ONTEM EU ESTAVA SEM CHÃO; HOJE EU TENHO UM CASTELO

Sou brasileira. Sou curitibana. Fui jornalista e sou advogada. Sou leitora voraz. Sou escritora apaixonada.

Imatura e despreparada para escolher uma profissão aos 17 anos de idade – como costuma acontecer com todo jovem em idade de prestar vestibular – , eu quis ser jornalista. Formei-me pela PUC-PR e fiz alguns estágios em jornais, no tempo das máquinas de escrever, do papel carbono, do past-up.

Atraída pela imprensa escrita, tive a oportunidade de passar pelo Indústria & Comércio (o mais moderno na época, o primeiro a ter computador, daqueles de cursor verde piscando em uma tela texturizada) e pelo Estado do Paraná, em ambos como estagiária não remunerada.

Meu primeiro emprego, após graduada, foi como assessora de imprensa em um grande grupo de ensino em Curitiba. Aprendi muito, mas eu não me adaptava à profissão, eu não me encaixava no perfil de jornalista e percebi logo que minhas ambições não seriam atendidas pelo parco salário que se pagava a profissionais desta área.

Certo dia uma pessoa que eu admiro muito e que sempre foi para mim uma fonte de inspiração, perguntou-me por que eu havia cursado Jornalismo. “Porque eu gosto de escrever”, foi a óbvia e sincera resposta. “Então está na profissão errada”, foi a ainda mais sincera réplica, “devia ter feito Direito”.

Na época bastante tímida, e sem advogados na família, minha ideia da profissão eram os seriados americanos (que eu adorava), cheios de “Protesto, Excelência” e “Ordem no Tribunal”. Para mim era impensável “falar publicamente”. Ficava incomodada só de imaginar. Quanta vergonha “falar na frente dos outros”.

É aí que você se engana”, argumentou a causídica que me inspirou, “o advogado trabalha escrevendo”. Lembro daquela conversa em detalhes (ainda me vem à mente a sala, os móveis, a luminosidade do lugar,…). Aquela informação ofereceu-me um novo horizonte, uma nova esperança de vida.

Como consequência lá fui eu matricular-me em cursinho pré-vestibular. Para concorrer com a garotada que estava no “segundo grau” (era assim que chamávamos o Ensino Médio “na minha época”) e só estudando para o vestibular nos pelo menos últimos três anos, eu precisava “meter o nariz nos estudos”, “levar a brincadeira a sério”. Saí então do emprego e por 6 meses estudei dia e noite, de segunda a sexta, finais de semana, feriados, incansavelmente (para ser sincera, eu me cansava bastante sim). Matriculei, estudei, passei. Vim, vi e venci.

No momento em que escrevo este texto já acumulo 16 anos na “nova” profissão de advogada. Tenho o orgulho de contar que sou sócia do escritório onde comecei como estagiária em 2001, há 19 anos. Há quem me julgue bem sucedida. E se eu for me autojulgar pelos anseios que tinha quando iniciei na carreira, sou bem sucedida sim. Realizei sonhos, conquistei patrimônio e, mais importante, sei que conquistei admiração e reconhecimento pelo o que faço com tanta dedicação.

Tudo parece muito bom, muito bem, mas…. não está. Apesar de meu status, de minha condição financeira e social, de todas as minhas conquistas, simplesmente não está bom, não estou plenamente feliz. Falta algo. E este algo a que me refiro não é encontrar um amor (como de forma clichê poderia parecer), pois também nessa área sou muitíssimo bem sucedida: tenho um marido por quem sou apaixonada, a quem amo por completar-me tão plenamente. Ainda assim, falta algo.

Recentemente ouvi uma palestra que ficou muito famosa desde que proferida: Steve Jobs falando para a turma de formandos de Stanford em 2005 (fácil de achar no You Tube). Contando três histórias de sua vida, Jobs narra que ele teve a sorte de muito cedo ter descoberto o que ele amava fazer.

Como ele amava o que fazia, ao ser afastado da empresa que criou (ele foi mandado embora pelo Conselho, 10 anos depois de iniciar a Apple), ele substituiu o peso de ser famoso pela leveza de ser um iniciante (nas palavras dele próprio), tendo fundado mais duas empresas, sendo uma delas a premiada e famosa Pixar (aquela mesmo, dos desenhos animados). A explicação de Jobs para sua história de sucesso: “Estou convencido que a única coisa que me manteve em frente foi que eu amava o que eu fazia. Você tem que encontrar o que você ama”.

Eis aí o algo que faltava: fazer o que se ama, ou, ao revés, amar o que se faz.

Amar o que se faz não é um ato de sorte, mas um ato de coragem, um ato de fé em si mesmo, que exige determinação para, muitas vezes, começar tudo de novo, literalmente “sem medo de ser feliz”. Mas não basta amar. É preciso acreditar. E é preciso agir.

Com a angústia da insatisfação começando a corroer-me, apesar de toda minha história e de minha experiência (não deveria eu já me dar por satisfeita?), eu precisava definir e certificar-me sobre o que eu amo fazer.

Aproveitando um prolongado feriado, doei-me à reflexão e constatei que em minha trajetória profissional eu não amava o Jornalismo ou ser jornalista. Eu amava escrever. Eu não amo o Direito nem amo ser advogada. Eu amo escrever.

É por isso que agora estou aqui, tendo a honra de tê-lo – talvez brevemente, tomara que perenemente – como leitor ou leitora testemunhando o que amo fazer: ESCREVER.

Em um dia eu estava sem chão, angustiada por não ter a plena satisfação e felicidade no exercício de minha profissão. Ao começar a entregar-me ao que minha alma deseja, ao fazer o que realmente amo, ao comprazer-me com a escrita e com a sonhada profissão de escritora, tenho agora um castelo. Sem querer ser piegas, mas inevitável e constrangedoramente sendo, meu desejo é ter você visitando os recônditos deste castelo. Seja muito bem-vindo(a).

4 comentários em “ONTEM EU ESTAVA SEM CHÃO; HOJE EU TENHO UM CASTELO

  1. Marilia, ainda vou te ligar por ser seu aniversário! Mas não posso deixar de comentar que estou encantada com tudo que estou lendo.

    Você é uma excelente escritora, te admiro muito!

    As leituras são tão gostosas que passam voando…

    Parabéns pela sua iniciativa e obrigada por conceder o prazer de podermos ler as suas historias.

    Bjsss

    Curtido por 1 pessoa

  2. Marilia, vc não sabe o quanto feliz estou, primeiro em ler um artigo seu, pois claramente vc tem o dom da escrita (e da palavra tb) e segundo, por vc estar se permitindo fazer o que realmente ama!!! Desejo MUITO SUCESSO a vc!!! Bjos

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  3. Desculpe a indelicadeza em demorar para ler e comentar!! Suas historias são leve e gostosa d ler e verídicas o que é mais importante ainda. Amei, e fico feliz por vc estar fazendo o q gosta e nos dando o prazer em decidir essa experiência
    conosco. Sim vc já é uma escritura. Parabéns!! Orgulhosa d vc. Bjs.

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