O BOI

Quando me preparava para o vestibular, li “Quase Memória”, de Carlos Heitor Cony, que estava na lista para a prova de Literatura. “Quase Memória” apresenta as reminiscências do personagem sobre o pai, revivendo as sensações e os sentimentos experimentados com o pai. Adorei a história e senti despertar a vontade de um dia contar as histórias de meu próprio pai. Suas “façanhas” foram – e são – tantas, que certamente merecem ser contadas.

Começo então a “Série Pai”, para dividir com vocês algumas das “peripécias manoelinas” (porque Manoel é o seu nome) que fazem minha memória rir de saudade (rir porque são memórias, já que não as gostaria de reviver).

Meu pai sempre foi meio “selvagem”. Ele gosta de mato, de bicho, de acampar na beira do rio, de pescar, enfim, de modo reverso, nunca foi um citadino.

A fase mais rica de histórias aconteceu quando ele adquiriu uma chácara na região metropolitana de Curitiba. Não havia uma “casa de campo” para passarmos os fins de semana ou as férias. Uma pequena casa de madeira abrigava o caseiro e sua família. O resto era mato, pequenas plantações e animais.

Um desses animais era um boi, um boi robusto e rebelde. Semana após semana o boi começou a dar incômodos e despesas: quebrava a cerca, invadia a propriedade do vizinho, pisoteava plantações, escapava para a estrada. Foram tantas as aprontadas do boi, que a paciência do “Seu” Manoel esgotou e o destino do boi foi selado: viraria bife.

Como não éramos fazendeiros nem criadores de gado (o boi foi único na experiência rural de meu pai), levar o boi do pasto para o prato não era algo tão simples. Então Manoel contatou um frigorífico e acertou que o boi seria levado para lá para ser carneado. O boi deveria ser entregue vivo porque para fatiar o boi o abate pelo próprio frigorífico era condição.

Sempre muito bem relacionado e cheio de amigos, Manoel conseguiu emprestado um caminhãozinho e foi buscar o boi. Tudo estava correndo como o planejado – era só pegar o boi na chácara e entregar no frigorífico –, não fosse o boi ter feito seu derradeiro ato de vingança por seu forçado adeus à vida: morreu durante o trajeto.

Era um boi, de sei lá quantos quilos, carne pura e fresca. A recusa do frigorífico em carneá-lo não seria justificativa para “jogar fora o boi” e a morte do “bichinho” não impediria que o próprio Manoel executasse a tarefa.

A casa onde morávamos na época era bem grande. Uns 600 m2 de terreno. Do portão até o fundo da construção da casa havia um corredor, por onde passavam os carros, e lá atrás o espaço abria-se novamente, em uma ampla extensão onde havia outras pequenas construções: uma edícula, uma churrasqueira (quase nunca usada porque meu pai nunca fez churrasco, deixando a atividade para quem a quisesse fazer), um “quartinho de bagunça” (que não sei por que chamávamos de “casinha”) onde se acumulava tudo o que se pode juntar e até o que a imaginação pode criar.

Essa “casinha” era bem alta e láááááá em cima ficava a caixa d´água. Engenheiro criativo, Manoel logo acertou a solução para carnear o boi. Construindo um sistema de roldanas, Manoel amarrou uma grossa corda no para-choque dianteiro do caminhãozinho, passou-a pela roldana lá no alto e na ponta oposta da corda amarrou o boi, então ficava fácil subir ou abaixar o animal conforme a necessidade.

Provavelmente tendo em mente que “o que não tem remédio, remediado está”, sem nunca ter carneado um boi, Manoel entregou-se à nova e árdua tarefa de arrancar o couro do animal e transformá-lo em patinho, maminha, alcatra,…

Um dia antes, nossa calçada havia recém sido trocada, com as lajotas brilhando de novas, mas ainda sem rejunte (que seria providenciado nos dias subsequentes). Na medida em que o sangue escorria do corpo bovino, entranhava-se debaixo das lajotas não rejuntadas.

Minha mãe estava fora de casa, sem nem desconfiar da chacina que iniciara em seu santo lar. Na época tínhamos uma empregada que nos prestava serviços domésticos. Trabalhando para nós já há alguns anos, Noemia já conhecia suficientemente as “artes” de meu pai e os dramas de minha mãe, e por isso ficou de guarda na janela frontal de casa aguardando a aparição dela.

Ao descer do ônibus, o sempre apuradíssimo nariz dela detectou cheiro de sangue, incompreendido pelo cérebro diante de tão inusitado fato. Ao vê-la cruzando a rua, Noemia saiu correndo ao seu encontro. “Fique calma, Dona Marina, está tudo bem”.

A mente dramática de minha mãe imediatamente criou um cenário de carnificina, com toda sua família esquartejada em uma brutalidade só vista na tela da televisão. Viraríamos notícia policial. “Ah meu Deus, ah meu Deus”, choramingava minha mãe, com as pernas bambas, esperando um apoio que a permitisse desmaiar. “Calma Dona Marina, está tudo bem, é só o boi”.

A informação totalmente fora de contexto reavivou os sentidos de minha quase desmaiada mãe, agora bastante atenta à espera de uma explicação do motivo pelo qual suas novíssimas lajotas estavam cuspindo sangue.

Batimentos cardíacos restabelecidos, corpos dos membros da família conferidos (minha mãe precisava ter certeza que o sangue não era nosso), o fim da história é que Manoel precisou pedir ajuda ao açougueiro que trabalhava no mercadinho da esquina para finalizar a saga do boi.

É claro que muita carne se perdeu pela inabilidade de quem nunca destroçou nem frango, mas muita carne também abarrotou nosso freezer (afinal, era um boi inteiro, não apenas um quarto traseiro). O rejunte das lajotas precisou esperar algumas semanas até o sangue ser todo drenado (ou cuspido, dependendo do ponto de vista) e a experiência rural de meu pai nunca mais contou com bovinos. À exceção de um bezerro, que morou em nosso quintal por algumas semanas. Mas essa é outra história, assim como a história do carneiro, dos patos, dos bodes, do porco…

3 comentários em “O BOI

  1. Sem contar que no dia seguinte, a vó levantou cedo para tirar o coro, deixando a carne a mostra para facilitar o corte – Zoraide entendia quase nada, o que já era muito perto do conhecimento de qualquer um lá em casa. E ainda a mãe reclamando que abriu a janela de manhã e deu de cara com o boi pendurado.

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    1. Me fez lembrar da história do pato pedrinho da minha mãe e do cachorro alckmin, que com o tempo virou quiminho…rsrsrs…beijos querida Marília

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