SOU PRECONCEITUOSA

Sim, o título deste texto é uma confissão. Sou preconceituosa. E acredito que não exista um ser humano que não tenha algum tipo de preconceito. Então afirmo que também você é preconceituoso(a). Não estou falando necessariamente das formas mais conhecidas de preconceito, como o racismo e fobias (homofobia, gordofobia, xenofobia, …), mas qualquer tipo de preconceito. Responda a si mesmo(a): que adjetivos já usou (ou pensou) contra quem não tem a mesma religião que você, quem tem hábitos muito diferentes dos seus, quem não votou no mesmo presidenciável que você votou na última eleição e quem adota comportamento diverso do seu na pandemia da COVID-19?

Se você julga alguém por questões como essas, como eu você também tem preconceito.

Não adianta eu – ou um psicólogo, psiquiatra, guru, pai de santo,… – dizer para você não ser preconceituoso(a). É como dizer “não sinta raiva”. A raiva surge, é sentida e ponto. O preconceito também é assim. Estamos constante e invariavelmente julgando alguém (basta consultar nossas opiniões). A questão é o tratamento que damos ao preconceito e o que aprendemos com ele. Eu tive minhas lições.

Em 2007 fiz minha primeira viagem à Europa na companhia de uma grande amiga. Um de nossos destinos era a tão sonhada Londres. Ela ficaria na casa de uma amiga dela que morava por lá e eu fiquei em um hostel, melhor do que muito hotel em que já fiquei.

Depois de quase fundir o cérebro tentando entender o inglês britânico do recepcionista, subi para o quarto e fiquei horrorizada no exato momento em que abri a porta. Eu era a terceira ocupante de um quarto com 3 lugares. As outras duas hóspedes estavam lá, embora fosse apenas cinco horas da tarde. Fiquei chocada e amedrontada.

Uma delas era uma baixinha rechonchuda, cabelo muito curto repicado, da cor dos cabelos de Iracema, como as asas da graúna. Correntes e piercings estavam por onde você puder imaginar. A outra era magrinha, bem miúda, com uma cabeleira também negra, bastante longa, que lhe fazia as vezes de cortina a esconder-lhe o rosto (poderia facilmente ter acabado de sair dO Chamado). A música estava alta, um estilo que chamo de “barulheira com gritaria”.

Deixei o mochilão no armário e desci imediatamente na recepção pedir que me colocassem em outro quarto. De jeito nenhum eu ficaria no quarto com aquelas loucas rebeldes. De jeito nenhum desde que tivesse vaga em outros quartos. Não tinha.

Resignada, indignada, voltei ao quarto preparando-me para o martírio. Já me imaginava enlouquecendo com a música e passando a noite em claro por conta de algazarra. E já tinha me programado para comprar um cadeado na primeira loja que encontrasse. Eu precisaria proteger meus pertences!

Enquanto eu arrumava minhas coisas para sair para a primeira volta em solo londrino, elas baixaram o som e puxaram conversa. Eram suíças, visitando Londres em busca de agito e diversão (segundo elas, a Suíça é muito chata, certinha, quadradinha). Foram muito agradáveis e simpáticas comigo.

Saí para meu primeiro passeio e não as vi mais. Quando voltei no final do dia elas não estavam no quarto. Na manhã seguinte elas dormiam encapsuladas em seus cobertores enquanto eu saí e ao voltar em mais um final de dia, encontrei em meu travesseiro um bilhete adorável, assinado por ambas desejando-me bons momentos em minha estada na Europa.

Outra experiência semelhante eu vivi em Buenos Aires (é… parece que não aprendi a lição). Novamente em um hostel, eu estava na sala comunitária de TV. Entra um rapaz, cabeça raspada, tatuagem em toda a extensão de pele visível, piercing nos lábios, nariz e orelha. Ele me cumprimentou e eu apenas retribuí (Hola, ¿qué tal?), nem um pouco interessada em puxar conversa e já pensando em “me mandar” dali.

Eu não queria conversa, mas ele queria. Lentamente deixando minha “curitibanisse” de lado (obviamente conheço nossa fama), fui cedendo e em poucos minutos a conversa rolava solta. Saímos para comer na Rua Florida e antes de voltar ao hostel eu já sabia boa parte de sua vida (ele era um italiano que estava terminando um trabalho na Argentina e em uma semana iria encontrar-se com a namorada no México, que estava gestando seu primeiro filho).

Se dependesse de mim, não teria trocado mais do que três ou quatro palavras com cada um deles. Não fosse por eles, eu não teria visto o lado mais lindo que tinham a me oferecer: sua alma, seus pensamentos, sua história. Permiti-me julgá-los pela aparência, tão distintas da minha (como se a minha pudesse ser, com tanta empáfia, parâmetro de algo bom!!!).

Eu não gosto de tatuagem. Não gosto de piercing, nem cabelos coloridos e roupas “exóticas”. Mas quem disse que eu preciso gostar para ver a essência das pessoas? Essas coisas não as definem. São meras formas de expressão. Ou de puro gosto. Da mesma forma que meu cabelo lisinho (à custa de química, confesso) e cortado impecavelmente não impede que eu seja uma pessoa “descolada” e divertida, as tatuagens e adereços deles não os tornam marginais a serem evitados.

Eu sigo sendo preconceituosa. Não consigo pensar “ai que lindo” ao ver uma pessoa inteira tatuada. Não consigo me sentir segura ao cruzar com alguém na rua usando touca de lã e calças com os fundilhos alcançando os joelhos. Mas acredito que aprendi – ou continuo aprendendo – a não deixar que meus preconceitos impeçam que eu conheça pessoas maravilhosas. Prova disso? Tenho amigos estampados e coloridíssimos. E os amo!!!!

Um comentário em “SOU PRECONCEITUOSA

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