VOCÊ TORCE PELO BANDIDO?

Eu sim. E tenho (quase) certeza que você também. Quer ver?

Eu era uma alienada sobre qualquer coisa que se referisse à saga Guerra nas Estrelas (Star Wars). Eu até sabia que Darth Vader era do mal, mas meu conhecimento parava por aí, até que um dia resolvemos, meu marido e eu, encarar uma maratona para ver todos os filmes (deixando o último – Star Wars: A Ascensão Skywalker – para ser assistido no cinema).

Desde então, tenho, na estante aqui de casa, um Funko Pop e um copo com a cabeça de personagens e o caderno que meu marido usa no curso que ele está estudando também é estampado com os personagens. Mas nada de Princesa Léia, Han Solo ou Chewbacca. Os personagens são os que representam o lado negro da força: Darth Vader e Stormtroopers. Porque eles são muito mais legais e interessantes. Os vilões sempre são mais autênticos. São o que são. Não têm que agradar ninguém.

Outro exemplo: La Casa de Papel, o estrondoso sucesso espanhol da Netflix. Já com 4 temporadas, a série conta a história de um grupo de bandidos – sim, são ladrões e assassinos – liderados por uma mente (do mal) brilhante e astuta, o charmosíssimo e intrigante Professor. O que fazemos nós, espectadores? Torcemos pelos bandidos e choramos com os que são abatidos durante “o ofício”.

Outro seriado: Breaking Bad. O personagem principal é um super bandido. Começou devagar, “quase inocente”, mas à medida em que o seriado evolui não existe mais escrúpulos nem limites. Matar é eliminar problemas. Mas mesmo assim gostamos de Walter White e do drogadito Jesse Pinkman. Nós gostamos deles. Mas… por quê? Não são do mal?

Se fosse possível transpor esses personagens para a vida real, teríamos o mesmo carinho por eles? Se a metanfetamina produzida por Mr. White fosse o motivo da overdose que matasse um ente querido nosso, teríamos a mesma simpatia? Se o motorista que dirigia o carro que Tokyo explodiu quando o veículo aproximou-se do Banco da Espanha fosse um nosso irmão, marido, primo ou mesmo cunhado, gostaríamos tanto dela? Torceríamos por ela?

A questão é que conhecemos o ponto de vista do lado em que a história está sendo contada. Se assistimos CSI ou law and Order, torcemos para que o criminoso seja pego, mas se assistimos La Casa de Papel, queremos que a polícia seja feita de boba e nossos “herois” escapem ilesos e ricos (e lindos, claro).

Mas não só por isso. Quando assistimos a história contada pelo lado da polícia, os bandidos são feios, mal encarados, preferem grunhir a falar, têm dentes podres, pele ruim, cabelos oleosos, roupa suja, tiques nojentos e repulsivos. Quando a história é contada pelo lado dos criminosos, os policiais são bobões ou muito mau caráter, corruptos, desprezíveis. Já os bandidos queridinhos são bonitos, musculosos, charmosos. Ou pelo menos muito simpáticos ou engraçados (quem não gosta da Nairóbi?).

Recentemente assisti ao primeiro episódio do documentário “100 Humanos”, em que um grupo de 100 voluntários participa de experimentos sobre idade, gênero, felicidade e outros aspectos da vida humana. Uma das experiências separou os voluntários em 2 grupos. A cada um deles foram apresentados 3 fotos de supostos criminosos (eram na verdade atores).

Aos dois grupos foram contadas as mesmas histórias de cada um dos “criminosos” e ao final os apresentadores informaram qual eram os limites de pena sugeridos pelos juízes (por exemplo: de 5 a 15 anos) e perguntavam aos participantes quantos anos de prisão eles dariam a cada um dos “criminosos”. A diferença foi que para um grupo as fotos eram de pessoas bonitas, e para o outro grupo os atores não eram, digamos assim, tããããão bonitos. “Normais”, mais para feios. Resultado: os criminosos bonitos receberam, em média, metade da pena que receberam os criminosos feios (pelos exatos MESMOS crimes). Já dizia Vinícius de Morais: “Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental“.

Enfim, sem entrar em discussões políticas e filosóficas sobre beleza, discriminação, educação, justiça social e afins, o que está na tela é para diversão. No momento do lazer ninguém tem que se ater ao politicamente correto (ou incorreto), à moral, aos bons costumes. Só queremos sentar no sofá, relaxar, surpreender-nos com uma boa narrativa, pelo lado do bem ou pelo lado do mal. Não temos que parar de torcer pelos bandidos das telas, mas o que nos leva a ser tão simpatizantes pode merecer uns minutos de reflexão.

4 comentários em “VOCÊ TORCE PELO BANDIDO?

  1. Analisando por este prisma, o que dizer de Lucifer? Lindo, gostoso, carismático e que ninguém quer que seja expulso de Los Angeles. Torcer por ele ou não? E quem não fica esperando ansiosa aguardando pela nova temporada? Eu fico!
    Se bem que, uma análise bem crítica do seriado, nos leva a pensar nesta questão de bem e mal de uma maneira muito mais crítica e realista do que simplesmente céu e inferno.
    E também não gostei da morte de Oslo, Moscou, Berlim e Nairóbi.

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    1. Eu não lembrei do Lúcifer!!! Este personagem encaixa-se perfeitamente à questão levantada no texto. “Encarnar” Lúcifer em Tom Ellis é facilitar uma plateia de “adoradores do diabo”. Aquele “diabão” leva muitas à perdição. O que mais me cativa no personagem nem é o “shape” ou o sotaque britânico, mas a sua extrema e incondicional sinceridade. Ainda que demonstrando egoísmo, vaidade, soberba… ele nunca mente. Ele é o que é.

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  2. Madrinha
    Primeiro, feliz aniversário mega super hiper ridiculamente atrasado, desculpa o mau jeito.
    Segundo, que ótimo ler textos seus, me sinto novamente nos nossos intermináveis papos na sala da sua casa, enquanto o Brutus tentava nos roubar a atenção pra brincar com ele.
    Achei sensacional o seu texto e concordo quase 100% com ele, exceto tvz o fato de q eu não suporto a Tokio da casa de papel, rsrs, tvz pq nunca tive facilidade pra lidar com pessoas que eu julgo ser burras (tvz o burro seja eu).
    Mas fiquei me perguntando sobre essa simpatia q vc sente (e eu tbm) pelo lado negro da força, afinal a história é contada mais pela perspectiva dos Rebeldes, eles são os mocinhos da história.
    Tvz seja o q vc falou sobre a autenticidade dos bandidos, eles então nem aí pra agradar ninguém (exceto o Imperador, claro), não têm conflitos éticos ou morais, tvz seja isso, sei lá. Os mocinhos são malas.
    É como nos desenhos de nossa infância, o Esqueleto e o Munn Rá eram muito mais divertidos que o He-man ou os Thundercats.
    Muito bom falar com vc, precisamos combinar um papo ao vivo pra colocar a conversa em dia, depois da pandemia, claro.
    Bjos.

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    1. Como é bom saber que consegui transmitir a essência da ideia colocada no texto (ah… pra constar…. também não sou fã da Tokio – rsrsrs). Prepare-se para ser cobrado ao fim da pandemia. Faço questão dessa conversa ao vivo. Saudades enormes.

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