CORRENDO DA JUSTIÇA

Já ouvi muitas vezes – com o que pessoalmente concordo – que um bom advogado é um bom processualista, aquele que conhece e domina os procedimentos, que algumas vezes sobrepõem-se sobre o próprio direito. Só que pernas rápidas também contam.

Certa vez eu e o preposto da empresa que eu estava representando estávamos aguardando uma audiência no Juizado Especial. Lá, se o autor não comparecer para a audiência de conciliação, o processo é arquivado. Naquela situação, éramos réus.

Fomos chamados para a audiência, mas o advogado do autor da ação ainda ficou na sala de espera, aguardando a chegada do seu cliente, que, segundo ele, estava na iminência de aparecer.

Sentamos na frente do conciliador, que ao constatar que o autor não estava presente, iniciou a escrever a ata constatando-lhe a ausência. Pressa não existia nem no vocabulário nem nos hábitos do conciliador, pelo menos não naquele momento. Meu coração – e provavelmente o do preposto também – estava acelerado. Se a qualquer momento o autor entrasse na sala, a audiência seria realizada e o processo teria continuidade.

O conciliador queria conversar, contar casos, falar da vida. Minhas respostas eram monossilábicas, uma ineficaz tentativa de abreviar o tempo e a conclusão da ata.

Ele mandou imprimir o documento, saiu da sala para buscá-lo, verificou que a tinta da impressora deixara uma mancha no papel, voltou para mandar imprimir novamente, saiu buscá-lo, voltou, saiu uma vez mais para buscar uma caneta,…. O tempo se arrastava e as chances de o autor chegar aumentavam.

Finalmente assinamos a ata e levantamos apressados. Mesmo com a ata já assinada, considerando o informalismo dos Juizados Especiais, tínhamos o receio que a aparição, ainda que tardia, do autor reabrisse a audiência.

Passamos pelo advogado do autor, suando nervoso ao telefone, e o ouvimos dizer ao seu cliente: “corre que dá tempo”. Olhei para o “meu” preposto e repeti a mesma ordem: “corre que dá tempo”.

Saímos eu e preposto correndo do prédio, correndo mesmo, literalmente, como se perseguidos por algo muito cruel e mortal. Fomos mais rápidos que o autor, que junto com a justiça tardou.

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