SOBRE ELOGIOS: O QUE VALE É A INTENÇÃO

Existem muitos elogios que extrapolam os tradicionais (bonita, inteligente, elegante,…) e os vulgares (gostosa, filé, ô lá em casa…). Recebi quatro – nem tradicionais nem vulgares – que foram marcantes, tanto que não os esqueci e agora posso contá-los.

O primeiro foi em um feriado prolongado, quando fui convidada para viajar a uma cidadezinha do interior de Santa Catarina acompanhando uma amiga de faculdade que iria visitar a família. Chegando lá, fui recepcionada pela avó, matriarca da parentela, uma senhora muito alta e de cintilantes olhos azuis anunciando a origem alemã. “Nossa, mas que menina bonita, corada, goooooooooooorda”, assim mesmo, com o “o” arrastado, em um forte sotaque germânico, já temperado com o peculiar sotaque catarinense.

Fiquei arrasada. É óbvio que meu cérebro pulou o “bonita” e prendeu-se no “gooooooooooorda”. Mas aquele foi um elogio genuíno, autêntico. Para os nascidos nas primeiras décadas do século XX, e em especial quem passou por alguma experiência de guerra e escassez, gente bonita é gente gorda, parruda, “com carnes”. Talvez tenha sido o elogio mais puro que eu recebi, considerando a mirada de avaliação e os muitos “os” daquele “goooooooooooooorda” que não me sai da memória.

O segundo memorável elogio aconteceu em uma festa de casamento. Como a noiva era minha sócia, havia entre os convivas muitas pessoas do trabalho, incluindo o office boy da época, um menino muito querido (e praticamente adotado) por todos. Éramos quase vizinhos, então passei buscá-lo para irmos juntos à igreja. Quando ele entrou no carro, olhou-me boquiaberto, embasbacado mesmo. “Nossa, parece uma baronesa”.

Baronesa? Por que não rainha? Princesa? De onde saiu “baronesa”? Visitando os confins da memória, talvez seja o penteado, digno das novelas de época. Sinhá Moça, Escrava Isaura, Tempo de Amar, Força de um Desejo,… Algum destes folhetins deve ter me denunciado.

De qualquer forma, foi um elogio personalizado, único. Definitivamente eu não parecia uma princesa, tampouco uma rainha. Eu parecia uma baronesa! Não sei de alguém que já tenha sido elogiada por parecer uma baronesa. Só sei que me juntei à nobreza de insignes penteados e muito elogiada aproveitei a noite.

O terceiro elogio veio em forma de sonoro palavrão e adjetivo normalmente destinado a situações não elogiosas. Fiz uma viagem de três semanas para Bolívia e Peru, passando tudo quanto é tipo de perrengue e maravilhando-me com as inigualáveis e irrepetíveis belezas naturais que tive o privilégio de conhecer.

Ao retornar para casa, animadíssima e cheia de história para contar, lancei-me na aventura de escrever um diário de viagem (publicado aqui no Blog), recheado de detalhes (incluindo preços e endereços), cuidadosamente anotados durantes as longas horas passadas em trens, ônibus, utilitários,…

Tendo escrito por puro deleite, sem pensar em um público leitor, quando eu contava a alguém as histórias da aventura, comentava também da existência do diário e despretensiosamente (juro!) oferecia-o à leitura, caso meu interlocutor se interessasse pela prévia recém-ouvida.

Uma prima minha, apenas por educação (confessada por ela própria), concordou que eu enviasse a ela o texto e resolveu que, também por educação, daria uma “passada d´olhos” para poder comentá-lo comigo apenas para parecer que o havia lido de fato.

Alguns dias depois, encontramo-nos em uma reunião de família (certamente o aniversário de alguém). “Sua desgraçada”, dirigiu-se ela a mim, sem nem um introito de cumprimento, “não dormi por sua causa”. Sem nem cogitar o mais remoto motivo pelo qual eu pudesse ter afligido seus momentos de descanso noturno, fui surpreendida com o elogio em forma de indignação. “Comecei a ler e só consegui parar quando cheguei na última página, mais de três horas da madrugada”. Nenhum outro tradicional elogio teria mais força do que esse para lisonjear-me.

Por fim, o quarto e último – e confesso, o que mais me tocou – foi o que que recebi de uma ex-colega de trabalho, minha xará, que me comparou à Malévola.

Sim, Malévola, a personagem antagonista de um conto de fadas, uma “fada do mal” que tendo nascido uma jovem de coração puro, após uma terrível traição transforma-se em uma mulher amarga e vingativa.

PARA TU-DO!!! Nasci sim de coração puro (quem não nasce?), mas não me tornei amarga e vingativa (eu acho, é claro), tampouco sofri uma terrível traição (não que eu saiba). Não, não é esse o ponto de convergência com a linda personagem (só porque interpretada por Angelina Jolie, por supuesto).

Nas exatas palavras de quem assim me comparou: “Tudo isso para dizer que sim, você é foda!!! Já viu a Malévola interpretada pela Angelina Jolie no cinema, essa nova versão da Disney? Sim, para mim você sempre será esse tipo de fada madrinha. (…) Você é sensacional e autêntica. Pode ser que seja a diaba porque é áries com ascendente em áries… mas pra mim isso aí é apenas a personagem, porque na real você é uma menina de pés descalços que só quer correr no barro molhado e viajar nas fantasias que a leitura e todas as histórias proporcionam. Pode ser que no meio do caminho exista a necessidade de alguma batalha e você vire adulta para fazer um bom trabalho na advocacia (como sempre), mas logo a batalha encerra, novas aparecem, e o sol brilha radiante nas fantasias e você pode voltar a sonhar e correr. (…) A vilã Malévola, de má não tem nada, pelo contrário, ela faz o que ninguém quer fazer para ter um retorno positivo de suas ações. Por isso é julgada equivocadamente”.

Ainda choro (de emoção, é claro), quando leio estas palavras, porque me tocam muito.

Então, quando você receber um elogio “meio torto”, incomum, sui generis, analise a intenção de quem o/a elogiou. Eu, na condição de Malévola baronesa gorda e desgraçada, colhi os louros de puros e sinceros elogios.

Um comentário em “SOBRE ELOGIOS: O QUE VALE É A INTENÇÃO

  1. Adorei Marilia kkkkkk Certa vez estava no estúdio para dar uma aula EAD Ao Vivo e o câmera falou: Profª que vontade que eu tenho de furar o seu olho kkkkk Eu olhei para ele e comecei a rir kkkkk Ele disse: Queria um olho assim!

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