ÀS COISAS, OS NOMES QUE ELAS TÊM

A boa educação manda que não se utilize palavreado chulo na comunicação. Embora seja muitas vezes um alívio dizer um bom e libertador palavrão, não raramente insubstituível, a fala e a escrita devem manter civilidade.

Não entendo, no entanto, a resistência das pessoas em adotarem as palavras corretas diante de determinados assuntos e diante de situações corriqueiras.

Para exemplificar, conto a vocês que trabalhei com um rapaz educadíssimo, um “lorde inglês” nascido em terras tupiniquins. Muito religioso, o moço não falava palavrão de jeito nenhum. Até aí nenhum demérito, muito pelo contrário. Apesar de com bastante frequência eu precise “esfregar a boca com sabão” por causa das palavras que me saem em meus muitos momentos de indignação (como advogada lido diariamente com as mazelas e decepções de nosso sistema judiciário), reconheço o quão inadequado é utilizar impropérios. Mas há palavras que mesmo consideradas “feias”, representam o que temos em comum.

Voltando ao rapaz do parágrafo acima, em uma tarde de trabalho ele me perguntou o que era “xiri”. Não faço a menor ideia de como é a escrita dessa palavra, cuja pronúncia pretensamente vem do japonês. Aprendi-a com uma amiga, descendente dos orientais. Como brincadeira, começamos a nos chamar mutuamente de “xiri” até que para nós virou um apelido desgarrado de seu significado linguístico. Mas por ser uma palavra muito utilizada por mim (na condição de apelido), um dia ele me perguntou o que significava “xiri”.

Sabendo da extrema religiosidade e suscetibilidade do moço, certifiquei-me se ele realmente queria saber.

Tem certeza que quer saber?

– Tenho sim.

– “Xiri” é cu em japonês.

– Ah tá, é isso.

– Isso o quê?

– Isso o que você falou.

– O que eu falei?

– Essa palavra que você acabou de falar.

De fato, de jeito nenhum o mancebo falava “palavrão”, mesmo sendo “cu” uma parte do corpo, do meu, do seu, de todos nós. Curiosa, não me aguentei:

Você não fala “cu”?

Eeeeeeeu? Claro que não!!!!!! (muito indignado, quase ofendido)

Mas… como você chama o cu?

Eu não chamo. Eu não falo essa palavra.

OK, mas… se você precisar se referir a essa parte do corpo, como você fala?

Não sei. Rabicó, eu acho.

Não sei você, caríssimo(a) leitor(a), mas eu não tenho rabicó. Eu tenho cu. Não saio falando cu “a torto e a direito”, nem mesmo sugerindo que para lá se dirijam meus desafetos, mas quando quero me referir a essa parte do corpo, utilizo exatamente a palavra que a descreve (cu) ou seu sinônimo anatômico (ânus). Inclusive está la no dicionário: “Cu: orifício na extremidade inferior do intestino grosso, por onde se expelem os excrementos”. Todos temos cu, palavra presente em qualquer dicionário da Língua Portuguesa.

Por falar em cu, lembro-me de outra história, essa vivida por um amigo muito querido. Quando ele estava na adolescência, tinha um irmão pequeno, uns cinco anos de idade. Toca o telefone e o irmãozinho corre atender. Pediram para falar com meu amigo, que naquele exato inapropriado momento estava no banheiro. O irmãozinho, rápido e muito eficiente na informação, no esplendor de sua inocência comunica: “ele tá cagando”. O defecante, ouvindo mortificado a estridente voz infantil, imediatamente interrompeu o “labor” e correu para o telefone em tempo de ouvir as gargalhadas do outro lado da linha.

Ele estava de fato cagando. Eu cago, e sei que você também caga. A propósito, pode conferir lá no dicionário: “cagar: expelir fezes; defecar”. É uma palavra como outra qualquer e deveria ser proferida com a naturalidade de um ato comum a todos. Inclusive é muito mais comum a ouvirmos como sinônimo de “nem tô aí” (tô cagando para o que ele pensa), do que propriamente o ato que a palavra descreve. Ninguém se ofende ao ouvir que uma pessoa vai comer, beber, dormir, mas os narizes se torcem (inclusive literalmente) se alguém vai peidar, cagar, mijar, arrotar (todos esses verbos estão no dicionário da língua portuguesa).

Obviamente que esses atos não se fazem em público nem se anunciam previamente, mas as palavras que os descrevem não deveriam soar ofensivas, vergonhosas. Quando o pequeno de cinco anos informou que o irmão estava cagando, passou uma informação precisa de um ato natural. Poderia até mudar a expressão, mas jamais o ato.

Não defendo obscenidades, tampouco grosseria, muito menos a prática de tais verbos em público, em especial diante de almas mais sensíveis. Respeito deve imperar sobre qualquer dicionário. Expresso apenas meu desentendimento quanto a determinadas expressões que atraem julgamentos quando pronunciadas. A “sorte” dos mais sensíveis, sugestionáveis e vulneráveis, ou então dos muito mais educados do que eu, é que a Língua Portuguesa é riquíssima. Eu tenho cu e cago. Mas você pode ter ânus, orifício corrugado, “fiofó” e até rabicó. E na hora do aperto pode preferir defecar, dejetar, evacuar, obrar. E não se fala mais nisso!

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