OS SEM GINCANA

Por muitos anos eu frequentei a Igreja Luterana. Comunidade Evangélica Luterana São Paulo do Portão, em Curitiba. Posso dizer, sem medo de errar, que muitos dos melhores momentos da minha vida eu passei lá, em especial com o Grupo de Jovens, que compunha a JELB – Juventude Evangélica Luterana do Brasil.

Pense em um tempo bom. Tenho centenas de histórias, milhares de memórias, e a satisfação de ter, até hoje, entre meus melhores e mais queridos amigos, pessoas daquela “época de juventude”.

Retiros, Congressos Distritais, Congressos Nacionais (e até um Internacional!!), reuniões,…. afe…. bom demais. Um dia eu me animo a rememorar aquela época e contar muita coisa para vocês.

Mas o tempo passa. E a gente deixa de ser “jovem”. Pelo menos passa da idade de, sem constrangimento, continuar participando do Grupo de Jovens. Não existe – ou pelo menos na minha época não existia – uma idade determinada para sair. Mas à medida que íamos ficando mais velhos (e olha que estou falando lá pelos 25 anos, “idade avançadíssima”), já não nos sentíamos tão à vontade para continuar nos reunindo com jovens tão mais jovens. Afinal, “a partir de certa idade”, já ficávamos adultos, profissionais formados na faculdade e muitos já começando a formar famílias.

Mas não pensem que foi fácil assim “deixar a Juventude”. A gente queria continuar participando da Juventude, mas sem exatamente estar na Juventude. Fácil: dá pra ajudar na organização dos retiros, congressos,…

Foi assim que eu e uma de minhas amigas-irmã, a Larissa, ficamos responsáveis por organizar a gincana do Grupo de Jovens que se reuniu em um final de semana para o Retiro dos Jovens.

Passamos semanas bolando as provas, as brincadeiras da Gincana (TODOS os retiros tinham Gincana no sábado à noite). Bexigas cheias de farinha, bacias para serem enchidas de água, cordas, roupas bregas, acessórios de plástico multicoloridos,….. No dia marcado para a Gincana enchemos o porta-malas do meu Uno branco (daquele antigo, quadradinho, lindo que era) e saímos para coordenar a Gincana do Grupo de Jovens.

Vocês sabem ir para Agudos do Sul?

Eu, que sou a mais perdida das perdidas, incapaz de me locomover sem um GPS (aos que têm a minha idade e se perguntam como eu me virava antes desta tecnologia, eu me virava com a “Lista Aqui”), tive a “sorte grande” de uma semana antes ter ido passar um domingo com minha família exatamente em Agudos do Sul, Município distante alguns quilômetros de Curitiba.

­- Sei sim, informei exultante (e aliviada).

Então…. depois que você pegar a entrada para Agudos, você anda “x” quilômetros, depois vai passar pelo mercadinho “y”, depois….

Anotei tudo, faceira. Eu sabia chegar até a entrada de Agudos do Sul e depois disso minha copilota assumiria a o papel de guiar-me pelo desconhecido.

Dezesseis horas do dia marcado, porta-malas do Uno entulhado, instruções do caminho anotadas, saímos em direção à “entrada de Agudos do Sul”.

Até chegar na entrada, eu estava tranquila, dona de mim, dominando a situação. Entramos na tal entrada para o Município. Rodamos, rodamos, rodamos, rodamos, continuamos rodando e nada – NADA, “tipo” NADA mesmo – de encontrar os marcos das instruções.

Começou a anoitecer e nós continuamos rodando. Rodando, rodando, rodando muito. A hora de nosso compromisso aproximava-se.

Naquela época já existia telefone celular – e eu, afortunada e muito chique, tinha um sim, daqueles “tijolões”. Mas sinal que importava… nada também!!!

Anoiteceu. E nós não encontramos o local do retiro. Já sem esperanças, e irremediavelmente atrasadas, resignamo-nos em voltar para casa quando Larissa alertou-me que o carro estava instável, parecendo “manco”.

É a estrada de chão, que está cheia de buraco, argumentei.

– Não é só a estrada não. Tem algo estranho.

Claro: PNEU FURADO. Já escuro, estrada de terra sem qualquer iluminação (nem o poético brilho das estrelas estava a fim de nos ajudar), medo fazendo a voz tremer. Mas o momento exigia racionalidade, não emoção. Precisávamos encontrar um lugar, uma casa, um portão qualquer pelo qual pudéssemos passar para não ficarmos tão vulneráveis na estrada.

Encontramos um e entramos. Sem cogitar que poderia haver cães, “jagunços”, fosse o que fosse. Simplesmente entramos e fechamos o portão atrás de nós. O terreno era íngreme, gramado, instável. Puxei com força o freio de mão e lá ficamos. Ninguém apareceu. Buzinamos. Nada. Silêncio.

A primeira providência foi atender à emergência de nossas bexigas, que começam já a devolver para os rins o que estava sendo impedida de eliminar. Sem pudor (não podíamos dar-nos a este luxo), abaixamos atrás do carro, a uma distância higienicamente segura uma da outra), e atendemos ao chamado da natureza.

Continuávamos lá, sozinhas. Aventuramo-nos então a invadir um pouco a propriedade, indo em direção à casa que estava lááááá nos fundos. Entramos. Era uma pequena capela, com uma freira ajoelhada, rezando. Pigarreamos. Forçosamente tossimos, mas a reza silenciosa continuava. Tivemos então que interrompê-la ostensivamente para anunciar nossa presença e pedir ajuda. Tivemos êxito somente na primeira intenção, pois ajuda não recebemos nenhuma (além da permissão pacífica de permanecermos na propriedade até resolvermos nosso problema).

Voltamos para o carro. Sentada ao lado de Larissa perguntei:

Você sabe trocar pneu?

– Não. E você, sabe?

– Também não.

– O que vamos fazer então?

– Trocar pneu.

Planejamos mentalmente a sequência lógica para a troca. Primeiro: tirar o pneu furado. Segundo: colocar o estepe no lugar. Simples. Podíamos fazer.

A única luz que nos socorria era a do farol do carro. Sem deixar o pânico tomar conta (ele não seria de nenhuma ajuda mesmo), iniciamos a tarefa de localizar o estepe, que encontramos no capô da frente, junto com o motor. Com muito esforço giramos a trava de segurança e liberamos o pneu. Colocamos pedras atrás de cada um dos pneus traseiros para impedir que o carro andasse para trás na ladeira que nos era desfavorável. E partimos para o primeiro passo: tirar o pneu furado.

Era isso o que nós queríamos. Não era o que o pneu queria. Tateando o pneu para encontrar os parafusos, encaixamos a chave de rodas e tentamos girá-la. Não saía do lugar. Nem um só movimento. Foi então que lembrei de ter visto – não sei quando nem onde – alguém subindo na chave de roda para movê-la com o peso do corpo. Genial. Problema resolvido. Era o que pensávamos.

Larissa subiu e pulou sobre a chave de roda, mas seu corpo esbeltíssimo (menos de 60 Kg em 1m80 de altura) não deu conta do recado. O serviço pesado sobrou para a gordinha aqui. Eu precisava de umas cinco tentativas para o parafuso girar só um pouquinho. Então foram muitas cinco tentativas. Quando avaliamos que o pneu furado já estava mais ou menos solto, chegou o momento de instalar o macaco mecânico. Surpreendentemente foi a parte mais fácil. O Uno tinha uma marca, uma flecha em relevo no exato local de posicionamento do instrumento, então foi tranquilo.

Erguemos o carro, tiramos o pneu furado, colocamo-nos no lugar do estepe e partimos para a segunda e mais difícil parte da missão: colocar o estepe na roda. Pneu pesa. No escuro, pesa mais. Em mãos inexperientes, pesa toneladas. Sem luz. Não conseguíamos encaixar os furos do pneu nos pinos da roda.

Seguramos então os pneus nos braços, fomos para  a frente do carro para enxergar na luz do farol e posicionar os furos dos pneus de acordo com o que o tato gravou em nossa memória sobre o posicionamento dos pinos na roda. Suando com o esforço e andando de lado, feito caranguejos em corrida no mangue, nos deslocamos até a roda e depois de sete ou oito tentativas, conseguimos finalmente encaixar o pneu na roda.

Fixamos os parafusos com todas as forças que Deus nos deu. Mãos machucadas, bíceps tremendo, realmente chegamos no limite do que tínhamos de força para prender o pneu. Fixamos o pneu-furado-agora-no-lugar-do-estepe, guardamos macaco e chave de rodas e fomos avisar a freirinha que já estávamos de saída. Ela apenas permitiu que lavássemos as mãos e o rosto (muito da sujeira que estava nos pneus transferiram-se para testas e bochechas) e gentilmente nos convidou a sair.

Na estrada, sentíamos o estepe rodando instável. Dava sinais de que queria saltar e fugir. Ao invés se apenas girar para a frente, como lhe competia fazer, o estepe instalado balançada da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, repetidamente. Com receio de sermos ultrapassadas por nosso próprio pneu, Larissa colocou meio corpo para fora do carro para vigiar (e narrar) o comportamento do instável pneu.

Rodamos lentamente naquela aflitiva situação – o pneu cai ou não cai? – até que saímos novamente na rodovia e entramos no primeiro posto de gasolina que encontramos. Explicamos nossa saga ao frentista e pedimos que ele apenas verificasse se tínhamos feito o serviço corretamente porque estranhávamos o rebelde comportamento do pneu.

Ele pegou a chave de rodas e deu pelo menos mais 4 voltas completas para fixar o pneu. A força que eu e Larissa empregamos para fixar a roda aproximou-se da força necessária para libertar Excalibur. Já o frentista salvador parecia estar brincando de pirocoptero, aqueles pirulitos da década de 80 que vinham com uma hélice de plástico para serem rodados entre as palmas das mãos e saírem voando.

Com o pneu-estepe corretamente fixado na roda, voltamos com o porta-malas cheio e o tanque vazio para nossas casas. Marcamos história por termos provocado o primeiro retiro de jovens luteranos sem gincana.

Só algumas semanas depois descobrimos o motivo de nosso fracasso na localização do local do retiro. Quando recebi as orientações para chegar na casa, eu sabia chegar na entrada para Agudos do Sul (tanto sabia, que de fato entrei no Município). O que eu não sabia é que existiam 2 entradas.

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