COMO SERIA O QUE NUNCA FOI

Lembro de ter assistido, quando menina, um filme em que uma freira, em dúvida sobre se estaria ou não seguindo sua vocação, e também motivada pela paixão por um soldado, resolve abandonar o convento para experimentar a vida mundana.

Mas uma santa (impossível que minha memória revele qual delas) desce dos céus e fica em seu lugar, como se a santa fosse a própria freira (para o telespectador, o rosto da santa-freira aparecia mais fosco do que o normal, mas as demais habitantes do Convento não se deram conta da troca; para todos os efeitos, a freira nunca saiu do convento).

Depois de experimentar desilusões amorosas (e não só com o soldado), no fim a freira (que em sua experiência tornou-se uma conhecida cigana, cantora e cortesã) entrega-se à sua vocação. A santa volta para o céu e a freirinha retoma seu lugar e finalmente se ordena.

Em rápida pesquisa na internet, para ter mais alguma informação para este texto, descobri que se trata do filme O Milagre, lançado em 1959 (devo ter assistido em meados da década de 80).

Aos cinéfilos peço perdão pela rudeza do resumo. Isso é o que tenho na memória, com acréscimos de informações da internet, como também lembro de, já naquela idade, ter ficado indignada com a “facilidade” oportunizada pela santa à freira e pela impunidade.

A freirinha aprontou, fez de tudo um pouco, entregou-se aos prazeres da vida (pelo menos ao que era possível mostrar nas telas no final da década de 50) e quando voltou ao convento, retomando seu lugar e liberando a santa, foi como se nada tivesse acontecido. “Assim é fácil”, lembro de ter “filosofado” na época, no auge de não mais do que os meus 12 anos de idade (“calculo”).

Nunca mais vi aquele filme (gostaria de revê-lo), mas com algumas dezenas a mais de anos de vida do que eu tinha naquela época, hoje entendo como todos nós podemos nos enlevar com a ideia de querer fugir de tudo, de experimentar uma outra vida, de sermos um outro eu. Nem que seja por alguns segundos. E se alguém pudesse tomar nosso lugar, só para ninguém perceber nossa fugida, seria O Milagre (exatamente como o nome do filme).

Não sou mãe, mas já conversei com várias que me confessaram ter vontade, ainda que por alguns segundos ou minutos, que os filhos (e se possível o marido também) “sumissem”. E antes que me alvejem com comentários de indignação, registro que essa vontade em nada – absolutamente nada – diminui o amor materno pelos filhos. É só uma vontade de viver, brevemente, em outro mundo, uma outra vida, só para experimentar, para sentir a sensação, para ter um gostinho. E depois voltar. Exatamente como a freira d´O Milagre.

A oportunidade da freira foi única (obviamente possibilitada por um roteiro cinematográfico) e não nos é permitido, a nós simples mortais do mundo real, viver essa fantástica experiência. Já pensaram nisso? Dar aquele beijo nunca dado? Ter feito aquela loucura freada pela razão? Fazer aquela confissão que ficou presa na garganta? Saber como seria o que nunca foi? É…. seria realmente um milagre.

3 comentários em “COMO SERIA O QUE NUNCA FOI

  1. Eis o grande dilema da vida, para casa escolha, uma renuncia …. Acho que a felicidades está em aceitar o caminho escolhido, sendo este certo ou errado, se é que existe errado …

    Curtir

  2. Como Seria o que nunca foi…..Como nossa vida através de nossas decisões e escolhas pode tomar direcionamentos completamente distintos. É fato. Depois de alguma reflexão…..percebo que independente dos caminhos que percorremos vamos levar tudo de nós e vivermos as experiências, conflitos, frustrações, realizações…
    Existe o caminho certo ou errado? Penso que não. Gratidão Marília querida. Vou assistir o filme novamente. Beijuus sua linda.

    Curtir

  3. Como Seria o que nunca foi…..Como nossa vida através de nossas decisões e escolhas pode tomar direcionamentos completamente distintos. É fato. Depois de alguma reflexão…..percebo que independente dos caminhos que percorremos vamos levar tudo de nós e vivermos as experiências, conflitos, frustrações, realizações…
    Existe o caminho certo ou errado? Penso que não. Gratidão Marília querida. Vou assistir o filme novamente. Beijuus sua linda. Sou eu tá?rsrs mudei o nome…beijuus

    Curtir

Deixe uma resposta para svaniareis Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: