SPACE CAKE

Sou careta. Quadradona total. Nunca pus um cigarro na boca (tenho nojo daquele troço fedido). Sempre fui tão careta, mas tão careta, que nunca tive oportunidade de recusar droga porque ninguém nunca me ofereceu droga.

Quando já adulta, depois de formada, programei uma viagem de férias para a Europa: Londres, Paris, Brugge e Amsterdam, o paraíso dos viciados. “Se vai para Amsterdam, tem que experimentar o space cake”, determinou meu tão querido amigo Rangel, que há pouco havia retornado do Velho Continente.

A ideia instalou-se em minha cabeça. Usar droga em Amsterdam é “outro nível”. E “usar droga” nem é um terno adequado para comer um bolinho (de maconha, mas ainda um bolinho). Fiquei tentada. Finalmente eu seria uma transgressora da moral e dos bons costumes.

Acompanhada por Ana, amiga de viagem daqueles tempos, depois de horas de tentativas de persuasão (seu nível de “caretice” era semelhante ao meu) convenci-a que deveríamos experimentar a famosa e “perigosa” (queríamos acreditar) iguaria.

Entramos em um coffeeshop. Bem ao contrário do que o inocente nome sugere, não se trata só de uma cafeteria, mas de um local muito popular onde são legalizados a venda e o consumo de maconha e haxixe. Entramos quase sorrateiras, olhando por sobre os ombros, como se estivéssemos prestes a cometer um crime.

Pedimos 2 space cakes e desisti assim que vi o preço: € 5 cada. Multiplicado pela cotação (seja ela qual for), era muito caro. “Larga mão de ser mão de vaca”, instigou-me Ana, há pouco a mais relutante pela experiência, “quando é que vai poder fazer isso novamente?

Compramos os bolinhos e voltamos ao hotel. Avaliamos que seria muito perigoso para duas virgens psicotrópicas a experiência em local público em solo estrangeiro. “vai que…. sei lá…. melhor não arriscar”.

Tomamos nosso banho, deitamos em nossas camas e preparamo-nos para a inédita experiência. Começamos lendo as instruções (sim, havia um papelote com instruções). “Não se orienta consumir se você nunca consumiu antes”. Não, “péra”, como assim???? Que desprezo é esse com a primeira vez?

Enfim, deitadas, preparadas para a “viagem”, comemos nossos bolinhos. Particularmente não gostei. Tinha gosto de muffin de chocolate com pouco chocolate. Não gostei mesmo. Bem, agora era só esperar o efeito. Nas instruções se dizia que em 10 minutos tudo começava.

Dez minutos. Vinte minutos. Trinta minutos. “E aí”, perguntei para Ana, “nada?” “Nada”, confirmou ela. Caraca, que decepção. Eu não servia nem para me drogar. Efeito nenhum. Sem nada para fazer, nem mesmo ver TV (todos os programas sem legendas em inglês), e notoriamente muito “boa de cama”, desejei boa noite para Ana, virei de lado e adormeci imediatamente.

De madrugada acordei precisando ir ao banheiro. Meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu Deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeus. O que foi aquilo? O quarto andava, as paredes tentavam me espremer, a cama parecia um pudim. Acordei chapada total. Levantei tentando me esquivar das garras das paredes, que me queriam de todo jeito. Sentei no vaso sanitário e lutei com o espelho. O infeliz fazia uns sons estranhos, se achando um sabre de luz: uooooon, uoooooon, uooooooon. Com a bexiga aliviada, voltei para a cama desviando do terreno minado e tão logo o colchão me engoliu, caí em um profundo sono.

Pela manhã acordei com a indignação de Ana: “sua infeliz, dormiu e me deixou chapada sozinha; não consegui te acordar de jeito nenhum”. Mal sabia ela da mais louca e curta aventura na madrugada, envolvendo espelhos lutadores e colchões engolidores.

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