MEUS BANHOS PELA EUROPA

Em 2017 fiz, na companhia de meu mais querido amigo, uma viagem à Grécia (Atenas, Mikonos e Santorini) e Itália (Pisa e Florença). As maravilhas naturais e históricas são notórias, e embora nada substitua o que a retina grava ao vivo e os sentidos registram na memória, podem ser também admiradas por fotos hoje ao alcance de qualquer pessoa com acesso à internet. Por isso as maravilhas vistas e visitadas não serão, hoje, o tema desta escrita.

Viajantes sempre têm alguma história sobre banheiros, e eu, claro, tenho as minhas. O que vi (e sofri) na Bolívia e Peru com os “Serviços Higiênicos”, como muito ironicamente eles chamam, por lá, os banheiros, estão em meu diário de viagem já publicado aqui no Blog. Hoje vou contar a experiência que tive com os banheiros dos hoteis que me hospedaram na Europa, realmente dignos de “nota” à parte.

Em Atenas, onde ficamos em um hotel pequeno, mas muito bem localizado, o banheiro era minúsculo e, como se tivesse vontade, “gostava” de tomar banho junto com os turistas em seus momentos de higiene. Sem qualquer coisa que servisse como box ou anteparo, tudo era “lavado” junto com o turista: pia, chão, espelho, vaso sanitário.

Inexistia barreira para que a água ficasse represada no pouco metro quadrado destinado à área de banho. Assim, no fim do dia o banho não era tão agradável como se esperava. Exigia destreza. Eu ainda estava no início da viagem, inocentemente sem poder prever que aquele “banheiro ruim” seria o melhor de toda a jornada.

Seguimos para Santorini. O banheiro do hotel, promissoramente espaçoso, tinha até box. Que luxo! O chuveiro era daqueles “móveis”, que podem ser pendurados em um suporte na parede ou ser deles retirado, como se fosse um “chuveirinho gigante”. A mim esses chuveiros lembram um telefone antigo, no qual a água sai por onde seria o bocal (do telefone).

Estava então o “telefone” colocado no suporte da parede. Não sei como (e se) as europeias conseguem, mas eu não sou capaz de lavar os cabelos com uma mão e segurar o chuveiro com a outra, então preciso utilizar o suporte da parede para pendurar o chuveiro e tomar banho “à moda brasileira”, com a água saindo de um chuveiro sobre a cabeça.

O suporte estava frouxo, então o chuveiro não ficava em uma angulação adequada. “Despencado”, o chuveiro lançava a água muito próxima à parede, então eu tinha que me posicionar de forma a distanciar-me da parede com o máximo proveito de água.

No primeiro banho, no segundo minuto a água esfriou e no terceiro o chuveiro caiu, deixando-me uma pequena marca no nariz, presente nas primeiras fotos da viagem, e uma dolorosa história para contar. Nos dias seguintes o suporte foi arrumado, mas a água não foi esquentada. Água abundante, área com box e água fria todos os dias.

Próximo destino: Mikonos. O hotel era charmosíssimo e a água do banho era quente. Assim… muito, MUITO quente. Provavelmente “tática do hotel” porque sem a opção de torneira de água fria para “temperar” a água, o banho precisava ser rápido, o tempo necessário para evitar ser escaldada. Isso sem contar a participação especial de uma lasciva cortina que servia como “box”. Aquele troço literalmente te envolve. O banho era uma luta contra o tempo e contra o atrevimento da libidinosa – e não muito higiênica – cortina, ávida por tocar-me a pele e tentar incursões, digamos, desnecessárias.

Em Pisa fica o hotel mais antigo da Itália (segundo uma placa de bronze afixada no local) e lá ficamos nós. Se a placa nos contou a verdade não posso afirmar, mas o hotel era realmente muito antigo. Sem coragem de enfrentar o elevador (tão antigo quanto o próprio hotel), subimos as largas escadas de mármore. O quarto era enorme, com uma configuração “que só se via antigamente”, a exemplo de uma pia e bidê protegidos por um biombo, dentro do próprio quarto.

O banheiro se alcançava por alguns degraus de escada e não tinha em seu interior uma pia (claro, já havia a que estava escondida pelo biombo). Mas tinha um aparentemente bom chuveiro com box. Tendo como parâmetro os banheiros anteriores, aquilo nos parecia um presente dos deuses romanos.

A reconfortante e cara surpresa foi a abundância e a temperatura da água. Mas como tudo o que nos é “caro”, precisou ser feito em prestações. A delimitação do box era feita por uma “caixa” de plástico, de cerca de 1 metro quadrado, local onde devíamos entrar para o banho.

O ralo que se revelou entupido fazia com que a água rapidamente subisse, ameaçando transbordar dos limites da lateral da caixa, o que nos obrigava a controlar o tempo do banho pela velocidade da subida da água e, como isso acontecia mais rápido do que nos era conveniente, éramos obrigados a desligar o chuveiro, aguardar a lenta descida da água até que pudéssemos, em uma segunda (ou até terceira) etapa concluir o complexo momento de higiene.

Destino final: Florença. Ah…, Florença. Impactante. Traumatizante.

O hotel ficava em um andar de um prédio residencial. Novamente abrimos mão do elevador para, em prol da segurança, adotarmos as escadas. O quarto não era grande, nem bom nem ruim. Meu parceiro de viagem abriu a porta do banheiro e imediatamente a fechou. “Não fique nervosa”, ele me alertou, antes de cair na gargalhada. Ele não me deixava aproximar-me do banheiro e a cada vez que me exortava a ficar calma, seus olhos se enchiam de lágrimas provocadas pelo riso.

Quando finalmente consegui ver o banheiro, eu não quis acreditar, embora a realidade estivesse exatamente ali na minha frente, escarnecendo e desafiando meu humor. Até existia um chuveiro (aquele mesmo modelo “telefone”, pendurado entre a pia e o vaso sanitário), mas não havia nenhum espaço dedicado ao banho. Nenhum mesmo.

Imagine um banheiro só com uma pia e um vaso sanitário, e lá em cima, na parede, no exíguo espaço entre eles, um chuveiro. Parecia enfeite de mau gosto.

Tragicomédia é a única palavra que me socorre para contar o infortúnio. Para a “higiene com ducha”, era necessário tirar até o papel higiênico de seu suporte, senão seria irremediavelmente encharcado, já que o vaso sanitário era o único local onde era possível “instalar-se” para o banho. Roupas e toalhas também precisavam ficar do lado de fora, sob pena de terem o mesmo destino do rolo de papel. E ao final da “higienização” eram necessários rodo e pano para enxugar todo o banheiro, do chão “quase” ao teto.

Recentemente li em um livro que na época da colonização os portugueses ficaram horrorizados ao descobrir que os índios matavam as pessoas e as comiam. E que os índios ficaram horrorizados quando descobriram que os portugueses matavam as pessoas e não as comiam. Sei que os europeus se chocam ao saber que nós temos o hábito de tomar banho todos os dias, mas eu também me choco (embora saiba das justificativas de escassez de água e frio intenso) ao constatar in locu a pouca importância que eles aparentemente dão ao banho.

Quando se passa algum tempo fora do país, na volta para casa as pessoas costumam ansiar pela própria cama e pelo “arroz e feijão”. Eu só ansiava por um bom, quente e não entupido banho.

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