POR QUÊ? PORQUE. POR QUE. É O PORQUÊ.

Não, essa não é uma aula gramatical de usos dos porquês (e será um desafio eu chegar ao fim deste texto sem errar nenhum). É uma história de por que se meter em assunto alheio pode ser o porquê da questão.

Há muitos anos prestei assessoria jurídica para uma agência de publicidade que participava de licitações. Minha função era analisar o edital, organizar e conferir documentos e assegurar que juridicamente a empresa estaria apta a participar do certame (palavra bonita essa!).

Como era uma licitação para elaboração de peças publicitárias, o concorrente deveria apresentar algumas sugestões de… peças publicitárias, obviamente. Alguns dias antes da data marcada para a entrega dos envelopes da licitação, lá estava eu reunida com diretores, redatores e vários outros “ores” responsáveis pela elaboração dos documentos.

Eu só precisava conferi-los (contratos societários, certidões negativas, listagem de profissionais,…) para verificar se atendiam ao edital até que meu treinado (e xereta) olho de leitora viciada encontrou a peça publicitária elaborada pela agência: “Porque deixar para amanhã a conquista que você pode conseguir hoje?”.

Eu, uma simples e mortal advogada em meio a experientes redatores publicitários, tentei abordar a questão com humildade, fazendo-me de “meio boba”:

– Perdoem-me a intromissão, mas eu tenho a impressão (assim… “só acho”) que este “porque” está escrito de forma errada. Acredito que deveria ser escrito separado”.

Não tem nada errado. Isso já passou pelos revisores, foi a resposta curta, seca e grossa da (obviamente) responsável pela produção final da peça.

Calei. Reza a lenda que cliente sempre tem razão. Mas aquilo ficou (também muito obviamente) me incomodando. No final da tarde entra na sala um dos diretores principais, daqueles com fama de temido, querendo saber como estava o andamento do trabalho.

Estamos quase finalizando. Eu já apontei os documentos que precisam ser refeitos para que façamos uma nova revisão daqui a 2 dias, reportei a ele. E… comentei que tenho dúvidas sobre a grafia daquele porquê escrito na peça para revista.

O diretor olhou para a peça, analisou-a por alguns segundos e “deu a sentença”: Não tem nada errado não. É isso mesmo.

Eu parecia pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo deparando-me com a temível e cruel obsessão. Mas… cliente sempre tem razão. E naquela altura dos acontecimentos, já começava a duvidar de meus arraigados conhecimentos gramaticais.

Passados os dois dias, voltei para a agência e reuni-me com um dos diretores que não estava presente na primeira reunião. Cheia de razão depois de conferir a gramática (e o Google), voltei ao assunto:

Senhor “Fulano”, perdoe-me a intromissão e a insistência, mas este porquê está definitivamente errado. É uma pergunta, então o porquê tem que ser separado. Eu sei que revisão de texto das peças não é minha função, mas não posso me omitir ao ver uma peça que concorrerá com outras agências apresentando um erro de Português.

– Tem certeza?

Eu, muito segura de mim, cheia de razão”, arrematei: TENHO!!!!

Ele ergueu o telefone e chamou aquela mesma “responsável” da resposta curta, seca e grossa da primeira reunião. Diante dela, apontando o dedo para a peça da discórdia, o diretor disparou:

A advogada está dizendo que este texto está errado.

Fulminando-me com o olhar e sibilando as palavras entre dentes, ela tentou encerrar o assunto:

Nós JÁ dissemos A ELA que não tem nada de errado com o texto. Não sei por que ela continua insistindo. Este texto já passou por revisão. Está tudo certo.

Àquela altura calar-me não era mais uma opção. Não. Definitivamente não. Eu tinha certeza de que o texto estava errado e eu não podia permitir (pelo menos não sem lutar) que meu cliente fosse desclassificado de uma licitação por erro gramatical.

Está errado. Tenho certeza de que está errado, insisti.

N-Ã-O  E-S-T-ÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!, vociferou a fofa.

Vou ligar agora para a revisão, avisou o diretor. Se este texto passou pela revisão e se estiver errado, todos da redação estão despedidos. TODOS.

Jesus, Maria, José e todos os santos!!!! O que eu fui fazer? Fui contratada para comparar documentos com edital, não para provocar demissão em massa. Teria eu que carregar essa cruz?

O diretor pega o telefone e liga para o pessoal da revisão. Mal o desavisado atende o telefone o diretor já dispara:

Vou ler uma frase e quero que me diga se a escrita está certa.

(eu estava do lado de cá da linha, então só posso imaginar o que estava sendo dito do lado de lá da linha, sem poder transcrever).

– “Por que deixar para amanhã a conquista que você pode conseguir hoje”. Como escreve este porquê?

– …

– É uma pergunta, esclareceu o diretor.

– …

Separado?

– …

– Tem certeza?

-…

– Este texto passou por você?

– …

– Passou por alguém daí?

-…

– Não? Ninguém revisou este texto nos últimos dias?

– …

– Então é separado mesmo?

-…

– OK. Obrigado.

Uuuuuuuuuufa. Ninguém revisou o texto. Então ninguém perderia o emprego. A fofa grossa seria a única encrencada na história. Com o telefone desligado eu só ouvia as tentativas de explicações gaguejadas (e..e..eu pen-pensei q-que o text, que o texto ti-tinha sido revisado) e a onda de ódio cego crescendo em minha direção.

Por que tanto ódio? Nunca vou entender o porquê. Deve ser porque se sentiu contrariada. Sério, por quê?

Um comentário em “POR QUÊ? PORQUE. POR QUE. É O PORQUÊ.

  1. Não é mesmo fácil acertar o uso dos diversos porquês, mas sempre é possível revisar, né? Não tem como justificar passar um erro desses. Ela deveria agradecer por você ter evitado um estrago maior. Imagina se essa peça vai pra rua…

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