QUANDO O GATO FOGE…

Enquanto morei na casa de meus pais – e isso durou décadas – eu sempre tive animais de estimação. ADORO. Gatos e cachorros. Um deles teve em minha vida papel mais importante e impactante do que muitos homo sapiens. Mas essa é outra história. Outro dia eu conto, porque apesar dos muitos anos em que ele nos deixou, ainda me emociono muito e não vai rolar escrever sem rolar lágrima.

Quando depois de já bem adulta resolvi ter meu próprio espaço e alugar um apartamento para morar, a adaptação da nova vida – aquela em que fruta não brota na fruteira, leite não se materializa na geladeira e roupas sujas não são autolimpantes nem autodobráveis – seria muito mais difícil sem alguma presença de quatro patas.

Convencida pela nobreza de uma amiga defensora de animais, ao invés de buscar minha peluda companhia em lojas de animais, procurei sites de doação. Eu queria um gato preto e me apaixonei pela foto de um com olhos verdes que gritavam “vem me buscar”.

Na companhia da amiga incentivadora, em uma manhã de sábado fui buscar o gato. Ao chegar no local, o endiabrado corria por tudo na companhia de um amarelinho, tigrado. “Dá muita pena separar os irmãos; olha como brincam juntos”, começou a “muy amiga”. Já pra resumir: adotei os dois.

Por ser uma declarada fã de Elvis, e ao rapidamente perceber que o amarelinho dominava (mandava e se impunha) sobre o pretinho, sem dificuldade escolhi os nomes: Elvis para o pretinho (apenas uma homenagem às nigérrimas madeixas do Rei) e Coronel Parker, que com maestria infernizava a vida do outro.

Apesar de terem “destruído” o apartamento (rasgaram cortinas, toalhas, fundo de sofá, base da cama,…) eram minhas companhias e eu adorava. Como as janelas do apartamento não tinham rede de proteção, as janelas só ficavam abertas quando eu estava em casa, porque assim eu conseguia controlar o (não) acesso dos gatos à janela.

Mas um dia (sempre tem um dia)… a diarista que limpava o apartamento não fechou as janelas antes de ir embora, e quando voltei do trabalho no final do dia, Elvis tinha se dado liberdade.

Passei a primeira noite sentada no sofá esperando um sinal de vida do gato, que poderia tentar voltar. Passei a segunda noite sentada no sofá. E a terceira também, mas nada de Elvis regressar ao lar.

Na quarta noite, quando já tinha voltado a dormir na horizontal, a campainha tocou às 2h30 da manhã. Acordei assustada e, sem saber muito o que estava fazendo, quando dei por mim já estava abrindo a porta, de pijama, descabelada, rosto inchado de sono, voz engrolada.

Na porta estava o vizinho do primeiro andar, de pijama, descabelado, rosto inchado de sono, voz irritada. “Seu gato está debaixo da minha cama”, anunciou ele.

Precisando de vários segundos para concatenar a situação e a informação, acompanhei-o até seu apartamento para resgatar o gato (naquela mesma situação: de pijama, descabelada,…).

Minha mulher me falou à tarde que tinha um gato debaixo da cama, mas…bem… você sabe a condição dela, então só a acalmei dizendo que eu tiraria o gato mais tarde”. A mulher dele sofria de uma deficiência mental e os moradores do prédio já estavam acostumados com ela tentando entrar em apartamentos alheios, falando sozinha pelos corredores ou “inventando” histórias de gente e animais que entravam na casa dela.

Como o apartamento daquele vizinho ficava exatamente debaixo do meu, ao tentar voltar para casa Elvis pulou na janela mais fácil de entrar. Tendo os apartamentos exatamente a mesma configuração, o gato foi direto para debaixo da cama, que é onde estava acostumado a ficar.

Convencido que o gato era fruto da insanidade da companheira, o vizinho simplesmente ignorou a informação. Mas durante a madrugada um gato nada imaginário começou a miar debaixo da cama. Não era um miado tímido, “fofinho”, mas aqueles escandalosos, esganiçados, aflitivos, enlouquecedores. Ele até tentou tirar o gato, mas sem êxito resolveu buscar a dona – eu!! – para a operação resgate.

Ao entrar no apartamento já dei de cara com o filho-adolescente-com-cara-de-vou-te-matar-vizinha-desgraçada fulminando-me com cara de sono e raiva por ter que levantar dali a poucas horas para mais um cansativo dia de aula pré-vestibular.

Pedindo desculpas até para as paredes, entrei no quarto do casal. A senhorinha com dificuldades cognitivas aparentava bastante lucidez com a cantilena “eu disse que tinha um gato, eu disse que tinha um gato, eu disse que tinha um gato…”.

A cena que se seguiu dilacerou a pouca dignidade que me restava às 2h40 da manhã. A base da cama era um “caixote” sobre o qual o colchão era encaixado. Enquanto o casal, lado a lado, erguia os braços para sustentar o colchão de maneira que eu pudesse entrar no caixote, com a buzanfa pra cima eu tentava desgrudar as unhas do gato do carpete debaixo da cama.

Quanto mais eu puxava o gato, mais ele miava, mais se agarrava no carpete e mais o casal suava com o esforço de sustentar o colchão. Não sei precisar quanto tempo a sessão pastelão durou, mas me pareceram horas. Com o bundão pra cima, lutando com a inacreditável força do gato, eu me desmanchava em desculpas entupidas de vergonha, venho meus vizinhos de um improvável ângulo, quase já cedendo ao peso do colchão.

O esforço foi recompensado com a ansiada separação entre gato e carpete. Pedindo centenas de milhares de desculpas, despedi-me dos vizinhos, sem coragem de encarar o adolescente vestibulando, e voltei para casa procurando pelo cantinho do castigo para refletir sobre meu comportamento.

Não recebi nenhuma reclamação do condomínio e não sei se o chocolate com que presentei os vizinhos teve mais sucesso do que a exagerada quantidade de pedidos de desculpas verbais, mas precisei doar os gatos.

Não… não foi só pela fuga de Elvis. Depois Coronel Parker também fugiu (que, acreditem, foi parar no apartamento dos mesmos vizinhos) e por fim um amigo que cuidava de ambos durante minhas viagens confundiu o depósito de papel do síndico com o depósito de lixo para descartar os dejetos felinos. Este último e derradeiro episódio descobri quando ao voltar de viagem encontrei uma carta não muito educada endereçada “ao responsável, seja ele quem for” que inutilizou os papeis separados para reciclagem com excremento animal.

Foi muita vergonha para uma pessoa só (a “louca dos gatos”). Com dor no coração (mas alívio por cessar a fonte de embaraços com os vizinhos), doei os felinos a quem tinha mais condições de cuidar deles e nunca mais tive animal de estimação em apartamento.

Se eu sinto falta? Muita! Até das vergonhas que viraram histórias pra contar.

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