SALVO PELOS DEDOS

“Piá de prédio” é uma gíria usada para definir meninos – e também homens, especialmente aqueles que apesar da idade não abandonam o colo e a casa da mãe – que por serem extremamente protegidos pelos pais, não têm malandragem nem sabem lidar com as situações da vida. Um piá de prédio se conhece pelo comportamento, pelas opiniões e pela inabilidade de lidar com situações inesperadas.

Adriano é um advogado que por muitos anos trabalhou em meu escritório. Uma pessoa incrível, queridíssimo, competentíssimo, um amor de “menino”, e um indubitável piá de prédio.

Certa tarde, após o almoço, Adriano voltava ao escritório dirigindo seu carro, que um ou dois dias antes havia sofrido um arrombamento e estava com aquela janelinha ao lado do volante quebrada. Sem ter tido tempo de providenciar o conserto do vidro, Adriano improvisou uma barreira com plástico e fita adesiva.

Antes de chegar ao escritório, Adriano passou por uma viatura policial, que ao perceber o carro com as evidências de arrombamento, deu ordem de parada a Adriano. Sem saber que o motorista era a vítima e não o agente do arrombamento, os policiais, em uma desnecessária truculência cinematográfica, gritavam e apontavam suas armas: “SAI DO CARRO, SAI DO CARRO, VAGABUNDO. MANDEI SAIR DO CARRO”.

Obviamente desesperado com a violenta abordagem, Adriano sai do carro, voz e pernas trêmulas, tentando entender o que acontecia. “MÃOS NA CABEÇA, VAGABUNDO. MANDEI PÔR A MÃO NA CABEÇA. VOCÊ É RETARDADO? NÃO SABE PÔR A MÃO NA CABEÇA?”. Adriano ergueu os braços e colocou as mãos atrás da cabeça”. “ACHA DIVERTIDO ARROMBAR CARRO, VAGABUNDO? ACHOU QUE IA ESCAPAR?”. “Este carro é meu; eu não fiz nada; estou indo trabalhar. Este carro é meu”, explicava o aflito Adriano.

CRUZA OS DEDOS. CRUZA OS DEDOS”, gritava um dos policiais, com a arma em riste, cano bafejando na têmpora de Adriano. Em sua inocência de piá de prédio, desconhecedor até mesmo de cenas de CSI e Law and Order, Adriano cruzou os dedos.

Mas não os cruzou como o policial queria, ou como qualquer bandido faria, entrelaçando os dedos da mão direita com os dedos da mão esquerda. Adriano cruzou os dedos em um cômico malabarismo para deixar os 4 dedos da mão direita “cruzados” entre si, como figas sobrepostas, fazendo exatamente o mesmo com a mão esquerda.

Não precisou mais nada para os policiais atestarem que Adriano não era um meliante arrombador de veículos. Nenhum facínora malfeitor se humilharia com aquela vexatória cruzada de dedos diante dos policiais. “É piá de prédio”, disse um policial ao outro, sem qualquer esforço para disfarçar o riso que se avolumava. “Bandido que se preze sabe cruzar os dedos”. “Ok, filho, acreditamos em você, pode ir para o trabalho”, disse o antes raivoso policial, explodindo agora em gargalhadas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: