoas permanecerem vivas com o trânsito de La Paz. Para mim é uma incógnita como não acontecem  engavetamentos e vários atropelamentos por segundo. Ao chegar nas esquinas os motoristas simplesmente buzinam e passam. Não há qualquer ordem nas ruas. É um salve-se quem puder.

Fomos conhecer o famoso Mercado das Bruxas, ruas atulhadas de lojas que vendem artesanato local e artigos para mandingas e oferendas, como os horrorosos e repugnantes fetos de lhama secos. Tudo é muito barato, o que não significa que não se deva pechinchar. Pechinchar na Bolívia é quase uma lei!

Em nossa caminhada seguimos um roteiro sugerido pelo guia de viagem de Sebastián (àquela altura ele ainda não o havia perdido!) e fomos até um famoso lugar da cidade para comer empanadas. O salgado, mais parecido com um pastel das feiras brasileiras, não tinha qualquer semelhança com as empanadas argentinas e chilenas, mas eram também saborosas. Mesmo sendo “comida de rua”, cujo consumo é largamente desaconselhado, não me causou nenhum problema.

Foi também nessa caminhada que de comum acordo vimos que não aguentaríamos a companhia de um mineiro (ele conhecera Sebastián no ônibus do trajeto Uyuni/La Paz e havia se juntado a nós no passeio desse dia) que falava demais e já estava nos irritando. Sabíamos que Sebastián ainda não tinha conseguido vaga em um hostal, mas não sabíamos se o brasileiro estava na mesma situação. Depois que me certifiquei que somente Sebastián estava desalojado, convidamo-lo a juntar-se a nós no quarto do República, já que havia cama sobrando no quarto integralmente pago por nós.

Perto do meio-dia voltamos ao hostal para comprar o tour para os próximos dias. A saída de La Paz para o sítio arqueológico de Tiwanaku, de lá para Copacabana com pernoite em hotel e café da manhã, tour de meio dia para a Isla del Sol mais transporte de Copacabana para Cusco custou-nos U$ 77,00 por pessoa.

Instalamos Sebastián em nosso quarto e saímos antes que o mineiro, que estava alojado em hostal próximo, voltasse. Saímos para percorrer as lojas e logo na primeira tienda o grupo bipartiu-se. Entramos em uma galeria de lojas e João e Sebastián não viram que eu e Lisiane estávamos nos fundos da galeria. Eles saíram e ficaram nos procurando, mas como não nos acharam do lado de fora, seguiram sozinhos. Também eu e Lisiane, ao sairmos da galeria e não encontrarmos os dois, seguimos nosso caminho e perambulamos só nós duas pelas ruas de La Paz.

O que me chamou atenção foi o transporte público. São poucos os ônibus e muitas as vans, chamadas de colectivos. Na porta, sempre aberta, vai uma pessoa gritando o destino. Veríamos isso também em Lima.

No final do dia, depois de eu e Lisiane termos parado na famosa Gelateria Dumbo (BS 6,50 na promoção “Segunda-feira da loucura”, que vende 2 sorvetes pelo preço de 1), voltamos a encontrar-nos com João e Sebastián no hostal. João estava dedilhando um violão recém-comprado. Não ficamos para desfrutar a música porque, para nosso desagrado, o mineiro estava de volta. Nenhum de nós estava confortável com a presença do mineiro e com nossa intenção de nos livrarmos dele, que planejava nos seguir até Machu Picchu, mas não podíamos aceitar um fardo indesejável em uma viagem como essa, então deixamos a dor de consciência de lado e tratamos de fugir do mineiro.

À noite, eu, João e Sebastián nos divertimos em uma pizzaria da Praça Albacoa, “point” noturno de La Paz. Terminada a pizza, o cansaço se fez presente e voltamos ao hostal para dormir.

14 de julho de 2009, terça-feira

Tomamos o café da manhã no hostal por Bs 15,00 (R$ 5,00): suco de laranja, torradas, bolo inglês, geleia, margarina e um fantástico e generoso chocolate quente. Sebastián não nos acompanhou no passeio a Tiwanaku. No criado-mudo ao lado da cama onde ele dormia deixei um bilhete indicando onde ele poderia nos achar em Copacabana, nosso próximo destino.

Uma van muito confortável e conduzida pelo Sr. Lino passou nos buscar no hostal às 9h. Fizemos uma rápida parada em um dos mirantes para contemplar a imensidão marrom de La Paz, cor que predomina pelo aglomerado de casas e espaços verdes praticamente inexistentes, um cenário que lembra muito os habitadíssimos morros cariocas.

Os caminhos de saída de La Paz estavam quase todos bloqueados. Mostrando conhecer bem as ruas da cidade, Lino encontrou uma saída, bastante congestionada pelo volume de veículos que encontravam nessa rota a única saída da cidade. No percurso vimos muitos colegiais desfilando em fanfarra em comemoração ao bicentenário de libertação de La Paz.

Depois de um pneu furado na estrada, às 10h30 chegamos a Tiwanaku, o sítio arqueológico da cultura mais antiga e importante do período pré-colombiano que remonta a 1.580 a.C. O lugar é encantador. O Sítio Arqueológico de Tiwanaku é formado pelo Sítio Arqueológico de Kalasasaya, Sítio Arqueológico de Pumapunku, Museo Litico e Museo Ceramico. No Sítio de Kalasasaya há uma área retangular de cujas paredes saem cabeças de pedra representativas dos nobres da época. Muitas são as teorias sobre as cabeças representadas, inclusive uma que atribui a visita de seres extraterrestres. Para o passeio em Tiwanaku contratamos os serviços de Blanca, uma das guias à disposição dos turistas, que cobram Bs 60,00 por grupo. O passeio dura cerca de 1h30.

O que realmente me impressionou foi o sistema de autofalante criado pelos tiwanacotas para a comunicação nos eventos em que havia grandes concentrações de pessoas. Em um comprido muro há um orifício que se assemelha à caixa auricular humana. Nossa guia falou algumas palavras nesse orifício e sua mensagem pôde ser ouvida como se estivesse fazendo uso de um megafone.

No fim do passeio o Sr. Lino levou-nos para almoçar em um restaurante simples no povoado de Tiwanaku, onde comemos truta. No fim do almoço, o Sr. Lino levantou e saiu, deixando-nos com toda a conta, inclusive a do almoço dele. Dividido por 3, o almoço custou Bs 22,00 para cada um.

Antes de seguir para Copacabana tivemos que voltar para La Paz. Após uma parada de uns 15 minutos em um borracheiro para consertar o pneu que havia furando quando íamos a Tiwanaku, seguimos viagem até as primeiras paradas às margens do Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo, a cerca de 3.900 metros de altitude, e o segundo mais extenso da América do Sul. Com mais de 8.000 Km de um azul intenso, o lago é considerado o berço da civilização inca, pois segundo a tradição local, em uma de suas ilhas surgiram Manco Kapac e Mama Ocllo, fundadores do império. A dimensão é tão grande, que é fácil confundir suas margens a uma praia e sua imensidão com o oceano.

Lago Titicaca

Para chegar a Copacabana tivemos que descer da van e cruzar parte do lago em balsa ao preço de Bs 1,50. Nessa travessia encontramos um grupo de rapazes brasileiros que utilizava linguajar impróprio e falava muito alto, tumultuando a balsa, um comportamento que lamentavelmente só envergonha os demais turistas brasileiros. Eu, Lisiane e João ficamos quietos para que não fôssemos identificados por nosso Português. Do outro lado da travessia, ficamos aguardando a van, que seguia em balsa separada, chegar.

Entramos no hotel El Mirador, onde funcionários muito mal-humorados nos recepcionaram. O hotel era bonito e o quarto tinha vista para o lago, o que muito nos surpreendeu. Tão logo chegamos encontramos Sebastián na recepção, mas não havia mais vaga no hotel. Ele ficaria em um hostal.

Deixamos a bagagem no hotel e saímos para ver o pôr-do-sol nas margens do Titicaca. João mais uma vez afastou-se de nós para tentar ver o sol baixar do alto de uma montanha, embora não tenha conseguido chegar a seu topo a tempo para isso.

Eu e Lisiane sentamos no calçadão em frente ao lago junto com outros turistas que chegavam para apreciar o espetáculo. Com a chegada da noite fomos jantar as tradicionais trutas em um dos quiosques que ficam de frente para o lago. Nesses quiosques o jantar é mais barato e a vista mais bonita do que em qualquer outro restaurante. Pagamos Bs 15,00 por meia truta, arroz e salada.

João queria sair para a “noite de Copacabana”, mas eu e Lisiane não estávamos dispostas a acompanhá-lo. Assim, enquanto ele tomava banho e se aprontava para sair, eu e Lisiane fomos procurar uma lan house. Eu ainda estava no computador dando uma olhada nos e-mails para saber se tudo corria bem no escritório quando acabou a luz. Paguei o tempo que estimei ter ficado no computador (como me disse o funcionário ao ser questionado quanto eu devia, o preço ficaria de acordo com minha consciência). Ficamos mais um tempo na lan house aguardando a luz voltar, mas como isso não acontecia, aventuramo-nos pela rua às cegas. Toda a cidade estava em black out.

Encontramos o hotel e subimos a escadaria em frente da entrada, mas não nos atrevemos a continuar porque dentro do hotel a escuridão era total. Perguntei se havia alguém na recepção, mas não obtive nenhuma resposta. Passados cerca de 5 minutos, alguém finalmente apareceu e nos auxiliou com a luz de um aparelho celular para identificarmos os sofás da recepção. Vislumbrei os contornos do sofá, mas não a mesa de centro que havia no caminho até ele. Essa falta de visão quase me custou os dois joelhos, agraciados por hematomas depois do ruidoso encontro com a mesa.

Pedi uma vela ao rapaz da recepção para que pudéssemos ir ao quarto, mas ele disse que vela nos quartos era muito perigoso. Como a luz insistia em continuar ausente, ele teve que ceder e nos dar uma vela. Já no quarto, enquanto eu me aventurava a localizar minhas coisas na mochila, Lisiane descobriu que o chuveiro não era elétrico e tomou banho com a pouca luminosidade que a vela permitia. Como naquele dia eu já tinha tomado meu banho em La Paz, deixei o banho para a manhã seguinte, quando seria mais fácil localizar minhas roupas.

15 de julho de 2009, quarta-feira

Pela manhã descobri que a decisão do dia anterior não havia sido boa ideia. Além da luz, que ainda não voltara, agora também faltava água. O banho teve que ser cancelado. Antes do café da manhã João contou-nos como havia sido sua noite.

Com o falta de luz, João e Sebastián tiveram a ideia de fazer um lual na beira do lago aproveitando os dons musicais de João e a presença de um violão. Compraram lenha e cervejas e montaram uma fogueira às margens do Titicaca, ideia que parecia ter tudo para dar certo. Mas… não demorou para que a polícia aparecesse no local. Depois de um bate-boca entre Sebastián e os policiais, a ameaça de levar todos presos dissipou o grupo.

João tentou voltar ao hotel, que estava fechado. Eu havia lido algo a respeito em um guia de turismo, mas além de não ter dado muito crédito à informação (hoteis que fecham à noite?!?), esqueci de comentar o fato com meus companheiros. João foi até o hostal de Sebastián mas não suportou a conversa sobre política que os estrangeiros conduziam para passar o tempo. Voltou então ao hotel e encolheu-se como pôde na escadaria para proteger-se do frio. Depois de muito tentar chamar alguém e bater na porta, finalmente conseguiu entrar no quarto às 4h30.

Tomamos café da manhã no restaurante do hotel fracamente iluminado pela luz que entrava pelas janelas e saímos para o passeio na Ilha do Sol. Escolhemos ir na parte superior do barco, com bancos a céu aberto, o que nos submeteu ao frio intensificado pelo vento que sopra no lago. Três barcos saíram quase no mesmo horário. Em um deles avistamos o mineiro. No outro estava Sebastián.

Depois de uma hora de lenta travessia, chegamos na ilha, pagamos a entrada (Bs 5,00) e subimos o morro para a vista deslumbrante do local. Na subida encontramos cholas, burros de carga e crianças acompanhadas por lhamas que cobram para tirar fotos. Descobrimos construções e hostals muito bonitos no topo do morro, mas tínhamos que voltar para seguir viagem (não sabíamos da possibilidade de pernoitar na ilha). A beleza, contudo, não chega a impressionar, pois, excluídas as peculiaridades, é a beleza que os brasileiros estão acostumados a ver, até porque o lago é tão extenso que se pensa estar diante do mar.

No retorno a Copacabana almoçamos novamente nos quiosques que vendem trutas e depois saímos caminhar pela cidade e fomos até a igreja na praça central. No fim da tarde, com vontade de comer um doce, entramos em um restaurante que oferecia sobremesas no menu. João e Lisi pediram sorvete com salada de frutas e eu pedi um sorvete com chocolate. Depois de quase 1 hora esperando os sorvetes, o garçom nos informou que não havia o que pedimos. A péssima prestação de serviço também seria quase uma constante em toda a viagem.

Saímos para comprar chocolate (a vontade pelo doce não sumiu com a espera no restaurante) e nos dirigimos ao local indicado em nosso voucher (adquirido em La Paz) para o transporte até Cusco: “Avenida 16 de Julio, letrero Vicuña, El Obelisco”. Subimos 3 quadras de ladeira com as pesadas mochilas nas costas, mas não encontramos o lugar e não havia ninguém na rua que pudesse nos dar informações. Paramos em frente ao que achávamos pudesse ser o obelisco mencionado nos guias.

Colocamos as mochilas no chão e enquanto Lisiane e João ficaram cuidando da bagagem, eu continuei caminhando para tentar obter informação. Nesse caminho levei um grande susto ao quase ser atacada por um porco, que só não logrou seu intento porque a corda que o amarrava – para meu alívio e para infelicidade do porco – não era longa o suficiente para o porco. Passado o susto, e vendo que eu não chegava a lugar nenhum, fiz o caminho de volta até a praça central da cidade.

Quando finalmente encontrei a agência responsável por nosso voucher (que não ficava na Av. 16 de Julio!), fui informada que os dados que constavam no voucher estavam errados. O horário correto da saída do ônibus era 13h30 e não 17h30. Como foi um erro de quem vendeu a passagem, a Sra. Inês, que nos atendeu, disse para voltarmos às 18h para que ela nos colocasse em outro ônibus.

Como precisávamos matar o tempo, voltamos ao restaurante da sobremesa, pois sabíamos que demoraria muito para sermos atendidos, ou seja, teríamos tempo suficiente para ficar lá sentados. Tomamos um café e matamos o resto do tempo na lan house que ficava ao lado do restaurante.

Às 18h voltamos para a agência de viagem e fomos colocados em uma van que nos levaria até a fronteira com o Peru. A boa surpresa foi o reaparecimento de Sebastián (a última vez que o víramos foi acenando do barco que o levou à Ilha do Sol), que pegaria o mesmo ônibus que nós com destino a Cusco. Na van conhecemos outro curitibano, Fábio, um formando em Direito e Economia que nos indicou um hostal para ficarmos em Cusco, o famoso e badalado Loki Backpackers.

Descemos da van na fronteira para carimbar no passaporte a saída da Bolívia e, já no lado peruano, tivemos que preencher um formulário sobre nossas condições de saúde e carimbar o passaporte de entrada no Peru. Terminados esses procedimentos, subimos no ônibus, desta vez lotado exclusivamente por turistas. Eu e Lisiane sentamos juntas, Sebastián no banco de trás e João atrás de Sebastián. Segundo eles, deixar um banco livre ao lado de cada um era uma estratégia para “tentar a sorte”, o que significava a esperança de ter por companhia alguma gringa interessante. Quem se deu mal foi Sebastián, que teve por companhia o chato do mineiro que reapareceu e não deixou em paz os pobres estrangeiros que sentavam à nossa volta.

Na rodoviária de Puno, já no Peru, trocamosde ônibus. A rodoviária, bem mais organizada do que as que já havíamos passado, também estava cheia de funcionários das viações anunciando a plenos pulmões os destinos de seus ônibus: “Arequipaaaaaaa, Cochabambaaaaa”, sempre com a última sílaba arrastada.

Na rodoviária aprendi que no Peru a maioria dos banheiros públicos não levam, em sua identificação, a denominação de baño, mas de servicios higiénicos, identificados pelas siglas SS HH. Mas a higiene limita-se ao nome. Em que pese o SS HH da rodoviária de Puno estivesse “aceitável”, esta não foi a realidade encontrada em todos os demais SS HH que encontrei em meus destinos pelo Peru.

Entramos em um grande e confortável ônibus de 2 andares. Nossos assentos, de números 62, 63 e 64, ficavam na parte de baixo, em uma área separada com somente 8 poltronas. O amplo espaço e a inclinação do banco permitiram que eu passasse as horas de viagem dormindo.

16 de julho de 2009, quinta-feira

Chegamos em Cusco às 4h30 e pegamos um táxi por Bs 10,00 (o que foi uma extorsão, considerando os preços realmente praticados na cidade) e fomos para o Hostal Loki Backpackers.

Enquanto Sebastián e Lisi verificavam vagas e preços, eu e João seguimos por mais algumas quadras para consultar o Hostal Puñuna Wasi (que em quéchua significa “Casa de Dormir”).

Ainda na rodoviária recebemos um folder do hostal (Av. Arcopata, no 408). As fotos mostravam estações com 6 computadores com acesso a internet, banheiro com box e camas com cabeceiras em madeira separadas por criados-mudos encimados por luminárias indiretas. Os quartos que encontramos  eram muito (muito!!) diferentes das fotos publicitárias. E computador só havia 1 na recepção, na maior parte do tempo ocupado pelo próprio staff.

Quando questionado sobre o fato, o dono da hostal limitou-se a responder que as fotos eram “ilustrativas”. O único anúncio que se revelou verdadeiro foram os precios económicos. O preço era Ns 15,00 por pessoa em quarto quádruplo com banheiro privado, mas negociamos por Ns 10,00 (cerca de R$ 6,00), que era o preço que haviam nos anunciado na rodoviária. Voltamos buscar Sebastián e Lisi, que nos deram a  informação de que o Locki estava lotado.

Entramos no quarto e nos jogamos nas camas sem trocar de roupa, já que o dia não tardaria a amanhecer, mas estávamos todos tão exaustos que só acordamos quando já passava das 10h. Tomamos banho (a surpresa foi que a água era quente mesmo) e saímos para trocar os dólares por nuevos soles (US$ 1,00 = Ns 3,00; R$ 1,00 = R$ 1,30) e comer. Sebastián ficou no hostal e marcou de encontrar-se conosco às 14h30  em frente à catedral.

Cusco é uma cidade muito bonita. A praça central e a catedral que a domina impressionam. É um lugar cheio de vida, flores, bandeiras e cores. Fica fácil entender a abrangência da palavra “império” quando se está em Cusco. A praça é também margeada por galerias comerciais com lojas luxuosas, daquelas nas quais nem nos atrevemos a entrar, e por muitos restaurantes, inclusive lanchonetes de fast food.

Almoçamos na varanda de um restaurante em frente à catedral, o que nos deu uma privilegiada vista da praça, de onde também vimos uma das várias manifestações populares em comemoração às “festas pátrias” que aconteciam pelas várias cidades em que passamos. Por Ns 8,50 comi um sanduíche de hambúrguer de frango.

De lá fomos tomar um sorvete (Ns 2,00) e seguimos para a Catedral. Para conhecer o interior de todo o complexo (há mais de uma nave), é preciso pagar Ns 50,00, “fortuna” da qual não dispúnhamos para visitação de igrejas. No caminho encontramos uma vez mais o mineiro chato, que nos contou que no dia seguinte iria a Machu Picchu. Não respondendo com muitos detalhes as perguntas que ele nos fazia, logo nos despedimos dele, indo em seguida encontrar-nos com Sebastián.

Enquanto nós almoçávamos, Sebastián aproveitou o tempo para passar em um escritório de informações turísticas e nos contou que havia pacotes para visitar os sítios arqueológicos ao redor de Cusco. Caminhamos até uma dessas agências, onde nos foi dito que o ticket completo, com validade de 10 dias, dava direito a todos os sítios da região e custaria Ns 140,00. Um mais restrito, com validade de 2 dias e direito a visitar 4 sítios (Ollantaytambo, Moray, Pisaq e Chinchero) custaria Ns 70,00.

Como estávamos com pouco tempo e pouco dinheiro, escolhemos essa segunda opção. Contudo, esse ticket não era vendido no escritório de turismo. Teríamos que nos dirigir diretamente a um daqueles sítios e lá comprar o ingresso. A atendente turística nos entregou um mapa e explicou como faríamos para ir até Pisaq, por onde deveríamos começar. Faríamos isso no dia seguinte. A prioridade no momento era providenciarmos as passagens que nos levariam aos caminhos de Machu Picchu.

Tiramos algumas fotos e pegamos um táxi (negociado por Sebastián por Bs 3,00, para o trajeto e não por pessoa) para comprar a passagem de ônibus para Santa Maria. A viagem tradicional de Cusco a Águas Calientes, onde fica Machu Picchu, leva três horas, mas os trajetos de ida e volta custam pouco menos de US$ 200,00, dinheiro que nos faria muita falta. Optamos então por enfrentar uma rota alternativa que Sebastián havia nos sugerido e que será adiante narrada. O primeiro trajeto dessa rota alternativa era Cusco-Santa Maria, que faríamos de ônibus. A passagem, também negociada por Sebastián, nos custou Ns 18,00. Compradas as passagens, voltamos ao centro para percorrer as lojas de artesanato.

No início da noite passamos em um mercadinho para preparar nosso jantar e o café da manhã do dia seguinte. Gastamos Ns 41,00. De volta ao hostal, João preparou nosso jantar e comemos ouvindo Sebastián contar-nos, orgulhoso, sobre as maravilhas de seu país, em especial sobre Quito e as Ilhas Galápagos. Depois do jantar, João e Sebastián saíram para a noite cusquenha e eu e Lisiane fomos dormir. Na manhã seguinte acordaríamos para pegar um ônibus que nos levaria a conhecer os parques arqueológicos ao redor de Cusco. Sebastián não nos acompanharia neste passeio.

17 de julho de 2009, sexta-feira

Acordamos às 6h20 e preparamos o café da manhã na cozinha do hostal. Fomos informados que se quiséssemos continuar lá teríamos que pagar Ns 15,00 por pessoa porque o quarto tinha banheiro privado. Se não aceitássemos pagar, havia outros turistas interessados. Como tínhamos interesse em permanecer no lugar, principalmente pela cozinha que podíamos utilizar, e sabíamos que seria muito difícil conseguir outro local pelo mesmo preço, não criamos caso por Ns 5,00.

O dono do hostal ofereceu-nos uma carona até a praça central (economizamos a caminhada) e de lá seguimos as poucas quadras até o local de saída das vans para Pisaq (32 Km de Cusco). O trajeto com a van custou-nos Ns 3,00 por pessoa. Chegando na cidade encontramos uma placa de “informações turísticas”, onde eu achei que seria possível comprar o ticket para os passeios.

O lugar era, na verdade, um bar, onde, como sempre, havia nativos comendo sopa de frango, apesar de ainda ser 8h. Uma moça levou-nos a um taxista que nos disse que era preciso subir até a bilheteria do sítio arqueológico de Pisaq e depois seguir, também de carro, até a entrada do sítio. Pagamos Ns 5,00 por pessoa (a alternativa seria percorrer os 7 Km a pé).

O passeio por Pisaq, todo feito a pé, durou 1h30. Flechas de cimento pintadas de branco e azul indicam o caminho a seguir. As ruínas, cercadas de altíssimas montanhas, foi nosso primeiro contato com as edificações de pedras das antigas culturas incas. Chegamos tão cedo que não encontramos nenhum outro turista durante todo o caminho. No sítio há banheiro público, mas daqueles que a “louça sanitária” é um quadrado encaixado no chão. Para nós já não fazia diferença, já que era incogitável encostar em qualquer tipo de louça sanitária, considerando a eterna falta de limpeza em todos os banheiros da Bolívia.

O taxista que nos levou até a entrada do sítio ficou nos aguardando na saída (e não nos cobrou nada por esta espera). Pagamos mais Ns 5,00 por pessoa para descer até a cidade. De lá pegamos um micro-ônibus para Urubamba, descemos no terminal rodoviário e pegamos um táxi para Ollamtaytambo (93 Km de Cusco) a Ns 2,50 por pessoa. Em Ollamtaytambo (pronuncia-se “Olhantaitâmbo”) pagamos Ns 30,00 pelo serviço de um guia, o que foi de extrema importância para entendermos a história e a arquitetura do local. Com a ajuda do guia conseguimos identificar o rosto de um inca no alto da montanha (que nem saberíamos que existe se não o tivéssemos contratado).

Ollantaytambo é interessantíssimo. Subimos as íngremes e altas escadas e pudemos vislumbrar o vale do alto. Ali pudemos sentir a grandiosidade da engenharia e arquitetura incas. O lugar é incrível. Após o tour almoçamos em um restaurante com vista para o sítio. Por Ns 12,00 comemos espaguete com refrigerante. De sobremesa um picolé Kibon que não conhecemos no Brasil (Ns 2,00).

Dali teríamos que seguir para Moray, na cidade de Maras, a 53 Km de Cusco. O que não sabíamos, quando compramos o ticket, é que os sítios são distantes uns dos outros e o meio de ir de um a outro é “te vira!!”. Perguntando íamos descobrindo como era possível o deslocamento. Em Ollantaytambo um táxi ofereceu-sese para levar-nos a Moray e depois a Chinchero por Ns 80,00. Achamos absurdo (e não estávamos dispostos a gastar tanto) e encaramos continuar pelo roteiro “te vira”.

Um táxi nos cobrou Ns 5,00 por pessoa para nos deixar em um ponto da estrada onde haveria uma van para nos levar até Moray. Neste ponto tomamos a van por Ns 10,00 por pessoa para ida e volta (e teríamos tido que pagar qualquer preço que nos fosse solicitado, pois dali até Moray eram 13 Km, que definitivamente não estávamos dispostos a fazer a pé, e nem teríamos tempo para isso).

Eu nunca havia ouvido falar de Moray e não fazia ideia do que iria encontrar, apesar do esboço de fotografia em nosso ticket. Moray é um conjunto de terraças circulares concêntricas que servia de experimentação agrícola durante o império inca. Cada nível das terraças tinha seu próprio microclima para reproduzir os vários pisos ecológicos do império, cada um com temperatura distinta da outra. Descer (e depois subir) os degraus de cada nível das terraças é tarefa que deve ser quase impossível para pessoas de pernas curtas, pois os degraus são pedras suspensas encravadas nas paredes das terraças com distâncias entre um degrau e outro que exige força dos músculos femurais.

Voltamos de van até o ponto onde a havíamos tomado e esperamos um micro-ônibus que nos levaria até o próximo e último ponto por Ns 1,50: Chinchero. O ônibus apareceu lotado e tivemos que fazer todo o percurso, de aproximadamente 20 minutos, em pé no corredor. Em Chinchero, um povoado a 3.762 metros acima do nível do mar, destaca-se uma igreja colonial construída sobre ruínas incas e restos arqueológicos.

Em frente da igreja vendedores disputam espaço para vender as mercadorias que anunciam. Para que o local possa impressionar, deve ser visitado antes de Ollantaytambo e Moray. A ida até lá, para mim, serviu mais para concluirmos o circuito dos quatro locais arqueológicos da visitação do que propriamente por ter visto o que o local oferece.

Pretendíamos pegar o mesmo ônibus que nos levou a Chinchero para voltarmos a Cusco, mas a quantidade de pessoas que aguardavam o ônibus que certamente já chegaria lotado nos fez optar por um táxi. Depois de negociarmos o preço com os que estavam disponíveis, pagamos Ns 7,00 por pessoa e fomos deixados na porta de nosso hostal.

Ao entrarmos no quarto descobrimos que não havia água e infelizmente não seria somente para o banho que ela faria falta. Vaso sanitário e pia também estavam secos, o que nesse momento tornava o banheiro privado uma grande desvantagem. Outra descoberta foi que Sebastián nos deixaria aquela noite porque ele conseguiu uma vaga no disputadíssimo albergue Locki, famoso pelas festas e quartos de até 30 ocupantes.

Sebastián era um companheiro formidável, mas muito mais festeiro (e jovem) do que os 3 brasileiros que viviam cansados. Segundo ele, foi preciso muita lábia para conseguir a vaga, mas isso Sebastián tem de sobra. Não há o que ele não consiga, seja pela sorte ou pelo cansaço que ele dá em vendedores e atendentes. Perdemos o companheiro de quarto, mas felizmente não o companheiro de viagem. No dia seguinte ele tomaria o desayuno conosco às 7h para iniciarmos o trajeto até Machu Picchu. Como a ida tradicional (Cusco-Águas Calientes-Cusco) estava muito cara e afetaria nossos já precários bolsos, pegaríamos uma rota alternativa mais barata e certamente mais divertida e infinitamente mais cansativa.

Depois de combinarmos o horário com Sebastián para o dia seguinte, eu, Lisi e João voltamos ao restaurante da Praça de Armas onde fôramos no dia anterior e “jantamos” nossos sanduíches. Na volta para o hostal passamos em um pequeno mercado (há vários em Cusco) para comprar o café da manhã do dia seguinte. Nossa esperança de encontrar água no retorno ao hostal foi frustrada. O banho teria que encontrar mais sorte no outro dia.

18 de julho de 2009, sábado

Pela manhã, diante da permanência da falta de água, o banho continuava sem data prevista para acontecer. Na cozinha do hostal tomamos nosso café da manhã comprado no dia anterior em um dos mercadinhos espalhados por Cusco (solução prática e econômica): leite longa vida, pão de fôrma com geleia de morango e o brasileiro Nescafé. Às 7h15 Sebastián juntou-se a nós para uma xícara de café com leite.

Deixamos nossa bagagem no hostal (novamente “no fio do bigode”, sem qualquer ticket de entrega ou identificação nas mochilas) e pegamos um táxi (Bs 3,00) para o local onde pegaríamos o ônibus. “Rodoviária” não é uma palavra que se possa atribuir ao lugar. Os ônibus, que disputam espaço na rua com pessoas, carros, cachorros e barraquinhas, estacionam em frente à porta de sua respectiva empresa.

A certeza de estar no lugar certo se consegue identificando-se a pessoa que lhe vendeu a passagem. Antes de subirmos no ônibus, um funcionário entrou com balde e um frasco de desodorizador, o que era mau prognóstico. Terminada a “limpeza”, entramos e tentamos nos acomodar nos sempre insuficientes espaços entre as poltronas.

Lotados os assentos, o corredor começou a ser tomado pela população local e, pela primeira vez desde que saímos do Brasil, com animais. Não eram porcos, cachorros ou galinhas passeando pelos corredores, como esperávamos encontrar. O único sinal da presença deles eram os sons, uma “sinfonia de pintinhos” que nos acompanhou por grande parte do trajeto. O cheiro das pessoas cujo problema com a falta de banho era bem mais grave e pronunciado do que o nosso começava a misturar-se com o enjoativo cheiro dos quase sempre ineficientes desodorizadores de ambiente.

Com meia hora de atraso, o motor do ônibus foi finalmente ligado e uma menina que ocupava o último banco começou a chorar e a gritar desesperadamente por sua mãe, que ainda não entrara no ônibus. Passamos alguns minutos ouvindo os berros de “esperen mi mamita”, que cessaram tão logo a “mamita” foi encontrada, dando novamente espaço para os pintinhos cantores.

Mal saímos e o ônibus parou. Somente depois que alguns passageiros começaram a gritar – entre eles um indignado Sebastián – é que o ônibus finalmente seguiu viagem. Já eram 9h. Em uma rápida parada em Urubamba, o ônibus foi invadido pelos vendedores ambulantes, que se debruçavam sobre os passageiros para alcançar a janela e comunicar-se com quem estava do lado de fora.

Como sempre, vendia-se de tudo, de suspeitos líquidos coloridos ensacados a cenouras ainda com terra e raiz. Seguimos viagem e o terrível cheiro das cholas, o choro de crianças e a sinfonia aviária eram recompensados com o deslumbramento da paisagem do caminho.

Passávamos por desfiladeiros ao pé de montanhas de cores incríveis, ladeadas por outras montanhas com picos nevados. As curvas eram tão sinuosas que o ônibus precisava buzinar para anunciar sua presença antes de entrar em cada uma delas (o que nos fez ouvir muita buzina!). Em alguns trechos o ônibus quase parava para passar ao lado de caminhões, disputando em centímetros o espaço necessário para que ambos pudessem seguir seus respectivos caminhos.

O tempo previsto para a viagem até Santa Maria era de 6 horas. Estávamos rodando há umas 4 horas e não se via nenhum povoado. Comecei a ficar seriamente preocupada com o problema da necessidade de banheiro (no ônibus até havia um, mas estava trancado). Quando eu já estava cogitando a hipótese de ir falar com o motorista para ele “dar uma paradinha”, chegamos a uma “vendinha” na beira da estrada, onde também havia um casebre de péssima aparência identificado pela “salvadora” sigla SS HH.

Havia 3 “portas”: uma de saco de estopa e duas de madeira, mas que não eram “altas” o suficiente para esconder a identidade do usuário. Do lado de dentro da porta, nada muito diferente do que eu, infelizmente, já estava ficando acostumada: um vaso sanitário imundo sem qualquer ligação com encanamento ou água. Para o que eu não estava preparada – embora muito já tivesse ouvido – foi presenciar os hábitos das cholas, que em qualquer lugar e na frente de qualquer pessoa, da forma mais natural que se possa imaginar, abaixam-se, erguem as saias, aliviam-se, levantam e saem andando. Sem “cerimônia”. Sem constrangimento. Sem preocupação com limpeza, com higiene ou com a agressão aos narizes alheios.

Depois dessa parada seguimos o trajeto por estrada de terra até Santa Maria. Mal havíamos colocado os dois pés fora do ônibus, fomos “atacados” por uma turba de motoristas ávidos por conseguir turistas para lotar suas vans. Estávamos quase sendo disputados a tapas. Os motoristas discutiam e acusavam-se mutuamente de não possuírem licença para conduzir turistas e para passar pelos policiais que estariam no caminho. A reação era tirar as licenças dos bolsos para provar aos turistas a habilitação e dois motoristas já estavam até apostando para provar que passavam pelos policiais. Sem muitos critérios para definirmos, negociamos preço.

Subimos em uma van que cobrou Ns 6,00 por pessoa e nos garantiu que sairíamos ahorita, sem demora, imediatamente. Além de João, eu, Lisiane e Sebastián, juntou-se a nós um casal de israelenses cujos nomes sou incapaz de reproduzir (porque fui incapaz de entendê-los e escrevê-los).

O motorista da van fez várias manobras e estacionou-a em uma posição perpendicular ao local onde estava anteriormente, a poucos passos de onde havíamos embarcado, estacionando em frente a um restaurante para esperar outros turistas que almoçavam (almoço que havíamos adiado porque queríamos seguir viagem sem perder tempo). Minhas reclamações foram em vão. “Amiga, son turistas como usted, vamos esperar solamente 5 minutitos”, justificava-se o motorista.

Os 5 minutinhos duplicaram até que os recém-alimentados turistas (nossa única alimentação do dia continuava sendo o já longínquo café da manhã) juntaram-se a nós: 3 franceses, 2 espanholas, 2 australianas e 1 equatoriano. As australianas desceram em Santa Tereza, os demais continuaram conosco até o destino final da van: a hidroelétrica, ao lado da linha do trem.

A mesma linha que não seguiríamos pelo caríssimo trem, seguimos a pé por 8 Km até a estação de Águas Calientes, o que fizemos equilibrando-nos sobre os dormentes. Antes de enfrentar o percurso, consegui comprar um pacote de Doritos de 45g, que foi o “almoço” daquele dia, às 16h. Não havia tempo nem alternativa para algo mais substancial.

No começo da caminhada tudo estava ótimo. Lugar bonito, caravana multirracial e idiomas misturando-se em uma constante e fascinante tentativa de comunicação. Com os equatorianos e com as espanholas a conversa estabeleceu-se de forma rápida e fácil, com os franceses foi impossível e com os israelenses foi em um inglês quase “ininteligível”, possível mais pela força de vontade e simpatia do que pelo o que estava (provavelmente) sendo dito.

Com a proximidade da noite, a caminhada já não estava mais sendo tão  prazerosa. Não fossem as 3 ou 4 lanternas de viajantes mais prevenidos, continuar teria sido impossível. Em alguns trechos não havia chão debaixo dos dormentes, que ficavam suspensos sobre espaços vazios. Para mim foi a parte mais difícil por causa da tontura e da falta de equilíbrio que me assolava, dificuldade que transpus com a ajuda e gentileza de Sebastián, que pacientemente seguia estes pequenos trechos me conduzindo pela mão, parando espaços de tempo mais longo em cada um dos dormentes que eu passava com insegurança.

Saímos do trilho quando chegamos na estação de Águas Calientes, mas, sem nenhuma placa indicativa que nos pudesse auxiliar, ao invés de tomar o  caminho que nos conduziria a Águas Calientes, acabamos indo em direção à estrada que leva a Machu Picchu. Cansados, esgotados e famintos refizemos o trajeto erroneamente transcorrido e continuamos por uma estrada de terra, fracamente iluminada pelas lanternas cujas pilhas já davam sinal de fraqueza, em busca da entrada de Águas Calientes. Neste ponto o equatoriano e os franceses ficaram em um camping e nos deixaram.

Caminhamos por mais uns 15 minutos. Uma montanha altíssima do lado direito e hotéis luxuosos do lado esquerdo impressionam a chegada na cidade. A missão agora era encontrar um lugar para dormir. Os hostals por onde íamos passando estavam lotados. Os preços eram em dólares e assustadoramente altos para o que podíamos e estávamos dispostos a pagar.

Chegamos no hostal Los Caminantes (Av. Imperio de los Incas, no 140), que cobrava Ns 15,00 por pessoa, mas só havia 5 camas e estávamos em 8 pessoas (eu, Sebastián, João, Lisiane, as 2 espanholas e os 2 israelenses). Não queríamos dividir o grupo, mas não podíamos ignorar o preço nem a falta de vagas nos demais hotéis. Sebastián, que adoravelmente sempre tomava a frente para resolver qualquer situação que nos aparecesse, determinou que eu e Lisiane ficássemos naquele hostal enquanto os demais, divididos em duplas, procurariam vagas para os 3 que não poderiam ficar conosco.

Durante o tempo em que os intrépidos caminhantes buscavam outro hostal, eu e Lisiane aproveitamos para tomar banho. Ela disse que conseguiu um chuveiro com água morna. O que eu usei estava gelado. Rejeitar aquela água fria era luxo ao qual eu não poderia me dar, considerando o vencimento da validade do último banho. Junto com o desafio de entrar no chuveiro frio em uma noite fria, estava o de alojar roupas, botas, xampu e sabonete dentro de um mesmo espaço. Aquele não foi o primeiro e nem seria o último desafio, mas foi igualmente vencido.

Passados cerca de 30 minutos, Sebastián e os israelenses voltaram informando que as espanholas e João tinham encontrado vaga em um hostal perto dali. Encontramo-nos na agradável pracinha da cidade, onde escolhemos um dos restaurantes que a rodeiam para jantar. Sebastián negociou que qualquer prato fosse cobrado a Ns 15,00 e pude experimentar uma das deliciosas comidas típicas do Peru: aji de pollo. Com a Coca-Cola, o jantar ficou a Ns 20,00. Comemos, conversamos, rimos e nos divertimos, finalizando a noite com a programação do dia seguinte, que começaria às 4h porque seguiríamos até Machu Picchu a pé ao invés de pagarmos por 20 minutos em tranquilos e confortáveis ônibus que cobram US$ 8,00 para o trajeto.

19 de julho de 2009, domingo

Eu mal havia dormido quando o despertador tocou às 4h. Levantei, acordei todos meus companheiros de quarto e às 4h30 já estávamos em frente ao hostal (depois de acordar os proprietários para que abrissem a porta para nós) esperando João e as espanholas irem encontrar-se conosco. A intenção, além de evitar o custo com o ônibus, era chegar em Machu Picchu o mais cedo possível para ver o nascer do sol e para conseguir os concorridos ingressos dados aos 200 primeiros visitantes que chegam e que dá acesso a uma área restrita do parque, no alto da famosa montanha que é o cartão postal de Machu Picchu.

Há 2 alternativas para seguir o caminho a pé: a primeira pela longa estrada em zigue-zague (mesmo caminho utilizado pelos ônibus) e a segunda subindo os morros em linha “reta” ascendente, cortando a estrada, mas exigindo muito esforço físico para o que parece ser uma eterna subida por degraus de pedra irregulares e altos. Esse caminho “entrega” os desafetos de atividades físicas, ficando evidente a falta de condicionamento físico que provoca o arrependimento das caminhadas abandonadas e academias negligenciadas nos meses anteriores à viagem.

Eu segui o caminho com dificuldade, precisando de paradas para recuperar o fôlego, mas quem mais sentiu a exigência da jornada foi Lisiane, que precisava de seguidas e constantes paradas. Ela foi bastante insistente para que continuássemos sem ela, que seguíssemos até o topo para alcançar o objetivo de termos saído tão cedo, mas éramos companheiros de viagem e essa possibilidade estava fora de questão. O casal de israelenses nos acompanhou, mas Sebastián e as espanholas (e depois os franceses, que apareceram durante o trajeto e nos alcançaram) continuaram a marcha e os perdemos de vista.

Demoramos a chegar, o sol nascendo nos pegou no meio do caminho e não conseguimos um dos privilegiados 200 ingressos, mas fizemos todo o caminho juntos, superando cada necessidade de recuperação de fôlego e lentamente aproximando-se da “linha de chegada”. Para mim, esse companheirismo tem mais valor do que qualquer um dos objetivos perdidos. De qualquer forma, o objetivo principal, que era chegar a Machu Picchu, fora plenamente alcançado.

Na entrada do parque já havia uma fila enorme de turistas. A entrada custou Ns 124,00 (U$ 40,00) por pessoa (estudante paga meia: Ns 70,00). Não permitiram que João entrasse com seu violão, que teve que ficar no guarda-volumes. Passamos pelo controle de entrada e após poucos minutos de caminhada chegamos ao que se pode chamar de “cartão postal” de Machu Picchu, a famosa imagem que retrata o local para o mundo.

Eu e João optamos por seguir as indicações para a Montaña Machu Picchu. Da base da montanha avistávamos o pico muito alto com uma bandeira no topo, lááááááááá em cima. Começamos o percurso que só seria concluído duas horas e meia depois. O caminho é cansativo (principalmente depois de nossas últimas caminhadas) e por vezes perigoso, pois muitas das inúmeras e irregulares escadas de pedra não eram ladeadas por qualquer tipo de proteção, nem mesmo naturais, como barrancos ou árvores. No meio do caminho dividi com João a única garrafa de água (de 600 ml) que eu carregava na mochila. Só voltaríamos a nos hidratar após a descida da montanha.

Para mim a subida foi bastante penosa, mas como tudo nesta viagem, a vista acabava compensando tudo. Magnífica! Do altíssimo topo daquela montanha é possível ver não somente as ruínas de pedra do sítio arqueológico diminuídas pela altura, mas tudo o que está nos 360o que o rodeiam: montanhas nevadas, os rios da região, a ponte da ferrovia por onde passamos a pé, a hidroelétrica e a terra incrivelmente dobrada e enrugada em vales e montanhas.

Ficamos alguns minutos desfrutando aquela vista fantástica e iniciamos a descida, o que foi um castigo infringido aos meus joelhos, que tiveram que suportar todo o impacto da irregularidade do íngreme caminho. Quando voltamos à base da montanha, precisávamos nos hidratar com urgência. Saímos do sítio e dirigimo-nos à única lanchonete que há na entrada do parque. É um daqueles lugares que ao invés de explorarem o turismo, exploram o turista. Um copo de Coca-Cola e uma garrafa de 300 ml de água custaram a absurda quantia de Ns 22,00 (quase R$ 17,00). Como eu precisava de líquido “a qualquer custo”, desembolsei os NS 22,00.

Hidratados, voltamos ao parque para conhecer as ruínas. Lisiane, que não nos acompanhou na subida à Montaña Machu Picchu, já havia visitado as ruínas e ficou do lado de fora do parque esperando-nos. A esta altura o parque já estava cheio de turistas das mais variadas nacionalidades e idades, de crianças de colo a “idosos”. Surpreendeu-me a quantidade de excursões da terceira idade. Só o que não é velho em Machu Picchu é o espírito dos visitantes.

A grandiosidade do local impressiona. A engenhosidade humana parece não ter encontrado limites naquele lugar. Enormes construções de pedra desafiam as leis da física, permanecendo sólidas e firmes em cima de montanhas e na beira de penhascos, da mesma forma como o encaixe de pedras totalmente irregulares intrigam estudiosos das ciências exatas. E essa engenhosidade supera a própria imensidão física daquela cidade de pedra quando se pensa na época em que tudo foi construído, em uma região de dificílimo acesso e sem as facilidades da moderna tecnologia e meios de transporte. Enquanto o Salar do Uyuni impressiona pela grandiosidade da obra divina, Machu Picchu é a prova da grandiosidade da obra humana.

Em alguns pontos do parque lhamas pastam despreocupadamente, assistidas por turistas que aproveitam para deitar nas terraças para descansar e tomar sol. Alguns se sentem tão à vontade, que não hesitam em ficar somente de bermudas, exibindo uma brancura de inquestionável origem norte-americana ou europeia.

Terminamos nosso passeio pelas ruínas e dirigimo-nos para a saída do parque, onde encontramos Sebastián nos esperando. Ele lamentou não nos ter encontrado anteriormente, pois ele conseguira entrada extra (resultado de sua sempre incrível lábia) para subir a Waynapicchu (o lugar onde somente os 200 primeiros privilegiados turistas a chegar têm acesso) e queria compartilhar comigo ou com João.

Ficamos um tempo na entrada do parque aguardando as espanholas juntarem-se a nós. Enquanto isso, fomos encontrando outras pessoas que já haviam cruzado nosso caminho anteriormente, como uma família de chilenos e um casal de argentinos que estavam no mesmo hostal que nós em Cusco. Aproveitamos o tempo para tirar algumas fotos e como as espanholas demoravam a retornar (e como estávamos aguardando-as somente por simpatia, já que elas não seguiriam a viagem conosco), decidimos ir embora.

Lisiane informou que não aguentaria a exigência de esforço físico para retornar a Águas Calientes andando pelo mesmo caminho que fizemos para chegar a Machu Picchu, por dentro da montanha, e que pegaria o ônibus para voltar. Como eu achava que teria companhia para o caminho de volta, resolvi fazer o trajeto a pé. Eu, Sebastián e João iniciamos o retorno pela montanha e pela primeira vez na viagem senti falta do companheirismo que havia marcado presença até ali. Os dois dispararam na minha frente e me deixaram sozinha por todo o caminho, que levei de 1 hora a 1h30 para concluir.

A decisão por voltar a pé não foi somente pela economia de Ns 32,00 (que seriam utilizados para a compra de regalos nas lojinhas de Cusco), mas pela oportunidade de passar pelas belas paisagens com a companhia de 2 amigos e pela “façanha” de fazer todo o trajeto caminhando. Para que a decepção com a falta de companheirismo não fique ainda maior, quero atribuir a pressa à impaciência de dois jovens em retardar o passo para acompanhar uma mulher que não tem o mesmo ritmo que eles, seja pela idade, seja pelo condicionamento físico que deixa a desejar. O fato é que percorri todo o caminho sozinha, apenas trocando hola e hi com as dezenas de outros peregrinos que fui encontrando pelo caminho.

Quando finalmente cheguei em Águas Calientes, encontrei Lisiane, Sebastián e João sentados ao pé da estátua que fica no centro da praça. Ficamos mais um tempo esperando as espanholas retornarem, mas como ninguém apareceu, às 15h fomos almoçar (a última refeição fora um pacote individual de bolacha às 7h) no mesmo restaurante que nos serviu o jantar na noite anterior. Às 16h iniciamos a caminhada de retorno pelo mesmo caminho que tomamos para chegar a Águas Calientes, ou seja, voltamos a percorrer os 8 Km pelo trilho do trem, equilibrando-nos nos dormentes e por algumas vezes tendo que abandonar os trilhos para dar passagem ao trem e a máquinas ferroviárias.

Inspirados pelo cenário, Sebastián e João soltaram a voz em um repertório musical que incluiu Stand by me, de Ben E. King, famosa por integrar a trilha sonora do filme de mesmo nome (traduzido no Brasil para “Conta Comigo”), que narra uma história sobre a amizade e uma de suas memoráveis cenas acontece nos trilhos de trem. Não sei dizer se a escolha foi proposital, mas a “aventura” de seguir aquela trilha ouvindo-os cantar Stand by me marcou aquele momento.

A noite já estava caindo novamente e ainda estávamos no trilho. Sabíamos que em algum ponto dele deveríamos sair à direita, mas nenhum de nós lembrava exatamente onde ficava este ponto. Guiados pelo feeling de Sebastián, pegamos uma estradinha de terra e conseguimos achar o local onde os táxis esperam os turistas na estação da hidroelétrica. Havia um único táxi, que queria nos cobrar um preço maior do que sabíamos que é comumente cobrado (Ns 8,00 por pessoa). Como era domingo à noite, achávamos que aquela era nossa única opção.

Quando estávamos já entrando no carro, chegou outro táxi e o motorista gritou pela janela que nos levaria até Santa Tereza por NS 3,00 cada um. Trocamos de carro imediatamente. Um adolescente, que estava no banco da frente, foi “transferido” para o bagageiro, atrás do veículo, junto com nossa bagagem.

Eu já ouvira tantos relatos de roubos e assaltos em solo peruano, que passei todo o trajeto olhando para trás para conferir que as mãos do garoto, que agarravam fortemente as laterais para manter-se sentado, não fariam um passeio em nossas mochilas. Nossa bagagem ficou intacta, e meu medo e preconceito quase conseguiram premiar-me com um torcicolo!

Naquela noite pernoitaríamos em Santa Tereza, seja porque não tínhamos como seguir viagem, seja porque a cidade é conhecida pelas estações de piscinas de águas termais que estavam nos planos de Sebastián e João.

Perguntamos ao motorista do táxi onde poderíamos dormir e ele ofereceu-se para levar-nos até a hospedagem de um amigo. Fomos levados para uma casa minúscula com 2 quartos e com uma cama na “recepção”, onde também ficava o banheiro. A simplicidade da “hospedaria” condizia com a precariedade da cidade, em que patos (ou gansos, ou outra ave qualquer), ficam deitados no meio da rua.

O quarto que nos foi destinado tinha por porta uma cortina curta e estreita de tecido (não era suficiente nem para abranger o espaço entre os batentes laterais) e dois beliches que disputavam o pouco espaço do ambiente. O lugar era feio e nada convidativo, mas os donos nos receberam bem. Enquanto eu e Lisiane seríamos conduzidas a outro lugar perto dali para jantar, Sebastián e João seguiram com o mesmo táxi para as piscinas termais.

O “restaurante” era uma espécie de clube local, com caixas de som, notas musicais pintadas nas paredes, mesas de plástico, uma televisão na qual estava passando um filme de luta. Era o que por lá chamam de peña. Por Ns 15,00 foi-nos servido sopa, frango, batata e refrigerante. Talvez a fome tenha ajudado como tempero e a comida estava muito saborosa.

Terminamos o jantar e ficamos esperando a dona da hospedaria voltar para nos levar de volta ao quarto pelo qual havíamos pagado. O cansaço e as dores musculares (o esforço físico do dia havia sido cruel) estavam tornando os minutos de espera um suplício. Questionamos se ela demoraria a voltar e, como ninguém soubesse responder, o outro dono da hospedaria ofereceu-se para nos acompanhar e informou que a falta de chave não seria problema, pois seria possível abrir a porta pela janela. Esse era o indício da falta de segurança do lugar onde iríamos dormir (e onde havíamos deixado nossa bagagem!).

Antes de ir para a cama enfrentei um chuveiro morno (bem diferente do caliente prometido) para tirar do corpo a poeira dos vários quilômetros de caminhada e subidas e descidas de montanhas. Quando finalmente consegui deitar na parte de baixo do beliche que eu dividiria com Sebastián, dormi quase imediatamente um sono tão pesado que não acordei nem com a forte discussão que meus companheiros relataram ter acontecido na “recepção” da hospedaria durante a madrugada. Segundo eles, foi uma gritaria sobre o preço que havia nos sido cobrado, muito barato segundo um dos participantes do bate-boca. Terei que ficar com a palavra de meus companheiros, pois não ouvi nem vi nada, tamanho era o cansaço que havia me abatido.

20 de julho de 2009, segunda-feira

Acordei sentindo fortes dores musculares e nas articulações, principalmente nos joelhos que haviam suportado todo o impacto que lhes foi imposto nos dois últimos dias. Saí da cama e fiquei na “recepção” (onde havia uma cama recém-desocupada) aguardando meus companheiros de viagem que ainda dormiam a sono solto.

Quando todos finalmente levantaram e estavam prontos para sair, houve uma pequena discussão entre Sebastián e o dono da hospedaria, que convenientemente “esqueceu” o preço que havia sido acordado e pretendia tirar mais dinheiro dos “gringos”. Enganar Sebastián na língua pátria dele não é tarefa fácil, e por certo que o dono da hospedaria não logrou êxito. Sebastián e João pagaram exatamente o preço previamente combinado (eu e Lisiane já havíamos pagado nossa parte na noite anterior) e saímos procurar um lugar para tomar o café da manhã.

Por Ns 6,00 tomamos café em um restaurante onde a prestação de serviço foi péssima. Precisamos repetir o pedido várias vezes até que fôssemos atendidos. A mesa ia sendo posta lentamente, com vários e largos intervalos entre um objeto e outro que ia sendo levado até nós. Uma garrafa térmica com água quente foi colocada em nossa mesa e muitos minutos depois tivemos que pedir, e depois quase implorar, que o café e o leite nos fosse servido.

O café, a exemplo do que já aconteceu na Bolívia, era servido em um pequeno bule, muito concentrado, quase uma “tinta”, fortíssimo. No lugar do leite recebemos um bule, também muito pequeno, com creme de leite, que precisamos diluir com a água da garrafa térmica. Enquanto tomávamos o café da manhã, Sebastián saiu para procurar e negociar um táxi que nos levasse até Santa Maria.

Por Ns 5,00 por pessoa, fomos os 4 espremidos no banco de trás do táxi (o banco da frente estava ocupado pela mulher e filho do motorista!). Quase 1 hora depois chegamos em Santa Maria. O ônibus, que leva 6 horas para percorrer a distância entre Santa Maria e Cusco, só sairia às 14h30 e eram ainda 10h30. Sebastián negociou então o transporte em van. Se até às 11h não chegasse mais nenhum turista, cada um de nós quatro pagaria Ns 20,00, mas se chegassem mais 4 passageiros, pagaríamos Ns 18,00. Perto das 11h chegaram 3 italianos e um polonês. Para manter o preço que havia nos sido prometido, não poderíamos comentá-lo com os recém-chegados passageiros, que pagaram Ns 25,00 pelo transporte.

A comunicação com os novos parceiros de viagem foi muito fácil porque todos falavam espanhol. O polaco, cujo nome também sou incapaz de lembrar, foi conversando comigo durante todo o caminho. Fisicamente e na conversa ele era um “bicho grilo”. Com os cabelos em dreads, ele discorria sobre o dinheiro e a volta do escambo e como ele vive pelo mundo, fazendo “bicos” para pagar a estada em cada um dos países por onde ele passa e fica meses em cada um. No Peru ele já estava há 8 meses.

Na estrada, o polaco pediu para o motorista parar a van para ele colher uma tuna, a fruta dos cactos. Os cactos estavam protegidos por arame farpado, provavelmente porque estavam em propriedade particular, mas isso não impediu o intento do polaco. A cena que se desenrolou foi cômica. O polaco abaixou uma linha do arame farpado a passou as pernas por cima, ficando com cada perna de um lado da cerca. Enquanto isso eu perguntei que gosto tinha aquilo, pois eu nunca havia comido a tal tuna. Sebastián então saiu da van e foi colher uma tuna de outro cacto. Sem ter percebido que o polaco estava com uma das pernas por cima do arame farpado, ele ergueu o arame para passar por baixo, atingindo o polonês em uma “área” que provocou justificados gritos de protesto!

A tuna é cheia de espinhos muito finos e por isso não pode ser colhida com as mãos sem proteção. Sebastián sabia disso e pediu que eu lhe passasse suas luvas, mas o polaco já havia inadvertidamente tentado colher a sua com as mãos nuas. Um canivete suíço que eu carregava em minha mochila forneceu a faca que precisávamos para descascar a tuna, serviço mais uma vez gentilmente feito por Sebastián e que me permitiu finalmente conhecer o sabor da fruta, semelhante ao quiwi.

De volta à van, com uma pinça que eu também carregava na mochila, eu pude ajudar Sebastián a tirar uns poucos espinhos que se fincaram em suas mãos, mas a situação do polaco estava tragicômica. Ele estava com as duas mãos cheias de espinho. Era impossível ajudá-lo, tanto porque a van sacudia demais e não me permitia firmar a pinça, quanto porque eram dezenas (e talvez centenas) de espinhos que estavam nas mãos dele. Quando chegamos em Cusco, aconselhamo-no a procurar um médico ou uma farmácia. E tudo o que pude fazer por ele foi entregar-lhe minha pinça com sinceros votos de boa sorte.

Descemos da van e Sebastián conseguiu um táxi que cobrou Ns 3,00 pelo trajeto até nosso hostal. Estávamos doidos para tomar banho e trocar de roupa (estávamos com as mesmas roupas desde sábado de manhã), mas a porta do quarto onde nossas mochilas estavam guardadas fora trancada e o portador da chave não estava no hostal. Pela falta de alternativa saímos para a primeira refeição do dia depois do já distante café da manhã. Entramos em uma rede de fast food local (Bembo´s) e por NS 40,00 pedimos um combo com 4 hambúrgueres, 4 refrigerantes e 2 batatas fritas grandes. A mim o sanduíche pareceu muito mais saboroso dos que os vendidos em famosas redes de fast food no Brasil e no mundo.

Voltamos ao hostal para o tão esperado banho. Fomos colocados em um quarto diferente do que ocupamos nos primeiros dias em Cusco. A água do chuveiro era escassa, mas quente. O banheiro do quarto foi uma “atração à parte”. Primeiro porque a parede divisória não chegava até o teto, de modo que a comunicação era muito fácil entre o ocupante do banheiro e os ocupantes do quarto. E segundo porque havia uma fresta tão grande entre a porta e a parede, que a privacidade só foi possível porque os companheiros de quarto respeitaram-se mutuamente.

O quarto tinha as paredes pintadas de laranja e verde e a porta era cheia de frestas, tinha remendos e não fechava adequadamente, o que contribuiu para o frio noturno aumentado pelo vento que não encontrava resistência naquela porta. À noite aconteceu um “fenômeno” estranhado inclusive para os nativos: choveu. Foi uma chuva curta e fina, mas improvável nesta época do ano. Sebastián, que nos deixaria esta noite, abandonou o plano de sair de Cusco com destino a Lima porque estava programada uma greve de transporte e as estradas estariam bloqueadas.

21 de julho de 2009, terça-feira

Este foi o dia das compras dos regalos. Seguimos pela Avenida del Sol, que sai da Plaza de Armas, rua com muitas galerias de lojas que vendem o artesanato local. No final desta avenida há um centro comercial que reúne um grande número dessas lojas. Alguns minutos depois que chegamos neste local, Sebastián e João nos deixaram. Em qualquer lugar do mundo é aborrecido para os homens acompanhar mulheres em compras.

Estávamos acreditando que faríamos grandes compras de adornos de prata, mas eu e Lisiane ficamos muito decepcionadas ao descobrir o preço do metal. Um vendedor explicou-nos que o quilo da prata, que há 5 anos custava U$ 200,00, está atualmente em U$ 1.000,00. As peças eram belíssimas, mas estavam mais caras do que as que encontramos em qualquer das várias lojas de adornos de prata que se espalham pelos shoppings brasileiros.

O artesanato, com raras exceções, também estava muito caro e os vendedores não muito dispostos a ceder a nossas pechinchas. Decidimos então voltar às pequenas galerias da Avenida del Sol.

Com as mãos já carregadas de pesadas sacolas (o melhor artesanato é feito em pedra), seguimos ao hostal para deixar a “primeira leva” de compras com a intenção de parar no caminho para almoçar. Às 14h15 paramos no Café Misky, um lugar de aparência agradável, mas de péssimo serviço. Fizemos nossos pedidos e tivemos que esperar inacreditáveis 45 minutos para que fôssemos servidas (inclusive o refrigerante, que por óbvio – assim espero!!! – não precisava de qualquer preparo), e quando finalmente isso aconteceu fomos informadas que o arroz, que fazia parte do prato, havia acabado.

Recebemos as chuletas acompanhadas somente por batatas e algo que fazia as vezes de salada. Na hora de pagar, externamos nosso descontentamento e recebemos por resposta que a culpa era da greve, que fez o restaurante ficar lotado e a comida acabar. E que nenhum desconto seria dado porque a porção de batata, que é mais cara, foi aumentada no prato para substituir o arroz. No Brasil, considerando nossas leis consumeristas protetivas, prestadores de serviços como esses não teriam vida longa. À tarde continuamos os passeios pelas lojas de artesanato. Encontramos boas opções na Rua Tigre e galerias nela espalhadas.

Como não sofremos o “mal da altitude”, não havíamos recorrido à famosa folha de coca, mas não poderíamos deixar o Peru sem experimentar ao menos um chá da erva. Antes de voltarmos ao hostal, eu e Lisiane paramos na confeitaria Don Esteban & Don Pancho, na Avenida del Sol, no 123, para o chá (Ns 4,00), que tomamos acompanhado de uma empanada saborosíssima (Ns 4,00), embora sem nenhuma semelhança com as empanadas argentinas e chilenas e com a que havíamos experimentado em La Paz. Além da comida, o atendimento foi surpreendentemente impecável. Decepcionante foi o chá, sem qualquer sabor notável, semelhante a qualquer outro chá comum.

Quando retornamos ao hostal encontramos João dormindo. Sebastián tinha novamente se mudado para o Locki, lugar muito mais adequado ao seu espírito inquieto e festeiro. Tomamos banho e dirigimo-nos à Praça de Armas para jantar. Entramos no restaurante El Mesón e pedimos um espeto de coração, acreditando que comeríamos coração de galinha, mas nos foi servido uma generosa porção de coração de boi acompanhado por….batatas, sempre batatas! Na sequência pedimos pizzas individuais, mas a farta porção acabou sendo demais para nós, principalmente depois do coração de boi. Quem visitar Cusco e experimentar a comida do El Mesón deverá ficar tão satisfeito quanto nós ficamos.

A “programação” para aquela noite era irmos para um dos vários bares que cercam a praça para experimentar uma Cusqueña, a cerveja local, mas o cansaço e o sono aumentados pela boa refeição conduziu-nos diretamente ao hostal.

22 de julho de 2009, quarta-feira

Iniciamos o dia na cozinha do hostal. Um grupo de francesas já ocupava as 2 melhores mesas. Esprememo-nos na outra única mesa, pequena, de madeira, sem lugares para sentar. As francesas falavam muito alto e impregnavam o ambiente com a desagradável fumaça de seus cigarros. Já que faltou educação às francesas, mais uma vez lamentei não estar sob a proteção de leis brasileiras, que proíbem o fumo em lugar público.

Lavamos as louças que utilizamos – ao contrário das mal educadas francesas, que largaram suas xícaras, talheres e pratos sujos dentro da pia – e deixamos o hostal com o propósito de ir conhecer a famosa “pedra de 12 ângulos”, um dos cartões postais de Cusco.

No caminho passamos por um mercado, um galpão onde o caos e a falta de higiene e proteção dos alimentos imperam. O Brasil é notável pelas leis e controles sanitários, com rigorosas exigências de acondicionamento e embalagem de alimentos. No Peru quase tudo é exposto em balcões, sem refrigeração ou qualquer tipo de proteção. Pães e carnes ficam à mostra, ao alcance de qualquer mão e sujeitos aos esbarrões dos transeuntes.

“Fugimos” do mercado e seguimos em busca da famosa pedra. Afora um nativo vestido com um manto vermelho e adornos dourados, fantasiado de inca, que fica em frente à “pedra de 12 ângulos”, nada no local chama atenção. Sem dúvida é um bonito muro de pedra, mas não fossem as informações constantes dos guias turísticos e as fotos que ilustram os cartões postais de Cusco, passaríamos por ela sem notá-la.

De lá seguimos para um monumento construído em homenagem ao Inca Pachakuteq Yupanqui Capac Inti Churi, que significa “Filho do Sol, Transformador do Mundo”. Pachakuteq organizou o império, conseguiu a unidade territorial mediante a construção de estradas, embelezou a cidade de Cusco (Qosqo) e foi capaz de organizar, legislar e dar sentido ao império inca. Ele entendeu que a cidade sagrada devia ser reconstruída para converter-se na verdadeira capital do império. Como consequência da crença de que todas as coisas têm vida própria, edificou as estruturas físicas de praças e edifícios alinhados ao largo de um corpo em forma de puma.

A grande cabeça do puma era Saqsaywaman, as alturas de Qolqampata eram o pescoço, a Rua Pumakurku era a coluna vertebral, a praça maior Haukaypata seria o coração, o Qoricancha (lugar sagrado das origens) identificava-se com a genitália e a união dos rios Saphy e Tullumayo seriam o rabo do puma. Os centros corporais do animal tinham relação com suas funções. Assim, na cabeça se expressava a liderança, o mando, as funções de governo; a grande praça pulsava como um coração na vida social dos nobres e do povo inca; pela espinha dorsal e medula espinhal circulava a energia dos mensageiros e funcionários, nobres e pessoas do povo.

O monumento que visitamos foi construído por ocasião dos 500 anos de invasão do solo inca. Inaugurado em 27.12.1992, o monumento foi erigido com 1.402 pedras poligonais e tem 22,40 metros de altura. No alto está uma estátua do inca de 11,50 metros formada por 864 peças de bronze fundido e pesando 17 toneladas. A obra é do escultor Fausto Espinoza Farfán. Por NS 2,00 subimos até a torre, passando por salas com objetos e informações sobre a cultura incaica. Em uma das salas se conhecem, por quadros expostos nas paredes, os 3 dons “recebidos dos deuses”: munay, o dom do amor; yachay, o dom da sabedoria; e llankay, o dom do trabalho. Segundo os ensinamentos incas, os homens somente seriam felizes seguindo o único mandamento ayni (compartilhar) e desenvolvendo os dons recebidos.

A vista do alto do terraço não é nada espetacular, mas a visita não deixa de ser interessante. Para chegar até o monumento deve-se seguir pela Avenida del Sol e caminhar “algumas” quadras depois que passar o Centro Comercial de Cusco. Voltamos a percorrer toda a avenida até chegar à Praça de Armas para o almoço. Desta vez entramos no Café Trotamundos. O preço não é dos mais atrativos, mas o ambiente é bastante agradável, com uma bonita vista da cidade, e a comida saborosa. Foi ali que experimentei o famoso refrigerante local, cujo nome é inclusive estampado nas camisetas feitas para turista: Inka Cola. O sabor é de refrigerante de baixa qualidade, muito adocicado. A exemplo do chá de coca, valeu somente pela experiência de tomar uma bebida local.

Às 14h retornamos ao hostal para realizar o milagre da multiplicação do espaço para acomodar os presentes nas mochilas. Dedicamos um bom pedaço da tarde nesta tarefa. Perto das 16h recebemos pela última vez a visita de Sebastián, que estava hospedado no Locki e foi despedir-se de nós. O ônibus dele sairia para Lima em poucos minutos. Combinamos de nos encontrar na capital peruana no dia seguinte, mas infelizmente não vimos mais Sebastián.

Pelos e-mails que começamos a trocar depois que voltei ao Brasil, soube que a viagem dele, que deveria durar pouco mais de 24 horas, durou 38 devido a uma greve de camponeses que bloquearam a estrada. Se não tivéssemos decidido fazer o trajeto até Lima de avião, teríamos ficado detidos na estrada junto com Sebastián e correríamos o risco de não chegar em Lima a tempo de pegar o voo ao Brasil. Felizmente tomamos uma decisão acertada!

Depois das despedidas e do último banho em Cusco (havia água no hostal!), fomos a um bar tomar um pisco sour (Ns 9,00), bebida típica da região andina. Nada que supere nossa brasileira caipirinha, mas não se deve sair do Peru sem experimentar ao menos um copo de pisco sour. Pedimos também uma porção de fritas, que foi servida de forma bem diferente do que esperávamos e estamos acostumados no Brasil. Ao invés de finos, crocantes e dourados palitos, as batatas estavam cortadas em grossas fatias com casca e encharcadas em óleo. De qualquer forma, o ambiente é aconchegante e foi um ótimo lugar para finalizar a estada na cidade. O bar, de nome Norton Rat´s Tavern (Calle Santa Catalina Angosta, no 116), tem o teto forrado por bandeiras de países e pode jogar-se dardos mediante entrega de caução.

De volta ao hostal, enviamos nossas últimas mensagens pela internet a amigos e familiares no Brasil e fomos dormir. Com as malas já engenhosamente  arrumadas, deitamos de roupa, já prontos para deixar Cusco depois de uma curta e fria noite de sono.

23 de julho de 2009, quinta-feira

Tínhamos que levantar às 5h30, mas o despertador de João nos tirou do sono às 5h. Reclamando, mas sem perder o humor, aproveitamos nossos últimos 30 minutos no quarto que nos acolhera nos últimos dias. Essa meia hora passou com uma velocidade incrível e tivemos que abandonar as cobertas para seguir a viagem rumo a Lima.

Por Ns 10,00 um táxi levou-nos até o aeroporto. Paga a taxa aeroportuária (US$ 4,95), tomamos um capuccino com empanada como café da manhã e embarcamos para Lima pela Star Perú. Com pouco mais de 1 hora de voo descemos na capital peruana. Logo ao desembarcar procurei o serviço de informações turísticas do aeroporto para conhecermos as possibilidades de hospedagem. Todos os hostals sugeridos ficavam no bairro de Miraflores, região nobre da cidade.

Como toda capital, sentimos a diferença dos preços em Lima já quando pegamos um táxi, que nos cobrou NS 60,00 (em Cusco não pagamos mais do que Ns 3,00 por trajeto). O motorista nos sugeriu uma hospedaria e só aceitamos depois que negociamos ao preço de U$ 11,00 por pessoa, que é quanto nos custaria um dos hostals que eu havia pesquisado na internet antes de sair do Brasil.

Fomos levados para a hospedaria B & B Paititi, na Calle Alfonso Ugarte, no 218, Miraflores. O quarto tinha 1 cama de casal e 1 de solteiro, com banheiro privado e abundante água quente, apesar de a altura do chuveiro ser apenas alguns poucos centímetros maior do que minha própria altura. Deixamos nossa bagagem no quarto e pegamos um mapa na recepção. Andamos várias quadras em busca do Centro Comercial Larcomar. Lima tem muito mais característica de capital do que La Paz. Miraflores, o bairro em que ficamos na capital peruana, é bonito e muito urbanizado. Em alguns pontos nem se tem a impressão de se estar em uma cidade sulamericana, a exemplo do próprio Centro Comercial que estávamos procurando.

Pelo mapa, o Centro Comercial Larcomar estaria ao fim de uma das avenidas que tínhamos que seguir, em frente ao Oceano Pacífico. Seguimos o mapa, mas quando chegamos no local apontado como sendo o Centro Comercial, só vimos mirantes para o oceano. Fomos surpreendidos ao descobrir que o complexo de lojas, restaurantes e cinema ficava debaixo do mirante, não visível da rua.

O clima estava nublado, um típico dia curitibano, em preparação ao nosso retorno para casa. Como passaríamos todo o dia naquele local, o sol só fez falta para que nossas fotos pudessem ficar mais bonitas.

Dividimos uma pizza a Ns 10,00 para cada um e depois fomos apreciar a vista do Pacífico tomando café com alfajor na loja da Havana. Caminhamos pelas caras lojas do Centro Comercial e às 15h entramos no cinema para assistir o sexto filme da saga de Harry Potter que havia estreado no Brasil durante nossa viagem. A entrada nos custou Ns 17,00. Eu e Lisiane, fãs declaradas da história de J. K. Rowling, saímos decepcionadas. Por mais agradável que seja frequentar salas de cinema de qualquer lugar do mundo, nada supera a narrativa apresentada pelo livro!

Saímos do cinema e voltamos para a hospedaria com uma rápida parada em uma lan house para a última comunicação com o Brasil em solo estrangeiro. À noite jantamos em uma franquia da KFC (Kentucky Fried Chicken) – em Lima encontram-se muitas franquias famosas inexistentes no Brasil – e voltamos ao Larcomar para tomar a cerveja Cusqueña (NS 7,00 uma garrafa individual). No bar em que passamos aquela última noite conhecemos 2 brasileiros de Caxias do Sul: Cleiton, que está morando em Lima, e André, que visitava Lima a trabalho. A conversa começou tão logo eles identificaram a língua pátria na mesa ao lado.

Quando decidimos ir embora, João resolveu ficar para conhecer um caraoquê local. Eu e Lisiane percorremos quase todas as longas quadras de volta à hospedaria com os gaúchos, que gentilmente nos fizeram companhia. No caminho fizemos uma rápida parada, por sugestão de Cleiton, para experimentarmos churros com chocolate (Ns 3,00). Já passava das 24h quando finalmente fomos dormir. Não vimos a hora em que João retornou à hospedaria.

24 de julho de 2009, sexta-feira

Levantamos às 7h30 e depois do último banho em território peruano saímos para tomar café. Sem muitas opções e contando somente com o cartão de crédito, entramos em um Mc Donalds. Sejam quais forem as opiniões dos leitores sobre fast food e indústria americana, nas várias viagens que já tive oportunidade de fazer, sempre foram esses lugares que me “salvaram a pele” pela disponibilidade, preço e forma de pagamento. Por Ns 5,00 tomei um copo de café com torradas quentes.

Enquanto voltávamos à hospedaria, negociei com um taxista a corrida até o aeroporto por Ns 30,00. Para “coroar” nossa estada em Lima, o trajeto até o destino final foi tipicamente peruano. Até agora não sei como aquele carro conseguiu chegar ao aeroporto com as 4 rodas (o táxi não obedecia os limites das ruas traçados pelos meios-fios) e (quase) intacto. Fechadas, buzinadas, “finas”,…. tivemos todo tipo de “emoção”. Mas conseguimos chegar sãos e salvos no aeroporto.

Fizemos o check in e fomos pegos de surpresa com a confirmação da informação que os gaúchos haviam nos dado na noite anterior: a taxa de embarque custava U$ 31,00. Eu havia reservado somente U$ 15,00 (e era todo o dinheiro que me restava). O fato de não aceitarem o pagamento em cartão de crédito dificulta bastante a vida de turistas desavisadas como eu. Contei com o socorro de João, cujo cartão permitia saque nos caixas eletrônicos (saí do Brasil sem verificar a senha de meu cartão que permitisse esses saques!).

Os caixas eletrônicos não aceitavam meu cartão, mas as lanchonetes sim! Comi um donut com capuccino (Ns 7,90) e no caminho para a sala de embarque gastamos as últimas moedas de nuevos soles que nos restavam. Por Ns 13,00 comprei um mouse pad com o cartoon de uma lhama e com os últimos soles (últimos mesmo!) eu tomei um café antes de entrar no avião que nos traria de volta ao Brasil, onde chegamos já pensando em uma próxima viagem.

Impressões

Enquanto eu escrevia este relato, muitas pessoas me perguntavam qual era meu objetivo. Um blog? Um livro? Na verdade eu só quis dividir com familiares e amigos um pouco da experiência fantástica que tive nesses 20 dias. Embora eu seja conhecida por ser detalhista e minuciosa, por certo que nem tudo foi relatado. Por vários motivos eu não poderia fazê-lo, mas acredito que consegui dividir grande parte do que vivi e experimentei.

Mesmo depois de ter passado por todas as dificuldades e situações  precárias – principalmente com alimentação e banheiros –, não hesitaria em afirmar que faria tudo de novo. E de fato já começo a planejar um retorno a Uyuni no verão, entre dezembro e janeiro, quando o período das chuvas transforma o salar em um grande e magnífico espelho.

Como narrado no início deste relato, o motivo e o destino desta viagem era Machu Picchu, mas as surpresas que encontrei pelo caminho até este destino superaram qualquer expectativa que eu pudesse imaginar.

Fiquei apaixonada pela Bolívia, país de beleza e cores indescritíveis. A pobreza e a precariedade, em que pesem os tristes e incompreensíveis problemas sociais, não comprometem a magnitude do país.

Quem não abre mão de conforto jamais poderá desfrutar das experiências que vivi, pelo menos não na medida e na extensão em que foram passadas. Para ir a Machu Picchu, por exemplo, não é necessário enfrentar a aventura/loucura que encarei, transpondo trilhos de trem à noite e com iluminação de lanternas, nem dividir quarto com recém-conhecidos. O conforto e as comodidades para ir a Machu Picchu são proporcionais aos recursos financeiros destinados à viagem.

Já para o Salar, apesar de também não ser necessário passar 5 dias inteiros subindo e descendo de vários ônibus como eu fiz (é possível ir de avião até La Paz ou Sucre e de lá seguir de ônibus até Uyuni), é preciso um pouco mais de disposição para dividir quartos com estranhos em hoteis sem chuveiro, calefação ou banheiro privado. Mas a beleza do lugar compensa cada segundo sem conforto ou sem privacidade.

Além dos dois milhares de fotos e da saudade dos 20 dias que transcorreram muito mais rápido do que eu gostaria, o saldo mais positivo é representado pelas pessoas que me acompanharam e que cruzaram o meu caminho, amizades que se fortaleceram e que se formaram, pessoas que espero poder rever em um futuro não muito distante, além dos “milhões de amigos” que pretendo incluir nos futuros relatos das milhares de futuras viagens que ainda pretendo realizar.

Onze Anos Depois – 2020

Relembrar a sensação prazerosa que me fez escrever este diário, há 11 anos, foi um dos impulsos para a decisão de lançar este blog, por isso nada mais justo do que colocá-lo aqui. O texto é o mesmo escrito em 2009, sem edição.

Na década que se passou, obviamente muita coisa aconteceu. João casou e é pai de Luís Guilherme. Lisiane também casou e igualmente é mãe de um menino, Samuel.

Yolanda casou-se e tornou-se mãe. Sebastián também casou. Soube de ambos pelas redes sociais.

Eu, por fim, também me casei. Agora é com Fabio, o amor da minha vida, que divido minhas aventuras pelo mundo, obviamente bem mais tranquilas (já não faço mais “mochilões”).

Abraham e Mário “sumiram” do (meu) mapa (e aquela jaqueta verde imensa e desastrosa também).

Eu e Sebastián estivemos na mesma data em Washington DC, nos Estados Unidos (descobrimos isso pelo Facebook), mas não tivemos oportunidade de nos encontrar. A inesperadíssima e grata surpresa foi eu ter podido rever – e hospedar – Sebastián em 2014. Aficionado por futebol, aproveitou que o Equador jogaria uma partida da Copa do Mundo em Curitiba – e aproveitou também a dificuldade de encontrar hospedagem exatamente na cidade onde moro – e veio para cá. Ele e um a amigo passaram 2 noites em minha casa e deixaram a cidade felizes com a vitória por 2 a 1 sobre Honduras.

Há alguns anos eu voltei para o Salar do Uyuni, depois de ter passado previamente por São Pedro do Atacama. Foi uma experiência totalmente diferente da primeira. Não voltei na estação chuvosa, como eu pretendia, mas passei muito frio, “perrengue”, falta de banho e uma vez mais deslumbrei-me com a beleza natural da Bolívia.

Repeti o Salar. Não tenho nenhuma intenção de voltar a fazê-lo. O clichê da desculpa da idade não me anima a dormir sentada em ônibus, usar banheiros imundos, abdicar (por força das circunstâncias) de banho e água quente. Apesar disso, reafirmo que foi minha melhor, mais rica e mais deslumbrante experiência de viagem. Uma aventura indescritível e “irrepetível”, saudosamente vivida em 2009.

2 comentários em “A EXPERIÊNCIA DO INDESCRITÍVEL – O relato diário de uma singular e irrepetível aventura por Bolívia e Peru (2009)

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