POR QUÊ? PORQUE. POR QUE. É O PORQUÊ.

Não, essa não é uma aula gramatical de usos dos porquês (e será um desafio eu chegar ao fim deste texto sem errar nenhum). É uma história de por que se meter em assunto alheio pode ser o porquê da questão.

Há muitos anos prestei assessoria jurídica para uma agência de publicidade que participava de licitações. Minha função era analisar o edital, organizar e conferir documentos e assegurar que juridicamente a empresa estaria apta a participar do certame (palavra bonita essa!).

Como era uma licitação para elaboração de peças publicitárias, o concorrente deveria apresentar algumas sugestões de… peças publicitárias, obviamente. Alguns dias antes da data marcada para a entrega dos envelopes da licitação, lá estava eu reunida com diretores, redatores e vários outros “ores” responsáveis pela elaboração dos documentos.

Eu só precisava conferi-los (contratos societários, certidões negativas, listagem de profissionais,…) para verificar se atendiam ao edital até que meu treinado (e xereta) olho de leitora viciada encontrou a peça publicitária elaborada pela agência: “Porque deixar para amanhã a conquista que você pode conseguir hoje?”.

Eu, uma simples e mortal advogada em meio a experientes redatores publicitários, tentei abordar a questão com humildade, fazendo-me de “meio boba”:

– Perdoem-me a intromissão, mas eu tenho a impressão (assim… “só acho”) que este “porque” está escrito de forma errada. Acredito que deveria ser escrito separado”.

Não tem nada errado. Isso já passou pelos revisores, foi a resposta curta, seca e grossa da (obviamente) responsável pela produção final da peça.

Calei. Reza a lenda que cliente sempre tem razão. Mas aquilo ficou (também muito obviamente) me incomodando. No final da tarde entra na sala um dos diretores principais, daqueles com fama de temido, querendo saber como estava o andamento do trabalho.

Estamos quase finalizando. Eu já apontei os documentos que precisam ser refeitos para que façamos uma nova revisão daqui a 2 dias, reportei a ele. E… comentei que tenho dúvidas sobre a grafia daquele porquê escrito na peça para revista.

O diretor olhou para a peça, analisou-a por alguns segundos e “deu a sentença”: Não tem nada errado não. É isso mesmo.

Eu parecia pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo deparando-me com a temível e cruel obsessão. Mas… cliente sempre tem razão. E naquela altura dos acontecimentos, já começava a duvidar de meus arraigados conhecimentos gramaticais.

Passados os dois dias, voltei para a agência e reuni-me com um dos diretores que não estava presente na primeira reunião. Cheia de razão depois de conferir a gramática (e o Google), voltei ao assunto:

Senhor “Fulano”, perdoe-me a intromissão e a insistência, mas este porquê está definitivamente errado. É uma pergunta, então o porquê tem que ser separado. Eu sei que revisão de texto das peças não é minha função, mas não posso me omitir ao ver uma peça que concorrerá com outras agências apresentando um erro de Português.

– Tem certeza?

Eu, muito segura de mim, cheia de razão”, arrematei: TENHO!!!!

Ele ergueu o telefone e chamou aquela mesma “responsável” da resposta curta, seca e grossa da primeira reunião. Diante dela, apontando o dedo para a peça da discórdia, o diretor disparou:

A advogada está dizendo que este texto está errado.

Fulminando-me com o olhar e sibilando as palavras entre dentes, ela tentou encerrar o assunto:

Nós JÁ dissemos A ELA que não tem nada de errado com o texto. Não sei por que ela continua insistindo. Este texto já passou por revisão. Está tudo certo.

Àquela altura calar-me não era mais uma opção. Não. Definitivamente não. Eu tinha certeza de que o texto estava errado e eu não podia permitir (pelo menos não sem lutar) que meu cliente fosse desclassificado de uma licitação por erro gramatical.

Está errado. Tenho certeza de que está errado, insisti.

N-Ã-O  E-S-T-ÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!, vociferou a fofa.

Vou ligar agora para a revisão, avisou o diretor. Se este texto passou pela revisão e se estiver errado, todos da redação estão despedidos. TODOS.

Jesus, Maria, José e todos os santos!!!! O que eu fui fazer? Fui contratada para comparar documentos com edital, não para provocar demissão em massa. Teria eu que carregar essa cruz?

O diretor pega o telefone e liga para o pessoal da revisão. Mal o desavisado atende o telefone o diretor já dispara:

Vou ler uma frase e quero que me diga se a escrita está certa.

(eu estava do lado de cá da linha, então só posso imaginar o que estava sendo dito do lado de lá da linha, sem poder transcrever).

– “Por que deixar para amanhã a conquista que você pode conseguir hoje”. Como escreve este porquê?

– …

– É uma pergunta, esclareceu o diretor.

– …

Separado?

– …

– Tem certeza?

-…

– Este texto passou por você?

– …

– Passou por alguém daí?

-…

– Não? Ninguém revisou este texto nos últimos dias?

– …

– Então é separado mesmo?

-…

– OK. Obrigado.

Uuuuuuuuuufa. Ninguém revisou o texto. Então ninguém perderia o emprego. A fofa grossa seria a única encrencada na história. Com o telefone desligado eu só ouvia as tentativas de explicações gaguejadas (e..e..eu pen-pensei q-que o text, que o texto ti-tinha sido revisado) e a onda de ódio cego crescendo em minha direção.

Por que tanto ódio? Nunca vou entender o porquê. Deve ser porque se sentiu contrariada. Sério, por quê?

SOU PRECONCEITUOSA

Sim, o título deste texto é uma confissão. Sou preconceituosa. E acredito que não exista um ser humano que não tenha algum tipo de preconceito. Então afirmo que também você é preconceituoso(a). Não estou falando necessariamente das formas mais conhecidas de preconceito, como o racismo e fobias (homofobia, gordofobia, xenofobia, …), mas qualquer tipo de preconceito. Responda a si mesmo(a): que adjetivos já usou (ou pensou) contra quem não tem a mesma religião que você, quem tem hábitos muito diferentes dos seus, quem não votou no mesmo presidenciável que você votou na última eleição e quem adota comportamento diverso do seu na pandemia da COVID-19?

Se você julga alguém por questões como essas, como eu você também tem preconceito.

Não adianta eu – ou um psicólogo, psiquiatra, guru, pai de santo,… – dizer para você não ser preconceituoso(a). É como dizer “não sinta raiva”. A raiva surge, é sentida e ponto. O preconceito também é assim. Estamos constante e invariavelmente julgando alguém (basta consultar nossas opiniões). A questão é o tratamento que damos ao preconceito e o que aprendemos com ele. Eu tive minhas lições.

Em 2007 fiz minha primeira viagem à Europa na companhia de uma grande amiga. Um de nossos destinos era a tão sonhada Londres. Ela ficaria na casa de uma amiga dela que morava por lá e eu fiquei em um hostel, melhor do que muito hotel em que já fiquei.

Depois de quase fundir o cérebro tentando entender o inglês britânico do recepcionista, subi para o quarto e fiquei horrorizada no exato momento em que abri a porta. Eu era a terceira ocupante de um quarto com 3 lugares. As outras duas hóspedes estavam lá, embora fosse apenas cinco horas da tarde. Fiquei chocada e amedrontada.

Uma delas era uma baixinha rechonchuda, cabelo muito curto repicado, da cor dos cabelos de Iracema, como as asas da graúna. Correntes e piercings estavam por onde você puder imaginar. A outra era magrinha, bem miúda, com uma cabeleira também negra, bastante longa, que lhe fazia as vezes de cortina a esconder-lhe o rosto (poderia facilmente ter acabado de sair dO Chamado). A música estava alta, um estilo que chamo de “barulheira com gritaria”.

Deixei o mochilão no armário e desci imediatamente na recepção pedir que me colocassem em outro quarto. De jeito nenhum eu ficaria no quarto com aquelas loucas rebeldes. De jeito nenhum desde que tivesse vaga em outros quartos. Não tinha.

Resignada, indignada, voltei ao quarto preparando-me para o martírio. Já me imaginava enlouquecendo com a música e passando a noite em claro por conta de algazarra. E já tinha me programado para comprar um cadeado na primeira loja que encontrasse. Eu precisaria proteger meus pertences!

Enquanto eu arrumava minhas coisas para sair para a primeira volta em solo londrino, elas baixaram o som e puxaram conversa. Eram suíças, visitando Londres em busca de agito e diversão (segundo elas, a Suíça é muito chata, certinha, quadradinha). Foram muito agradáveis e simpáticas comigo.

Saí para meu primeiro passeio e não as vi mais. Quando voltei no final do dia elas não estavam no quarto. Na manhã seguinte elas dormiam encapsuladas em seus cobertores enquanto eu saí e ao voltar em mais um final de dia, encontrei em meu travesseiro um bilhete adorável, assinado por ambas desejando-me bons momentos em minha estada na Europa.

Outra experiência semelhante eu vivi em Buenos Aires (é… parece que não aprendi a lição). Novamente em um hostel, eu estava na sala comunitária de TV. Entra um rapaz, cabeça raspada, tatuagem em toda a extensão de pele visível, piercing nos lábios, nariz e orelha. Ele me cumprimentou e eu apenas retribuí (Hola, ¿qué tal?), nem um pouco interessada em puxar conversa e já pensando em “me mandar” dali.

Eu não queria conversa, mas ele queria. Lentamente deixando minha “curitibanisse” de lado (obviamente conheço nossa fama), fui cedendo e em poucos minutos a conversa rolava solta. Saímos para comer na Rua Florida e antes de voltar ao hostel eu já sabia boa parte de sua vida (ele era um italiano que estava terminando um trabalho na Argentina e em uma semana iria encontrar-se com a namorada no México, que estava gestando seu primeiro filho).

Se dependesse de mim, não teria trocado mais do que três ou quatro palavras com cada um deles. Não fosse por eles, eu não teria visto o lado mais lindo que tinham a me oferecer: sua alma, seus pensamentos, sua história. Permiti-me julgá-los pela aparência, tão distintas da minha (como se a minha pudesse ser, com tanta empáfia, parâmetro de algo bom!!!).

Eu não gosto de tatuagem. Não gosto de piercing, nem cabelos coloridos e roupas “exóticas”. Mas quem disse que eu preciso gostar para ver a essência das pessoas? Essas coisas não as definem. São meras formas de expressão. Ou de puro gosto. Da mesma forma que meu cabelo lisinho (à custa de química, confesso) e cortado impecavelmente não impede que eu seja uma pessoa “descolada” e divertida, as tatuagens e adereços deles não os tornam marginais a serem evitados.

Eu sigo sendo preconceituosa. Não consigo pensar “ai que lindo” ao ver uma pessoa inteira tatuada. Não consigo me sentir segura ao cruzar com alguém na rua usando touca de lã e calças com os fundilhos alcançando os joelhos. Mas acredito que aprendi – ou continuo aprendendo – a não deixar que meus preconceitos impeçam que eu conheça pessoas maravilhosas. Prova disso? Tenho amigos estampados e coloridíssimos. E os amo!!!!

COMO SERIA O QUE NUNCA FOI

Lembro de ter assistido, quando menina, um filme em que uma freira, em dúvida sobre se estaria ou não seguindo sua vocação, e também motivada pela paixão por um soldado, resolve abandonar o convento para experimentar a vida mundana.

Mas uma santa (impossível que minha memória revele qual delas) desce dos céus e fica em seu lugar, como se a santa fosse a própria freira (para o telespectador, o rosto da santa-freira aparecia mais fosco do que o normal, mas as demais habitantes do Convento não se deram conta da troca; para todos os efeitos, a freira nunca saiu do convento).

Depois de experimentar desilusões amorosas (e não só com o soldado), no fim a freira (que em sua experiência tornou-se uma conhecida cigana, cantora e cortesã) entrega-se à sua vocação. A santa volta para o céu e a freirinha retoma seu lugar e finalmente se ordena.

Em rápida pesquisa na internet, para ter mais alguma informação para este texto, descobri que se trata do filme O Milagre, lançado em 1959 (devo ter assistido em meados da década de 80).

Aos cinéfilos peço perdão pela rudeza do resumo. Isso é o que tenho na memória, com acréscimos de informações da internet, como também lembro de, já naquela idade, ter ficado indignada com a “facilidade” oportunizada pela santa à freira e pela impunidade.

A freirinha aprontou, fez de tudo um pouco, entregou-se aos prazeres da vida (pelo menos ao que era possível mostrar nas telas no final da década de 50) e quando voltou ao convento, retomando seu lugar e liberando a santa, foi como se nada tivesse acontecido. “Assim é fácil”, lembro de ter “filosofado” na época, no auge de não mais do que os meus 12 anos de idade (“calculo”).

Nunca mais vi aquele filme (gostaria de revê-lo), mas com algumas dezenas a mais de anos de vida do que eu tinha naquela época, hoje entendo como todos nós podemos nos enlevar com a ideia de querer fugir de tudo, de experimentar uma outra vida, de sermos um outro eu. Nem que seja por alguns segundos. E se alguém pudesse tomar nosso lugar, só para ninguém perceber nossa fugida, seria O Milagre (exatamente como o nome do filme).

Não sou mãe, mas já conversei com várias que me confessaram ter vontade, ainda que por alguns segundos ou minutos, que os filhos (e se possível o marido também) “sumissem”. E antes que me alvejem com comentários de indignação, registro que essa vontade em nada – absolutamente nada – diminui o amor materno pelos filhos. É só uma vontade de viver, brevemente, em outro mundo, uma outra vida, só para experimentar, para sentir a sensação, para ter um gostinho. E depois voltar. Exatamente como a freira d´O Milagre.

A oportunidade da freira foi única (obviamente possibilitada por um roteiro cinematográfico) e não nos é permitido, a nós simples mortais do mundo real, viver essa fantástica experiência. Já pensaram nisso? Dar aquele beijo nunca dado? Ter feito aquela loucura freada pela razão? Fazer aquela confissão que ficou presa na garganta? Saber como seria o que nunca foi? É…. seria realmente um milagre.

OS SEM GINCANA

Por muitos anos eu frequentei a Igreja Luterana. Comunidade Evangélica Luterana São Paulo do Portão, em Curitiba. Posso dizer, sem medo de errar, que muitos dos melhores momentos da minha vida eu passei lá, em especial com o Grupo de Jovens, que compunha a JELB – Juventude Evangélica Luterana do Brasil.

Pense em um tempo bom. Tenho centenas de histórias, milhares de memórias, e a satisfação de ter, até hoje, entre meus melhores e mais queridos amigos, pessoas daquela “época de juventude”.

Retiros, Congressos Distritais, Congressos Nacionais (e até um Internacional!!), reuniões,…. afe…. bom demais. Um dia eu me animo a rememorar aquela época e contar muita coisa para vocês.

Mas o tempo passa. E a gente deixa de ser “jovem”. Pelo menos passa da idade de, sem constrangimento, continuar participando do Grupo de Jovens. Não existe – ou pelo menos na minha época não existia – uma idade determinada para sair. Mas à medida que íamos ficando mais velhos (e olha que estou falando lá pelos 25 anos, “idade avançadíssima”), já não nos sentíamos tão à vontade para continuar nos reunindo com jovens tão mais jovens. Afinal, “a partir de certa idade”, já ficávamos adultos, profissionais formados na faculdade e muitos já começando a formar famílias.

Mas não pensem que foi fácil assim “deixar a Juventude”. A gente queria continuar participando da Juventude, mas sem exatamente estar na Juventude. Fácil: dá pra ajudar na organização dos retiros, congressos,…

Foi assim que eu e uma de minhas amigas-irmã, a Larissa, ficamos responsáveis por organizar a gincana do Grupo de Jovens que se reuniu em um final de semana para o Retiro dos Jovens.

Passamos semanas bolando as provas, as brincadeiras da Gincana (TODOS os retiros tinham Gincana no sábado à noite). Bexigas cheias de farinha, bacias para serem enchidas de água, cordas, roupas bregas, acessórios de plástico multicoloridos,….. No dia marcado para a Gincana enchemos o porta-malas do meu Uno branco (daquele antigo, quadradinho, lindo que era) e saímos para coordenar a Gincana do Grupo de Jovens.

Vocês sabem ir para Agudos do Sul?

Eu, que sou a mais perdida das perdidas, incapaz de me locomover sem um GPS (aos que têm a minha idade e se perguntam como eu me virava antes desta tecnologia, eu me virava com a “Lista Aqui”), tive a “sorte grande” de uma semana antes ter ido passar um domingo com minha família exatamente em Agudos do Sul, Município distante alguns quilômetros de Curitiba.

­- Sei sim, informei exultante (e aliviada).

Então…. depois que você pegar a entrada para Agudos, você anda “x” quilômetros, depois vai passar pelo mercadinho “y”, depois….

Anotei tudo, faceira. Eu sabia chegar até a entrada de Agudos do Sul e depois disso minha copilota assumiria a o papel de guiar-me pelo desconhecido.

Dezesseis horas do dia marcado, porta-malas do Uno entulhado, instruções do caminho anotadas, saímos em direção à “entrada de Agudos do Sul”.

Até chegar na entrada, eu estava tranquila, dona de mim, dominando a situação. Entramos na tal entrada para o Município. Rodamos, rodamos, rodamos, rodamos, continuamos rodando e nada – NADA, “tipo” NADA mesmo – de encontrar os marcos das instruções.

Começou a anoitecer e nós continuamos rodando. Rodando, rodando, rodando muito. A hora de nosso compromisso aproximava-se.

Naquela época já existia telefone celular – e eu, afortunada e muito chique, tinha um sim, daqueles “tijolões”. Mas sinal que importava… nada também!!!

Anoiteceu. E nós não encontramos o local do retiro. Já sem esperanças, e irremediavelmente atrasadas, resignamo-nos em voltar para casa quando Larissa alertou-me que o carro estava instável, parecendo “manco”.

É a estrada de chão, que está cheia de buraco, argumentei.

– Não é só a estrada não. Tem algo estranho.

Claro: PNEU FURADO. Já escuro, estrada de terra sem qualquer iluminação (nem o poético brilho das estrelas estava a fim de nos ajudar), medo fazendo a voz tremer. Mas o momento exigia racionalidade, não emoção. Precisávamos encontrar um lugar, uma casa, um portão qualquer pelo qual pudéssemos passar para não ficarmos tão vulneráveis na estrada.

Encontramos um e entramos. Sem cogitar que poderia haver cães, “jagunços”, fosse o que fosse. Simplesmente entramos e fechamos o portão atrás de nós. O terreno era íngreme, gramado, instável. Puxei com força o freio de mão e lá ficamos. Ninguém apareceu. Buzinamos. Nada. Silêncio.

A primeira providência foi atender à emergência de nossas bexigas, que começam já a devolver para os rins o que estava sendo impedida de eliminar. Sem pudor (não podíamos dar-nos a este luxo), abaixamos atrás do carro, a uma distância higienicamente segura uma da outra), e atendemos ao chamado da natureza.

Continuávamos lá, sozinhas. Aventuramo-nos então a invadir um pouco a propriedade, indo em direção à casa que estava lááááá nos fundos. Entramos. Era uma pequena capela, com uma freira ajoelhada, rezando. Pigarreamos. Forçosamente tossimos, mas a reza silenciosa continuava. Tivemos então que interrompê-la ostensivamente para anunciar nossa presença e pedir ajuda. Tivemos êxito somente na primeira intenção, pois ajuda não recebemos nenhuma (além da permissão pacífica de permanecermos na propriedade até resolvermos nosso problema).

Voltamos para o carro. Sentada ao lado de Larissa perguntei:

Você sabe trocar pneu?

– Não. E você, sabe?

– Também não.

– O que vamos fazer então?

– Trocar pneu.

Planejamos mentalmente a sequência lógica para a troca. Primeiro: tirar o pneu furado. Segundo: colocar o estepe no lugar. Simples. Podíamos fazer.

A única luz que nos socorria era a do farol do carro. Sem deixar o pânico tomar conta (ele não seria de nenhuma ajuda mesmo), iniciamos a tarefa de localizar o estepe, que encontramos no capô da frente, junto com o motor. Com muito esforço giramos a trava de segurança e liberamos o pneu. Colocamos pedras atrás de cada um dos pneus traseiros para impedir que o carro andasse para trás na ladeira que nos era desfavorável. E partimos para o primeiro passo: tirar o pneu furado.

Era isso o que nós queríamos. Não era o que o pneu queria. Tateando o pneu para encontrar os parafusos, encaixamos a chave de rodas e tentamos girá-la. Não saía do lugar. Nem um só movimento. Foi então que lembrei de ter visto – não sei quando nem onde – alguém subindo na chave de roda para movê-la com o peso do corpo. Genial. Problema resolvido. Era o que pensávamos.

Larissa subiu e pulou sobre a chave de roda, mas seu corpo esbeltíssimo (menos de 60 Kg em 1m80 de altura) não deu conta do recado. O serviço pesado sobrou para a gordinha aqui. Eu precisava de umas cinco tentativas para o parafuso girar só um pouquinho. Então foram muitas cinco tentativas. Quando avaliamos que o pneu furado já estava mais ou menos solto, chegou o momento de instalar o macaco mecânico. Surpreendentemente foi a parte mais fácil. O Uno tinha uma marca, uma flecha em relevo no exato local de posicionamento do instrumento, então foi tranquilo.

Erguemos o carro, tiramos o pneu furado, colocamo-nos no lugar do estepe e partimos para a segunda e mais difícil parte da missão: colocar o estepe na roda. Pneu pesa. No escuro, pesa mais. Em mãos inexperientes, pesa toneladas. Sem luz. Não conseguíamos encaixar os furos do pneu nos pinos da roda.

Seguramos então os pneus nos braços, fomos para  a frente do carro para enxergar na luz do farol e posicionar os furos dos pneus de acordo com o que o tato gravou em nossa memória sobre o posicionamento dos pinos na roda. Suando com o esforço e andando de lado, feito caranguejos em corrida no mangue, nos deslocamos até a roda e depois de sete ou oito tentativas, conseguimos finalmente encaixar o pneu na roda.

Fixamos os parafusos com todas as forças que Deus nos deu. Mãos machucadas, bíceps tremendo, realmente chegamos no limite do que tínhamos de força para prender o pneu. Fixamos o pneu-furado-agora-no-lugar-do-estepe, guardamos macaco e chave de rodas e fomos avisar a freirinha que já estávamos de saída. Ela apenas permitiu que lavássemos as mãos e o rosto (muito da sujeira que estava nos pneus transferiram-se para testas e bochechas) e gentilmente nos convidou a sair.

Na estrada, sentíamos o estepe rodando instável. Dava sinais de que queria saltar e fugir. Ao invés se apenas girar para a frente, como lhe competia fazer, o estepe instalado balançada da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, repetidamente. Com receio de sermos ultrapassadas por nosso próprio pneu, Larissa colocou meio corpo para fora do carro para vigiar (e narrar) o comportamento do instável pneu.

Rodamos lentamente naquela aflitiva situação – o pneu cai ou não cai? – até que saímos novamente na rodovia e entramos no primeiro posto de gasolina que encontramos. Explicamos nossa saga ao frentista e pedimos que ele apenas verificasse se tínhamos feito o serviço corretamente porque estranhávamos o rebelde comportamento do pneu.

Ele pegou a chave de rodas e deu pelo menos mais 4 voltas completas para fixar o pneu. A força que eu e Larissa empregamos para fixar a roda aproximou-se da força necessária para libertar Excalibur. Já o frentista salvador parecia estar brincando de pirocoptero, aqueles pirulitos da década de 80 que vinham com uma hélice de plástico para serem rodados entre as palmas das mãos e saírem voando.

Com o pneu-estepe corretamente fixado na roda, voltamos com o porta-malas cheio e o tanque vazio para nossas casas. Marcamos história por termos provocado o primeiro retiro de jovens luteranos sem gincana.

Só algumas semanas depois descobrimos o motivo de nosso fracasso na localização do local do retiro. Quando recebi as orientações para chegar na casa, eu sabia chegar na entrada para Agudos do Sul (tanto sabia, que de fato entrei no Município). O que eu não sabia é que existiam 2 entradas.

CORRENDO DA JUSTIÇA

Já ouvi muitas vezes – com o que pessoalmente concordo – que um bom advogado é um bom processualista, aquele que conhece e domina os procedimentos, que algumas vezes sobrepõem-se sobre o próprio direito. Só que pernas rápidas também contam.

Certa vez eu e o preposto da empresa que eu estava representando estávamos aguardando uma audiência no Juizado Especial. Lá, se o autor não comparecer para a audiência de conciliação, o processo é arquivado. Naquela situação, éramos réus.

Fomos chamados para a audiência, mas o advogado do autor da ação ainda ficou na sala de espera, aguardando a chegada do seu cliente, que, segundo ele, estava na iminência de aparecer.

Sentamos na frente do conciliador, que ao constatar que o autor não estava presente, iniciou a escrever a ata constatando-lhe a ausência. Pressa não existia nem no vocabulário nem nos hábitos do conciliador, pelo menos não naquele momento. Meu coração – e provavelmente o do preposto também – estava acelerado. Se a qualquer momento o autor entrasse na sala, a audiência seria realizada e o processo teria continuidade.

O conciliador queria conversar, contar casos, falar da vida. Minhas respostas eram monossilábicas, uma ineficaz tentativa de abreviar o tempo e a conclusão da ata.

Ele mandou imprimir o documento, saiu da sala para buscá-lo, verificou que a tinta da impressora deixara uma mancha no papel, voltou para mandar imprimir novamente, saiu buscá-lo, voltou, saiu uma vez mais para buscar uma caneta,…. O tempo se arrastava e as chances de o autor chegar aumentavam.

Finalmente assinamos a ata e levantamos apressados. Mesmo com a ata já assinada, considerando o informalismo dos Juizados Especiais, tínhamos o receio que a aparição, ainda que tardia, do autor reabrisse a audiência.

Passamos pelo advogado do autor, suando nervoso ao telefone, e o ouvimos dizer ao seu cliente: “corre que dá tempo”. Olhei para o “meu” preposto e repeti a mesma ordem: “corre que dá tempo”.

Saímos eu e preposto correndo do prédio, correndo mesmo, literalmente, como se perseguidos por algo muito cruel e mortal. Fomos mais rápidos que o autor, que junto com a justiça tardou.

VIAJAR SEM SAIR DO LUGAR

Com o pai que eu tenho e o tio que eu tive (irmão do meu pai, infelizmente, para minha imensa e dolorosa tristeza e eterna saudade, já falecido), minha fonte de histórias é praticamente inesgotável.

Hoje divido com vocês uma (haverá muitas mais) das histórias dele, José Henrique, o Tio Zezé, ocorrida nem sei quando.

Rodoviária de São Paulo. Como a missão na cidade, tenha sido ela qual for, já estava cumprida, Zezé foi direto para a Rodoviária só esperar o horário da partida do ônibus rumo a Curitiba. Faltavam ainda muitas horas, então havia nada e muita coisa para fazer. Começou com um jornal, depois deu uma pescoçada em busca de alguma fofoca interessante contada pelos demais passageiros que começavam a aparecer na área de espera, até que o sono bateu. Forte. E ainda havia algumas horas para a partida. Que mal há em uma cochilada?

Apesar do desconforto da cadeira, alcançou seu objetivo. Desligou. Apagou. Até que alguém o sacudia, informando que o ônibus estava para partir. Com os olhos arregalados pela interrupção de algum sonho bom, abraçou-se na bagagem de mão e correu para o ônibus. Foi o último passageiro a embarcar. Acomodou-se novamente e antes mesmo de o ônibus partir já havia adentrado no mundo de Morfeu.

Senhor. Senhor. Senhoôr. Chegamos”. Novamente um bom sonho interrompido por estranhos. Desencostando a cabeça da janela, dando aquela passada nada discreta do antebraço sobre a boca, os olhos precisaram se espremer para o cérebro captar a paisagem lá fora.

Espera. Curitiba não tem coreto. Pelo menos não na rodoviária. Onde estou?”. Do lado de fora a cena bucólica de cidades do interior, com um lindo coreto centralizado na arborizada praça nas primeiras horas matinais. A cidade? Não faço a menor ideia. Mas obviamente Curitiba não era.

Na pressa de voltar para casa, ao subir no ônibus em São Paulo a preocupação era apenas localizar a poltrona que nas horas noturnas serviriam de cama. Para que conferir o ônibus? Bobagem!

Não havia indignação ou esperneio com efeitos de teletransporte. Por mais que brigasse, responsabilizasse a empresa ou lançasse impropérios contra quem quer que fosse (incluindo ele próprio), a solução era uma só: esperar o próximo ônibus que partiria dali a muitas horas. Tempo suficiente para gravar a imagem do coreto para sempre na memória.

No horário marcado na passagem o ônibus deixava a cidade do coreto. E vinte e quatro horas depois de ter embarcado em São Paulo ele estava… novamente em São Paulo.

Dizem que ler é uma forma de viajar sem sair do lugar. Bem… essa não é a única forma. Tio Zezé que o diga.

DONA DA ALDEIA

Em uma palestra proferida por um americano, ele perguntou à plateia qual era a imagem que tínhamos dos Estados Unidos. E justificou a pergunta: “hoje liguei a TV e em vários canais, quase o dia todo, estava passando Law and Order. Vocês devem achar que por lá só existe polícia e bandido”.

Aquilo me fez pensar de onde vêm as distorcidas ideias que os estrangeiros têm do Brasil. De onde tiram “as ideias” que formam de nosso país?

Em 2007 estive em Londres. Para variar perdida, apesar do ilegível (para mim) mapa em mãos, parei para pedir informações. Com um inglês obviamente precário e carregado de sotaque, despertei a curiosidade de quem escolhi para me socorrer. “Where are you from?” “Brazil”, respondi, e a pergunta seguinte foi se eu sabia sambar. Eu deveria ter respondido “Curitiba”. Ele JAMAIS me perguntaria se eu sei sambar (algum curitibano sabe?).

O irmão de uma amiga minha, viciado em Coca Cola, em sua primeira visita aos Estados Unidos era presença constante na máquina de refrigerantes do hotel. A recepcionista, intrigada com a quantidade de latas já consumidas, não se aguentou e perguntou: “no Brasil não tem Coca Cola?”. Indignado, ele respondeu: “até tem, mas dá muito trabalho descer das árvores para pegar”.

Um colega de faculdade, narrando sua experiência como intercambista, contou que quando ele desembarcou no aeroporto de Madri, a família que o esperava recepcionou-o com uma sacola de roupas (teriam imaginado uma criatura descendo do avião de tanga e tacape?) e ao chegarem na residência apresentaram ao tupiniquim rapaz as maravilhas da modernidade: micro-ondas, geladeira, fogão…. “Eu tenho tudo isso em casa”, explicou o rapaz aos boquiabertos (e incrédulos) anfitriões.

Em 2010 participei de um evento internacional em São Paulo, onde conheci um editor de uma revista especializada em Londres, que após alguns dias de evento e muita conversa convidou-me a escrever uma coluna em sua publicação. Entreguei a ele meu cartão, com meus dados (Marilia Pioli) e o endereço do escritório (Rua Carlos Pioli). Após alguns minutos “encarando o cartão”, apontando para o endereço, ele perguntou: “você é a dona da aldeia onde trabalha”?

Atualmente, com essa loucura que a pandemia e o pandemônio da COVID-19 provocou no mundo, “apimentada” com as “jabuticabas políticas” que aparentemente só nós somos capazes de produzir, tenho até medo de imaginar. O que pensarão de nós?

ÀS COISAS, OS NOMES QUE ELAS TÊM

A boa educação manda que não se utilize palavreado chulo na comunicação. Embora seja muitas vezes um alívio dizer um bom e libertador palavrão, não raramente insubstituível, a fala e a escrita devem manter civilidade.

Não entendo, no entanto, a resistência das pessoas em adotarem as palavras corretas diante de determinados assuntos e diante de situações corriqueiras.

Para exemplificar, conto a vocês que trabalhei com um rapaz educadíssimo, um “lorde inglês” nascido em terras tupiniquins. Muito religioso, o moço não falava palavrão de jeito nenhum. Até aí nenhum demérito, muito pelo contrário. Apesar de com bastante frequência eu precise “esfregar a boca com sabão” por causa das palavras que me saem em meus muitos momentos de indignação (como advogada lido diariamente com as mazelas e decepções de nosso sistema judiciário), reconheço o quão inadequado é utilizar impropérios. Mas há palavras que mesmo consideradas “feias”, representam o que temos em comum.

Voltando ao rapaz do parágrafo acima, em uma tarde de trabalho ele me perguntou o que era “xiri”. Não faço a menor ideia de como é a escrita dessa palavra, cuja pronúncia pretensamente vem do japonês. Aprendi-a com uma amiga, descendente dos orientais. Como brincadeira, começamos a nos chamar mutuamente de “xiri” até que para nós virou um apelido desgarrado de seu significado linguístico. Mas por ser uma palavra muito utilizada por mim (na condição de apelido), um dia ele me perguntou o que significava “xiri”.

Sabendo da extrema religiosidade e suscetibilidade do moço, certifiquei-me se ele realmente queria saber.

Tem certeza que quer saber?

– Tenho sim.

– “Xiri” é cu em japonês.

– Ah tá, é isso.

– Isso o quê?

– Isso o que você falou.

– O que eu falei?

– Essa palavra que você acabou de falar.

De fato, de jeito nenhum o mancebo falava “palavrão”, mesmo sendo “cu” uma parte do corpo, do meu, do seu, de todos nós. Curiosa, não me aguentei:

Você não fala “cu”?

Eeeeeeeu? Claro que não!!!!!! (muito indignado, quase ofendido)

Mas… como você chama o cu?

Eu não chamo. Eu não falo essa palavra.

OK, mas… se você precisar se referir a essa parte do corpo, como você fala?

Não sei. Rabicó, eu acho.

Não sei você, caríssimo(a) leitor(a), mas eu não tenho rabicó. Eu tenho cu. Não saio falando cu “a torto e a direito”, nem mesmo sugerindo que para lá se dirijam meus desafetos, mas quando quero me referir a essa parte do corpo, utilizo exatamente a palavra que a descreve (cu) ou seu sinônimo anatômico (ânus). Inclusive está la no dicionário: “Cu: orifício na extremidade inferior do intestino grosso, por onde se expelem os excrementos”. Todos temos cu, palavra presente em qualquer dicionário da Língua Portuguesa.

Por falar em cu, lembro-me de outra história, essa vivida por um amigo muito querido. Quando ele estava na adolescência, tinha um irmão pequeno, uns cinco anos de idade. Toca o telefone e o irmãozinho corre atender. Pediram para falar com meu amigo, que naquele exato inapropriado momento estava no banheiro. O irmãozinho, rápido e muito eficiente na informação, no esplendor de sua inocência comunica: “ele tá cagando”. O defecante, ouvindo mortificado a estridente voz infantil, imediatamente interrompeu o “labor” e correu para o telefone em tempo de ouvir as gargalhadas do outro lado da linha.

Ele estava de fato cagando. Eu cago, e sei que você também caga. A propósito, pode conferir lá no dicionário: “cagar: expelir fezes; defecar”. É uma palavra como outra qualquer e deveria ser proferida com a naturalidade de um ato comum a todos. Inclusive é muito mais comum a ouvirmos como sinônimo de “nem tô aí” (tô cagando para o que ele pensa), do que propriamente o ato que a palavra descreve. Ninguém se ofende ao ouvir que uma pessoa vai comer, beber, dormir, mas os narizes se torcem (inclusive literalmente) se alguém vai peidar, cagar, mijar, arrotar (todos esses verbos estão no dicionário da língua portuguesa).

Obviamente que esses atos não se fazem em público nem se anunciam previamente, mas as palavras que os descrevem não deveriam soar ofensivas, vergonhosas. Quando o pequeno de cinco anos informou que o irmão estava cagando, passou uma informação precisa de um ato natural. Poderia até mudar a expressão, mas jamais o ato.

Não defendo obscenidades, tampouco grosseria, muito menos a prática de tais verbos em público, em especial diante de almas mais sensíveis. Respeito deve imperar sobre qualquer dicionário. Expresso apenas meu desentendimento quanto a determinadas expressões que atraem julgamentos quando pronunciadas. A “sorte” dos mais sensíveis, sugestionáveis e vulneráveis, ou então dos muito mais educados do que eu, é que a Língua Portuguesa é riquíssima. Eu tenho cu e cago. Mas você pode ter ânus, orifício corrugado, “fiofó” e até rabicó. E na hora do aperto pode preferir defecar, dejetar, evacuar, obrar. E não se fala mais nisso!

SPACE CAKE

Sou careta. Quadradona total. Nunca pus um cigarro na boca (tenho nojo daquele troço fedido). Sempre fui tão careta, mas tão careta, que nunca tive oportunidade de recusar droga porque ninguém nunca me ofereceu droga.

Quando já adulta, depois de formada, programei uma viagem de férias para a Europa: Londres, Paris, Brugge e Amsterdam, o paraíso dos viciados. “Se vai para Amsterdam, tem que experimentar o space cake”, determinou meu tão querido amigo Rangel, que há pouco havia retornado do Velho Continente.

A ideia instalou-se em minha cabeça. Usar droga em Amsterdam é “outro nível”. E “usar droga” nem é um terno adequado para comer um bolinho (de maconha, mas ainda um bolinho). Fiquei tentada. Finalmente eu seria uma transgressora da moral e dos bons costumes.

Acompanhada por Ana, amiga de viagem daqueles tempos, depois de horas de tentativas de persuasão (seu nível de “caretice” era semelhante ao meu) convenci-a que deveríamos experimentar a famosa e “perigosa” (queríamos acreditar) iguaria.

Entramos em um coffeeshop. Bem ao contrário do que o inocente nome sugere, não se trata só de uma cafeteria, mas de um local muito popular onde são legalizados a venda e o consumo de maconha e haxixe. Entramos quase sorrateiras, olhando por sobre os ombros, como se estivéssemos prestes a cometer um crime.

Pedimos 2 space cakes e desisti assim que vi o preço: € 5 cada. Multiplicado pela cotação (seja ela qual for), era muito caro. “Larga mão de ser mão de vaca”, instigou-me Ana, há pouco a mais relutante pela experiência, “quando é que vai poder fazer isso novamente?

Compramos os bolinhos e voltamos ao hotel. Avaliamos que seria muito perigoso para duas virgens psicotrópicas a experiência em local público em solo estrangeiro. “vai que…. sei lá…. melhor não arriscar”.

Tomamos nosso banho, deitamos em nossas camas e preparamo-nos para a inédita experiência. Começamos lendo as instruções (sim, havia um papelote com instruções). “Não se orienta consumir se você nunca consumiu antes”. Não, “péra”, como assim???? Que desprezo é esse com a primeira vez?

Enfim, deitadas, preparadas para a “viagem”, comemos nossos bolinhos. Particularmente não gostei. Tinha gosto de muffin de chocolate com pouco chocolate. Não gostei mesmo. Bem, agora era só esperar o efeito. Nas instruções se dizia que em 10 minutos tudo começava.

Dez minutos. Vinte minutos. Trinta minutos. “E aí”, perguntei para Ana, “nada?” “Nada”, confirmou ela. Caraca, que decepção. Eu não servia nem para me drogar. Efeito nenhum. Sem nada para fazer, nem mesmo ver TV (todos os programas sem legendas em inglês), e notoriamente muito “boa de cama”, desejei boa noite para Ana, virei de lado e adormeci imediatamente.

De madrugada acordei precisando ir ao banheiro. Meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu Deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeus. O que foi aquilo? O quarto andava, as paredes tentavam me espremer, a cama parecia um pudim. Acordei chapada total. Levantei tentando me esquivar das garras das paredes, que me queriam de todo jeito. Sentei no vaso sanitário e lutei com o espelho. O infeliz fazia uns sons estranhos, se achando um sabre de luz: uooooon, uoooooon, uooooooon. Com a bexiga aliviada, voltei para a cama desviando do terreno minado e tão logo o colchão me engoliu, caí em um profundo sono.

Pela manhã acordei com a indignação de Ana: “sua infeliz, dormiu e me deixou chapada sozinha; não consegui te acordar de jeito nenhum”. Mal sabia ela da mais louca e curta aventura na madrugada, envolvendo espelhos lutadores e colchões engolidores.

TEMPO CRUEL

Minha avó foi uma mulher muito bonita. Mas os sofridos anos vividos na pobreza, no malabarismo de vários empregos para sustentar 4 filhos (um com deficiência física e mental), mais as dificuldades com o marido que por muitos anos foi alcoólatra, somado à total falta de cuidados pessoais (tanto por escassez de recursos como de tempo), ela envelheceu sem a ajuda de milagrosos cosméticos.

Sua pele, sem nenhum viço, era marcada por fundos sulcos em toda sua extensão. Fisicamente, era assim que eu e os demais netos a conhecíamos. A vó Zoraide era uma mulher ativa, de personalidade forte (e muitas vezes difícil) e rosto muito enrugado.

Certo dia meus primos, então com cerca de 7 anos de idade, estavam mexendo em velhas caixas de fotos e acharam um retrato de uma mulher desconhecida, bem penteada, belos traços. Curiosos, perguntaram:

Quem é essa?

É a vó Zoraide – respondeu a mãe.

Desconfiados, com o cenho entortado pela incredulidade, fizeram novamente a pergunta para certificarem-se de que a mãe não estava delirando nem zoando.

Queeeeeeeeeeeeem?

É a avó de vocês, quando era moça – esclareceu a mãe.

Intrigadíssimos, por alguns minutos o silêncio acompanhou uma minuciosa análise da situação. Olhavam para a foto, olhavam para a avó. Novamente para a foto, buscando algum traço convergente. Ainda sem estarem plenamente convencidos, buscaram confirmação:

“É verdade, vó?”.

“Sim, é verdade. Eu era bonita, né?

Silêncio. Mais detidas observações.

Manhêêêê… se a vó que era bonita assim ficou aí desse jeito… como é então que VOCÊ vai ficar?