QUASE MORRI

Nas aulas de Português aprendemos sobre a hipérbole, uma figura de linguagem utilizada para definir algo de forma dramática, transmitindo uma ideia aumentada da realidade. “Quase morri de fome”, “Morri de susto”, “Morro de vontade”,…

Certa vez, voltando de uma visita a um cliente, a advogada que estava ao volante, minha queridíssima xará, entrou na contramão em uma alça de rodovia. “Quase morremos”, iniciou a narrativa que contamos quando chegamos no escritório. “Essa louca quase me mata tentando entrar na rodovia pela contramão”. Não quase morremos porque felizmente nenhum veículo trafegava na mão correta. Mas poderíamos ter quase morrido se vários “ses” tivessem acontecido naquele dia.

Deixando a hipérbole de lado (porque todo mundo já “quase morreu de fome, de susto, de raiva ou pelo menos de vergonha”), você já passou alguma situação em que realmente quase morreu? Eu sim, em pelo menos duas situações. Sem hipérbole.

Estava eu com meu amigo e super companheiro de viagem (o mesmo que viveu comigo a experiência contada em MEUS BANHOS PELA EUROPA) transitando em um minúsculo carro pelas estradas de Santorini, na Grécia. As estradas lá são terríveis, estreitíssimas, sem sinalização. Foram muitos os litros de combustível que gastamos inutilmente rodando perdidos na pequena e paradisíaca ilha.

Em uma de nossas incursões por Santorini, entramos em uma curva fechada e ao quase terminá-la deparamo-nos com uma obra e com um caminhão betoneira à nossa frente, parado na estradinha. Paramos também. Não podíamos continuar, tampouco voltar porque não havia como sair de lá por falta de espaço para retorno.

O caminhão, de repente, começou a dar marcha ré. Meu amigo, que estava ao meu lado no volante, paralisado pelo terror, não conseguia reagir (que no caso seria acionar a buzina, por falta de alternativa). Víamos o caminhão aproximando-se do carro, agigantando-se, conduzindo-nos cada vez mais para a passagem para o outro mundo (seja ele qual for).

Tive uma descarga de adrenalina que sinto até hoje, ao relembrar o momento. Lá, naquela situação, tive a certeza de que não voltaria ao Brasil sentada, viva, na classe econômica de uma aeronave. Se não tive a certeza da morte, ao menos pressenti muitos ossos quebrados.

Por sorte, por obra das divindades gregas ou do ser superior em que acredito, um operário que estava por perto abriu um berreiro e o caminhão parou a milímetros do para-choque dianteiro do carro, que separava minhas pernas da parte traseira do caminhão. Foi uma gritaria, com o motorista do caminhão (provavelmente) xingando-nos em grego e nós devolvendo os impropérios em alto, bom e claro (apesar de chulo) Português.

Precisamos de muitos minutos até que os ânimos se acalmassem e nossos batimentos cardíacos voltassem próximo aos normais e até que os veículos fossem manobrados de modo a permitir que fizéssemos o retorno e ir embora. O susto calou-nos e voltamos ao hotel em absoluto silêncio, pensando na fragilidade da vida e agradecendo pela oportunidade de podermos mantê-la em curso.

A outra experiência, vivida alguns meses depois, não foi tão “glamourosa” (só porque eu não estava na Grécia), mas lembro vividamente de pensar: “estou morrendo”. Engasguei com um pedaço de pão. Simples assim. A migalha alojou-se na traqueia de modo que nenhum – NENHUM – ar entrava nem saía.

Eu tinha plena consciência do que estava acontecendo e clareza para obedecer às ordens de meus desesperados familiares. “Levanta o braço”. “Tosse”. “Ajoelha no chão e se curve sobre a cadeira”. “Bate nas costas dela”. Eu ouvia tudo com muita clareza, absolutamente sem poder respirar.

Minha mãe gritava: “pega o carro, vamos levar ela para o hospital”. E muito conscientemente me lembro de pensar: “não dá tempo, estou morrendo”. E eu realmente senti que estava morrendo porque nenhum ar entrava, por mais força que eu fizesse.

Foi então que meu marido – na época ainda namorado –, que trabalha em empresa que presta serviços de emergência em saúde, aplicou-me a manobra de Heimlich, aquela em que se pressiona o abdômen na altura da “boca do estômago” para expelir o que está trancando a respiração.

Tão logo o malfadado pão “voou” de seu alojamento, com muita dificuldade voltei a respirar. Minutos antes, eu tive certeza que estava, de fato, morrendo, e hoje tenho certeza que se não fosse por meu marido, não teria sobrevivido (pelo menos não sem danos fisiológicos) porque dos que estavam comigo, ninguém mais conhecia a manobra, tampouco tinha a força física para poder aplicá-la.

Dizem que quando se está morrendo, “um filme da sua vida passa pela cabeça”. Eu não vi filme nenhum. Eu só pensava “estou morrendo, estou morrendo”. Talvez eu precisasse passar mais tempo privada de oxigênio para o filme começar. Não sei. Só sei que a vida é muito fugaz e uma migalha de pão pode acabar com tudo.

Todo dia alguém acorda para o seu último dia de vida. Felizmente acordei muitos outros dias depois do caminhão na Grécia e do pão engasgado em Guaratuba. Sigo vivendo. E espero que muitos anos se passem antes que eu tenha que ver “aquele filme”.

3 comentários em “QUASE MORRI

  1. Mas bem antes disso teve outro episódio, também com pão, onde, em uma conversa sobre Afonso Nigro – conversa que te deixava emocionava na época – se engasgou feio também. Só que na época, sua altura era desproporcional para as baixinhas da família e ninguém conseguia te ajudar, até que você começou a perder as forças, conseguiram te colocar no colo da mãe, ela deu uns tapinhas nas tuas costas e tudo voltou ao normal. Mas naqueles tempos você pensava mais no Afonso do que na morte. Vamos celebrar a vida, pois graças a luz divina ainda brilha no seu caminho.

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  2. Marilia querida, rio aqui lembrando da maneira que voce conta essas hist[orias, “tragocomicas”la no consultório, absolutamente igual,da para visualizar suas caras e gestos reproduzidos. Parabens!!!

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