É A ONÇA

Nos meus tempos de escola meu pai tinha uma pequena chácara na região metropolitana de Curitiba. Praticamente só mato, rio e tanque (de peixe), ou seja, muita natureza. Não tinha casa para os finais de semana e nenhuma outra comodidade (nenhuma mesmo), e isso fazia a festa da “piazada”, meus amigos de escola, que adoravam deixar o conforto de suas bem mobiliadas casas para aventurar-se na natureza selvagem.

Combinaram, certo final de semana, de acampar lá na chácara. Meu pai, frustrado por não ter tido prole masculina, deleitava-se com a oportunidade de “adotar” os meninos e fazer-lhes as vontades. Sábado pela manhã os pais biológicos despejaram-nos no portão lá de casa e amontados na kombi de meu pai partiram para a aventura.  Naquela época, final da década de 80, não se valorizavam “detalhes” como bancos e cintos de segurança. Forrava-se o chão da kombi com colchões e ninguém sentia a viagem passar.

Uma semana antes do tão esperado final de semana, o caseiro da chácara avistou marcas de pata de um grande felino nas trilhas da mata. Se não era um gatinho avantajado, provavelmente era uma onça pintada.  Na dúvida, onça é muito mais emocionante, então os meninos foram avisados que recentemente uma onça por lá andara.

Após quase devidamente instalados – considerando que eles mesmos montaram as barracas, solidez não era algo que definisse o acampamento – os meninos aproveitaram o dia. Nadaram, pescaram pequenos lambaris que iam direto do tanque para a frigideira equilibrada no “fogareiro de tijolos”, comeram fruta do pé e exploraram trilhas na mata. Diversão pura para os acostumados com o concreto de prédios e largas avenidas.

À noite, classicamente reunidos em volta de uma fogueira, começou a contação de histórias. Não demorou para o assunto caminhar em direção ao sobrenatural, com “causos” que os narradores juravam ter acontecido. Com a coragem abandonando lentamente o grupo, os meninos foram ficando cada mais próximos, atraídos pela necessidade de proteção dos fantasmas imaginados.

A noite já bastante avançada, cansaço totalmente instalado, decidiram recolher-se na proteção de suas bravas barracas quando um deles lembrou da onça. “Meu Deus, a onça”. O medo de assombração deu lugar ao medo da pintada.

Invocando a coragem que os havia abandonado, com toda a escassa sapiência de sobrevivência na “selva”, os corajosos meninos resolveram dar “uma geral” antes de dormir, só para assegurarem-se da calmaria do local.

Como se fossem um só corpo, todos muito juntos, sem sair do lugar apenas giraram a lanterna em um raio de 360º ao redor do acampamento, até que um par de olhos brilhou no meio da mata. A onça! Só poderia ser a onça. Fantasmas nos protejam! A onça estava lá, espreitando-os, só esperando o momento oportuno para banquetear-se com as tenras carnes.

Paralisados, mantiveram a lanterna nos olhos da bicha. Ninguém se mexia. Nem humanos nem o animal. Tensão. Expectativa. Cagaço.

Onça balança o rabo?, perguntou o único que estava com todos os sentidos alertados pelo medo.

Hã?

– Perguntei se onça balança o rabo, repetiu o observador.

Claro que não, piá burro.

– Então é cachorro, anunciou o sábio membro dos cinco cagões.

Alívio geral. O pobre canino foi escorraçado por fazê-los acreditarser um perigoso felino. Que audácia!!!

Por precaução fizeram mais uma varredura com a lanterna. Nada brilhou. Área liberada para o descanso. O cachorro dispensaria a vigilância da madrugada.

Cada um dirigiu-se à segurança de sua própria barraca. Apenas um, mais “precavido”, por via das dúvidas decidiu dormir com a porta da barraca aberta. Com os pés para fora. Calçados. Pronto para correr. Com uma faca na mão. Uma faca. De cozinha. Vai que a bicha aparece!

5 comentários em “É A ONÇA

  1. Este acampamento deixou muita estoria. Só eles para lembrar de todas, mas se não me engano teve sal que passou a ser tenperado depois de cair na grama, bandeira de cueca, dedo para medir temperatura da água com a mesmo pelo joelho, trilha marcada com bonés e camisetas para não se perder na mata e a turma perdida na volta e os meninos mata a dentro procurando a marcação enquanto as meninas esperavam sentadas no ponto que perceberam que estavam perdidas. Mas só eles mesmo pra contar.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: