TEMPO CRUEL

Minha avó foi uma mulher muito bonita. Mas os sofridos anos vividos na pobreza, no malabarismo de vários empregos para sustentar 4 filhos (um com deficiência física e mental), mais as dificuldades com o marido que por muitos anos foi alcoólatra, somado à total falta de cuidados pessoais (tanto por escassez de recursos como de tempo), ela envelheceu sem a ajuda de milagrosos cosméticos.

Sua pele, sem nenhum viço, era marcada por fundos sulcos em toda sua extensão. Fisicamente, era assim que eu e os demais netos a conhecíamos. A vó Zoraide era uma mulher ativa, de personalidade forte (e muitas vezes difícil) e rosto muito enrugado.

Certo dia meus primos, então com cerca de 7 anos de idade, estavam mexendo em velhas caixas de fotos e acharam um retrato de uma mulher desconhecida, bem penteada, belos traços. Curiosos, perguntaram:

Quem é essa?

É a vó Zoraide – respondeu a mãe.

Desconfiados, com o cenho entortado pela incredulidade, fizeram novamente a pergunta para certificarem-se de que a mãe não estava delirando nem zoando.

Queeeeeeeeeeeeem?

É a avó de vocês, quando era moça – esclareceu a mãe.

Intrigadíssimos, por alguns minutos o silêncio acompanhou uma minuciosa análise da situação. Olhavam para a foto, olhavam para a avó. Novamente para a foto, buscando algum traço convergente. Ainda sem estarem plenamente convencidos, buscaram confirmação:

“É verdade, vó?”.

“Sim, é verdade. Eu era bonita, né?

Silêncio. Mais detidas observações.

Manhêêêê… se a vó que era bonita assim ficou aí desse jeito… como é então que VOCÊ vai ficar?

NAMORADO ERRADO

Uma queridíssima amiga teve um breve relacionamento com um rapaz chamado Pedro.

Entre suas características mais marcantes e visíveis: o cabelo. Quando o conheci, eu não conseguia fixar a atenção em outra coisa. Pensem em um cabelo feio. Muito feio. Horroroso. Pavoroso. Não bastasse ser um cabelo ruim, mal cuidado, Pedro insistia em usá-lo comprido, na altura dos ombros. Nada nem ninguém (incluindo a própria namorada) convencia-o a cortar a cabeleira.

Entre as amigas da namorada o caso era, obviamente, motivo de piada. Bolávamos mil planos para forçar Pedro a cortar as melenas: grudar chiclete, encostar um carrinho de fricção na cabeça, chamuscar,… tudo acidentalmente, claro, e sem danos físicos além do próprio cabelo.

Passado algum tempo em que eu não o via, deparei-me com uma foto do casal em uma rede social e fiquei embasbacada ao ver Pedro com o cabelo bem curto. Era outra pessoa!!!! Não resisti a um comentário: “Pedro, gostei do cabelo curto. Show!!!”.

O que eu descobri em um ato de desesperado contato de minha amiga, falando na velocidade da luz e implorando para que eu apagasse o comentário imediatamente, “sem mais delongas”, foi que era, DE FATO, outra pessoa com ela na foto, outro namorado, mais atual, com distintas madeixas.

Fiquei tão emocionada em ver um cabelo curto ao lado dela, que o rosto (altura, constituição física,…) passaram para segundo, terceiro e último plano.

Já dizia meu avô que o cabelo é para o rosto o que a moldura é para o quadro. Aprendi que um corte de cabelo é realmente capaz de mudar o rosto da pessoa. Mas não o rosto de pessoa.

NIEPIŚMIENNY

Não, não tem nada de errado com o título deste texto. É isso mesmo: niepiśmienny, que significa “analfabeta” em Polonês (pelo menos segundo o tradutor do Google), que foi exatamente como eu me senti nos poucos dias em que estive na encantadora Varsóvia, capital da Polônia.

A situação é muito semelhante ao que acontece no Brasil, onde a população em geral não fala inglês (experimente sair no seu bairro e pedir às pessoas que circulam pelas ruas, em inglês, informações para chegar em determinado lugar). Em Varsóvia ou você fala Polonês ou boa sorte.

Eu e Giovani (meu amigo de viagem, presente em outras histórias já publicadas aqui no Blog) estávamos em Varsóvia. Hotel 5 estrelas (luxo disponível no leste europeu a quem nem cogita orçar hospedagem desta categoria deste lado de cá do mundo), staff muito bem preparado (eles sim passando informações em inglês), tudo muito promissor.

Empolgadíssimos para conhecer a cidade, saímos para visitar os arredores do hotel, sem destino certo, apenas desfrutando das ruas, praças, arquitetura,… Cada vez mais nos distanciando desse ponto de partida, com os pés no comando dirigindo-nos para qualquer lugar a esmo, decidimos que já era hora de voltar para o hotel, almoçar lá por perto para na sequência iniciarmos a visitação aos pontos turísticos.

Entramos em uma estação de metrô. Procuramos o mapa das linhas e estações: Rondo Daszyńskiego, Dworzec Wileński, Świętokrzyska.

Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaca, eles colocam acento no “n”, no “s”, cedilha em vogal. Quequeéissominhagente? E absolutamente nenhuma indicação em inglês. Nenhum “exit” debaixo do “wyjście”. Não conseguíamos identificar qual seria a estação perto do hotel, muito menos a direção que deveríamos tomar. Resignados, saímos da estação e entregamos-nos aos instintos de “nasze stopy” (nossos pés).

Andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos, andamos muitoooooooooooooooooooooo.

Foram 3 dias só andando pela cidade porque não conseguíamos entender as direções dos metrôs, não conseguíamos conversar com os motoristas de táxis (naquela época não se falava em Uber) e quando perdidos, não conseguíamos obter informações com as pessoas que circulavam nas ruas.

Eu falo três idiomas (contabilizar o Português vale, certo?), tenho 2 cursos de graduação universitária, alguns de pós-graduação, sou metida a achar que sei escrever, mas em um país estrangeiro, que usa acento circunflexo sobre o “z” (isolado na frase, como se fosse vogal!!), eu senti na pele o analfabetismo, drama seríssimo sofrido por milhares de brasileiros em solo pátrio. Com todas as oportunidades que tive na vida (reconheço que fui sim muito privilegiada), vivenciei e padeci a tragédia de ser niepiśmienny.

Nada do que eu “lia” fazia sentido (e nem dava pistas do que poderia ser). O momento das refeições era uma aventura. Colocávamos os dedos no cardápio e entregávamos o destino ao uni-duni-tê-o-escolhido-foi-você. O que viesse tinha que servir (com a conta em euros, não nos dávamos ao luxo de “eu não gosto disso”).

No último dia de viagem descobrimos, por conta própria (porque ninguém conseguia nos contar), que se ao sair do hotel nos dirigíssemos para a direita, andaríamos 2 quadras para chegar no mesmo lugar para o qual caminhávamos umas 156.985.526.856 quadras (contabilização feita pelos pés) só porque virávamos à esquerda. Mas desta vez a culpa não foi das vogais com cedilha ou das consoantes com acento. Descobrimos que na Polônia não sabíamos ler nada. Nem mapa!!!

PEDERASTA

A Língua Portuguesa é riquíssima. Dificílima (condoo-me com os forasteiros que se aventuram a aprendê-la), mas ainda assim riquíssima. Rápida pesquisa no Google sobre quantas palavras existem na Língua Portuguesa dá respostas divergentes, a depender do dicionário pesquisado: 306.949 verbetes, 208.104 entradas lexicais, 211.732 vocábulos,…. Seja qual for o número, fato é que é grande.

Há pouco tempo terminei de ler o romance A escolha de Sofia, de William Styron. “Volta e meia” eu precisava consultar o significado das palavras (sempre me questiono como é que os tradutores escolhem palavras tão difíceis para transferir o texto do Inglês para o Português).

Para facilitar-me a vida, meu dispositivo de leitura disponibiliza dicionário, bastando pressionar o dedo alguns poucos segundos sobre a palavra para que a definição apareça (nem sempre útil, como por exemplo: “ensimesmamento = ato ou efeito de se ensimesmar”). Não fosse isso, durante a leitura eu teria tido que recorrer ao dicionário on line (consultando-o pelo celular ou pelo computador) ou mesmo aos já arcaicos e muito abandonados dicionários impressos (embora eu ainda os tenha e os consulte com regularidade porque NADA substitui o prazer de manusear uma encadernação).

Ignorar uma palavra desconhecida pode ser bastante prejudicial ao leitor. Lembro de uma amiga contando-me que leu um livro em que o personagem era descrito como pederasta. Com preguiça de procurar o significado da palavra no dicionário (naquela época nem se sonhava com internet; era tudo físico mesmo), ela simplesmente continuou lendo sem entender o significado da palavra. “Depois que terminei o livro, resolvi consultar o dicionário. Ao descobrir o significado da palavra, tive que ler tudo de novo porque ao saber o que é pederasta o personagem mudou completamente para mim. Eu precisava reler para entender o universo do personagem agora compreendendo o que ele realmente era, sentia e enfrentava”.

Como nosso idioma pode ter 306.949, 208.104, 211.732 ou qualquer outra expressiva quantidade de palavras, é inevitável que em algum momento você tenha que consultar um dicionário. Não deixe de fazê-lo. Caso contrário, poderás não saber o que é um pederasta.

O BOI

Quando me preparava para o vestibular, li “Quase Memória”, de Carlos Heitor Cony, que estava na lista para a prova de Literatura. “Quase Memória” apresenta as reminiscências do personagem sobre o pai, revivendo as sensações e os sentimentos experimentados com o pai. Adorei a história e senti despertar a vontade de um dia contar as histórias de meu próprio pai. Suas “façanhas” foram – e são – tantas, que certamente merecem ser contadas.

Começo então a “Série Pai”, para dividir com vocês algumas das “peripécias manoelinas” (porque Manoel é o seu nome) que fazem minha memória rir de saudade (rir porque são memórias, já que não as gostaria de reviver).

Meu pai sempre foi meio “selvagem”. Ele gosta de mato, de bicho, de acampar na beira do rio, de pescar, enfim, de modo reverso, nunca foi um citadino.

A fase mais rica de histórias aconteceu quando ele adquiriu uma chácara na região metropolitana de Curitiba. Não havia uma “casa de campo” para passarmos os fins de semana ou as férias. Uma pequena casa de madeira abrigava o caseiro e sua família. O resto era mato, pequenas plantações e animais.

Um desses animais era um boi, um boi robusto e rebelde. Semana após semana o boi começou a dar incômodos e despesas: quebrava a cerca, invadia a propriedade do vizinho, pisoteava plantações, escapava para a estrada. Foram tantas as aprontadas do boi, que a paciência do “Seu” Manoel esgotou e o destino do boi foi selado: viraria bife.

Como não éramos fazendeiros nem criadores de gado (o boi foi único na experiência rural de meu pai), levar o boi do pasto para o prato não era algo tão simples. Então Manoel contatou um frigorífico e acertou que o boi seria levado para lá para ser carneado. O boi deveria ser entregue vivo porque para fatiar o boi o abate pelo próprio frigorífico era condição.

Sempre muito bem relacionado e cheio de amigos, Manoel conseguiu emprestado um caminhãozinho e foi buscar o boi. Tudo estava correndo como o planejado – era só pegar o boi na chácara e entregar no frigorífico –, não fosse o boi ter feito seu derradeiro ato de vingança por seu forçado adeus à vida: morreu durante o trajeto.

Era um boi, de sei lá quantos quilos, carne pura e fresca. A recusa do frigorífico em carneá-lo não seria justificativa para “jogar fora o boi” e a morte do “bichinho” não impediria que o próprio Manoel executasse a tarefa.

A casa onde morávamos na época era bem grande. Uns 600 m2 de terreno. Do portão até o fundo da construção da casa havia um corredor, por onde passavam os carros, e lá atrás o espaço abria-se novamente, em uma ampla extensão onde havia outras pequenas construções: uma edícula, uma churrasqueira (quase nunca usada porque meu pai nunca fez churrasco, deixando a atividade para quem a quisesse fazer), um “quartinho de bagunça” (que não sei por que chamávamos de “casinha”) onde se acumulava tudo o que se pode juntar e até o que a imaginação pode criar.

Essa “casinha” era bem alta e láááááá em cima ficava a caixa d´água. Engenheiro criativo, Manoel logo acertou a solução para carnear o boi. Construindo um sistema de roldanas, Manoel amarrou uma grossa corda no para-choque dianteiro do caminhãozinho, passou-a pela roldana lá no alto e na ponta oposta da corda amarrou o boi, então ficava fácil subir ou abaixar o animal conforme a necessidade.

Provavelmente tendo em mente que “o que não tem remédio, remediado está”, sem nunca ter carneado um boi, Manoel entregou-se à nova e árdua tarefa de arrancar o couro do animal e transformá-lo em patinho, maminha, alcatra,…

Um dia antes, nossa calçada havia recém sido trocada, com as lajotas brilhando de novas, mas ainda sem rejunte (que seria providenciado nos dias subsequentes). Na medida em que o sangue escorria do corpo bovino, entranhava-se debaixo das lajotas não rejuntadas.

Minha mãe estava fora de casa, sem nem desconfiar da chacina que iniciara em seu santo lar. Na época tínhamos uma empregada que nos prestava serviços domésticos. Trabalhando para nós já há alguns anos, Noemia já conhecia suficientemente as “artes” de meu pai e os dramas de minha mãe, e por isso ficou de guarda na janela frontal de casa aguardando a aparição dela.

Ao descer do ônibus, o sempre apuradíssimo nariz dela detectou cheiro de sangue, incompreendido pelo cérebro diante de tão inusitado fato. Ao vê-la cruzando a rua, Noemia saiu correndo ao seu encontro. “Fique calma, Dona Marina, está tudo bem”.

A mente dramática de minha mãe imediatamente criou um cenário de carnificina, com toda sua família esquartejada em uma brutalidade só vista na tela da televisão. Viraríamos notícia policial. “Ah meu Deus, ah meu Deus”, choramingava minha mãe, com as pernas bambas, esperando um apoio que a permitisse desmaiar. “Calma Dona Marina, está tudo bem, é só o boi”.

A informação totalmente fora de contexto reavivou os sentidos de minha quase desmaiada mãe, agora bastante atenta à espera de uma explicação do motivo pelo qual suas novíssimas lajotas estavam cuspindo sangue.

Batimentos cardíacos restabelecidos, corpos dos membros da família conferidos (minha mãe precisava ter certeza que o sangue não era nosso), o fim da história é que Manoel precisou pedir ajuda ao açougueiro que trabalhava no mercadinho da esquina para finalizar a saga do boi.

É claro que muita carne se perdeu pela inabilidade de quem nunca destroçou nem frango, mas muita carne também abarrotou nosso freezer (afinal, era um boi inteiro, não apenas um quarto traseiro). O rejunte das lajotas precisou esperar algumas semanas até o sangue ser todo drenado (ou cuspido, dependendo do ponto de vista) e a experiência rural de meu pai nunca mais contou com bovinos. À exceção de um bezerro, que morou em nosso quintal por algumas semanas. Mas essa é outra história, assim como a história do carneiro, dos patos, dos bodes, do porco…

É A ONÇA

Nos meus tempos de escola meu pai tinha uma pequena chácara na região metropolitana de Curitiba. Praticamente só mato, rio e tanque (de peixe), ou seja, muita natureza. Não tinha casa para os finais de semana e nenhuma outra comodidade (nenhuma mesmo), e isso fazia a festa da “piazada”, meus amigos de escola, que adoravam deixar o conforto de suas bem mobiliadas casas para aventurar-se na natureza selvagem.

Combinaram, certo final de semana, de acampar lá na chácara. Meu pai, frustrado por não ter tido prole masculina, deleitava-se com a oportunidade de “adotar” os meninos e fazer-lhes as vontades. Sábado pela manhã os pais biológicos despejaram-nos no portão lá de casa e amontados na kombi de meu pai partiram para a aventura.  Naquela época, final da década de 80, não se valorizavam “detalhes” como bancos e cintos de segurança. Forrava-se o chão da kombi com colchões e ninguém sentia a viagem passar.

Uma semana antes do tão esperado final de semana, o caseiro da chácara avistou marcas de pata de um grande felino nas trilhas da mata. Se não era um gatinho avantajado, provavelmente era uma onça pintada.  Na dúvida, onça é muito mais emocionante, então os meninos foram avisados que recentemente uma onça por lá andara.

Após quase devidamente instalados – considerando que eles mesmos montaram as barracas, solidez não era algo que definisse o acampamento – os meninos aproveitaram o dia. Nadaram, pescaram pequenos lambaris que iam direto do tanque para a frigideira equilibrada no “fogareiro de tijolos”, comeram fruta do pé e exploraram trilhas na mata. Diversão pura para os acostumados com o concreto de prédios e largas avenidas.

À noite, classicamente reunidos em volta de uma fogueira, começou a contação de histórias. Não demorou para o assunto caminhar em direção ao sobrenatural, com “causos” que os narradores juravam ter acontecido. Com a coragem abandonando lentamente o grupo, os meninos foram ficando cada mais próximos, atraídos pela necessidade de proteção dos fantasmas imaginados.

A noite já bastante avançada, cansaço totalmente instalado, decidiram recolher-se na proteção de suas bravas barracas quando um deles lembrou da onça. “Meu Deus, a onça”. O medo de assombração deu lugar ao medo da pintada.

Invocando a coragem que os havia abandonado, com toda a escassa sapiência de sobrevivência na “selva”, os corajosos meninos resolveram dar “uma geral” antes de dormir, só para assegurarem-se da calmaria do local.

Como se fossem um só corpo, todos muito juntos, sem sair do lugar apenas giraram a lanterna em um raio de 360º ao redor do acampamento, até que um par de olhos brilhou no meio da mata. A onça! Só poderia ser a onça. Fantasmas nos protejam! A onça estava lá, espreitando-os, só esperando o momento oportuno para banquetear-se com as tenras carnes.

Paralisados, mantiveram a lanterna nos olhos da bicha. Ninguém se mexia. Nem humanos nem o animal. Tensão. Expectativa. Cagaço.

Onça balança o rabo?, perguntou o único que estava com todos os sentidos alertados pelo medo.

Hã?

– Perguntei se onça balança o rabo, repetiu o observador.

Claro que não, piá burro.

– Então é cachorro, anunciou o sábio membro dos cinco cagões.

Alívio geral. O pobre canino foi escorraçado por fazê-los acreditarser um perigoso felino. Que audácia!!!

Por precaução fizeram mais uma varredura com a lanterna. Nada brilhou. Área liberada para o descanso. O cachorro dispensaria a vigilância da madrugada.

Cada um dirigiu-se à segurança de sua própria barraca. Apenas um, mais “precavido”, por via das dúvidas decidiu dormir com a porta da barraca aberta. Com os pés para fora. Calçados. Pronto para correr. Com uma faca na mão. Uma faca. De cozinha. Vai que a bicha aparece!

CRONICLÉR

Brasileiro adora estrangeirismo. Os cartórios estão repletos de certidões de nascimento com o registro da infindável criatividade nacional, que muitas vezes não se atenta aos perigos da sonoridade do nome escolhido. Li em um artigo alguns exemplos, retirados inclusive da jurisprudência dos Tribunais, como Kumio Tanaka e Sum Tin An.

Outras histórias não sei informar se aconteceram ou se são lendas urbanas, como a mãe que deu à filha o nome de Madinusa porque ao passar roupa ela leu na etiqueta “made in USA” e achou lindo. Há ainda a história/lenda do Valdisnei, que ao ser chamado em um consultório médico corrigiu a secretária: “é Walt Disney” (embora a grafia fosse mesmo Valdisnei).

Quando eu estava buscando um nome para o Blog, sucumbi à tentação de pensar em um nome estrangeiro e a primeira obviedade que me surgiu foi Chronicler, palavra que traduz “cronista” em inglês.

O primeiro empecilho que eu mesma observei foi a grafia, mas desisti quando identifiquei o risco de o Blog ficar conhecido como “croniclér”. Desisti mesmo porque não gosto de estrangeirismos. A Língua Portuguesa é tão rica, que não precisamos recorrer a outros idiomas para passar nossa mensagem.

Se você leu o texto “Coincidências”, já sabe o motivo da escolha do nome do Blog (se não leu, fica aqui o convite para fazê-lo). Acredito que todos hão de concordar que Conchinhas carrega muito mais significado e é muito mais bonito do que little shell. E muito melhor do “croniclér”.

QUANDO A MÃE SE PRECIPITA…

Mãe, o que é baseado?

A xícara de café que quase alcançava a boca sedenta pela aromática bebida tremeu perigosamente; a mãe engasgou, pigarreou, corou.

O que é o quê, meu filho?

– Baseado

– Então…. é… baseado… baseado é um cigarro que faz muito mal pra saúde.

– Um cigarro, mãe?

– É. Um cigarro, mas é um cigarro diferente. Quem fuma baseado fica doidão

– O que é doidão, mãe?

– É quando uma pessoa fala um monte de coisa que não faz sentido, fica virando os olhos, rindo de coisas que não têm graça, fica até chato. Quando você ficar mais velho, alguém vai te oferecer um baseado, mas você nunca pode aceitar. Nunca. Mas… por que você está me perguntando isso? Alguém te ofereceu um baseado? Me conta filho, eu preciso saber se alguém te ofereceu um baseado. Você não fumou baseado, fumou? Você nunca, nunca, nunca deve aceitar nem experimentar baseado. Nem de brincadeira. Não pode. Depois do baseado tem mais um monte de coisa que faz muito, muito mal. Alguém te ofereceu baseado? Quem foi? Me conta, filho. Por que você quer saber sobre baseado?

– Deixa pra lá, mãe. Não estou entendendo nada. É que eu vi na biblioteca da escola um livro que dizia “baseado em fatos reais”.

NÃO SOU ILMA

Saio para atender a campainha e deparo-me com a kombi de uma floricultura estacionada defronte ao portão. Com um volumoso buquê de flores do campo nos braços, o entregador anuncia a destinatária: “Encomenda para a Sra. Ilma”.

Frustrada por não ser eu a destinatária de tão belos exemplares da flora, informo: “Moço, não é aqui”. Ele me olha com desconfiança, confere o número da casa pregado na parede e pergunta:

Aqui não é a Rua Amadeu Amaral, oito nove nove?

Sim, é aqui, confirmo a ele.

– Então é aqui mesmo, dona. Rua Amadeu Amaral, oito nove nove, encomenda para a Sra. Ilma.

Mas não tem nenhuma Ilma aqui, moço. Devem ter informado o endereço errado.

Está escrito aqui: Rua Amadeu Amaral, oito nove, nove, Sra. Ilma Marilia.

– Eu me chamo Marilia, mas não conheço nenhuma Ilma Marilia.

Já irritado, com um último fiapo de educação o entregador pede: “A senhora pode, POR FAVOR, vir pegar a encomenda?”.

Quando peguei o buquê, um cartão nele pregado estampava com letras cheias de arabescos: “Ilma. Marilia Pioli”.

Só assim, visualizando o cartão, foi que a Ilustríssima destinatária, identificando o ponto revelador da formalíssima abreviação, entendeu a origem de seu “novo” antenome.

40

Uma de minhas melhores amigas, quando estava há poucos meses de completar 40 anos, pirou. “Não quero festa, não quero ver ninguém”. “Mas por quê?”, perguntei sem compreender absolutamente nada. “Porque vou fazer 40 anos”, tentou ela a título de explicação. “Descasquei” a coitada. Aquilo não fazia sentido nenhum. NENHUM. Qual era a diferença? 38, 41,… Qual o problema com o 40? “É só um número, pare de frescura”, eu alegava do alto de minha sabedoria e racionalidade.

Passados 7 meses, chegou a minha vez de completar 40 anos de idade. Surtei. Pirei. “Por quê?”, você pode me perguntar. “Porque eu completaria 40, é óbvio”. “Mas não é só um número?”, você jogaria na minha cara.

Já ouvi dizer que as mulheres piram nos 40 e os homens no 50. Mas… por quê? Não seria, realmente, só um número? Não sei se isso já aconteceu ou acontecerá com você, mas comigo aconteceu sim. “Deprimi” ao completar 40 anos.

Outro dia li uma reportagem publicada na Revista Veja em março de 2010 que informava que uma pesquisa realizada pela Universidade de Kent, na Grã-Bretanha, concluiu que “A juventude termina aos 35 e a terceira idade começa aos 58 anos”. Vixi… pirei com 5 anos de atraso. Eu já estava “velha” há 5 anos e nem sabia.

Entrar na casa dos quarenta (para nunca mais, na vida, sair dos “enta”, a menos que eu atinja um indesejado centenário) significou para mim ser “oficialmente velha”, e eu tive um sentimento de game over, de That´s all folks. Motivo? Nenhum. Fundamento? Zero. Pelo menos nenhum que fosse racional.

Com o avanço da Medicina (OK, sei que isso é “papo batido”, mas é isso mesmo) e da indústria cosmética, “ficar velho aos 40” não é mais tão “grave”, não é mais uma sentença de ostracismo social para cuidar de netos e fazer tricô. É só folhear revistas femininas para ver quantos mulherões de 40 “dão de 10” em menininhas de 20.

Desperate Housewives foi um seriado norte-americano que contava a história de 5 amigas suburbanas, “coroas” de dar inveja, lindas, sensuais, tudo de bom. Até o mercado publicitário soube explorar as “super coroas”. Lembram da propaganda das Havaianas de 1996 em que o filho da atriz Letícia Spiller reclamava das manias de “velha” da mãe e terminava dizendo “tem que parar de falar essas coisas, parece uma velhinha gagá” e na cena seguinte lá vem ela saindo do mar, biquininho exibindo corpão?

Ééééé…. não se fazem mais quarentonas como antigamente. E olhando para as quarentonas que andam por aí, até que é bem legal ter quarenta. Independência financeira, cérebro ativo, tomar as próprias decisões (e arcar com as consequências). Surtei à toa.

Mas aquela vontade de passar o aniversário sozinha, sem ver ninguém e curtir a fossa dos 40 na companhia da solidão foi realmente concretizada. Não porque eu não tivesse amigos ou familiares dispostos a comemorar (e zoar) a nova idade, mas uma conjuntivite altamente contagiosa deixou-me de quarentena em plenos 40 (claro que é exagero, mas aqui vale o trocadilho).

Daqui a 3 anos eu conto como será a crise dos 50.