SOBRE ELOGIOS: O QUE VALE É A INTENÇÃO

Existem muitos elogios que extrapolam os tradicionais (bonita, inteligente, elegante,…) e os vulgares (gostosa, filé, ô lá em casa…). Recebi quatro – nem tradicionais nem vulgares – que foram marcantes, tanto que não os esqueci e agora posso contá-los.

O primeiro foi em um feriado prolongado, quando fui convidada para viajar a uma cidadezinha do interior de Santa Catarina acompanhando uma amiga de faculdade que iria visitar a família. Chegando lá, fui recepcionada pela avó, matriarca da parentela, uma senhora muito alta e de cintilantes olhos azuis anunciando a origem alemã. “Nossa, mas que menina bonita, corada, goooooooooooorda”, assim mesmo, com o “o” arrastado, em um forte sotaque germânico, já temperado com o peculiar sotaque catarinense.

Fiquei arrasada. É óbvio que meu cérebro pulou o “bonita” e prendeu-se no “gooooooooooorda”. Mas aquele foi um elogio genuíno, autêntico. Para os nascidos nas primeiras décadas do século XX, e em especial quem passou por alguma experiência de guerra e escassez, gente bonita é gente gorda, parruda, “com carnes”. Talvez tenha sido o elogio mais puro que eu recebi, considerando a mirada de avaliação e os muitos “os” daquele “goooooooooooooorda” que não me sai da memória.

O segundo memorável elogio aconteceu em uma festa de casamento. Como a noiva era minha sócia, havia entre os convivas muitas pessoas do trabalho, incluindo o office boy da época, um menino muito querido (e praticamente adotado) por todos. Éramos quase vizinhos, então passei buscá-lo para irmos juntos à igreja. Quando ele entrou no carro, olhou-me boquiaberto, embasbacado mesmo. “Nossa, parece uma baronesa”.

Baronesa? Por que não rainha? Princesa? De onde saiu “baronesa”? Visitando os confins da memória, talvez seja o penteado, digno das novelas de época. Sinhá Moça, Escrava Isaura, Tempo de Amar, Força de um Desejo,… Algum destes folhetins deve ter me denunciado.

De qualquer forma, foi um elogio personalizado, único. Definitivamente eu não parecia uma princesa, tampouco uma rainha. Eu parecia uma baronesa! Não sei de alguém que já tenha sido elogiada por parecer uma baronesa. Só sei que me juntei à nobreza de insignes penteados e muito elogiada aproveitei a noite.

O terceiro elogio veio em forma de sonoro palavrão e adjetivo normalmente destinado a situações não elogiosas. Fiz uma viagem de três semanas para Bolívia e Peru, passando tudo quanto é tipo de perrengue e maravilhando-me com as inigualáveis e irrepetíveis belezas naturais que tive o privilégio de conhecer.

Ao retornar para casa, animadíssima e cheia de história para contar, lancei-me na aventura de escrever um diário de viagem (publicado aqui no Blog), recheado de detalhes (incluindo preços e endereços), cuidadosamente anotados durantes as longas horas passadas em trens, ônibus, utilitários,…

Tendo escrito por puro deleite, sem pensar em um público leitor, quando eu contava a alguém as histórias da aventura, comentava também da existência do diário e despretensiosamente (juro!) oferecia-o à leitura, caso meu interlocutor se interessasse pela prévia recém-ouvida.

Uma prima minha, apenas por educação (confessada por ela própria), concordou que eu enviasse a ela o texto e resolveu que, também por educação, daria uma “passada d´olhos” para poder comentá-lo comigo apenas para parecer que o havia lido de fato.

Alguns dias depois, encontramo-nos em uma reunião de família (certamente o aniversário de alguém). “Sua desgraçada”, dirigiu-se ela a mim, sem nem um introito de cumprimento, “não dormi por sua causa”. Sem nem cogitar o mais remoto motivo pelo qual eu pudesse ter afligido seus momentos de descanso noturno, fui surpreendida com o elogio em forma de indignação. “Comecei a ler e só consegui parar quando cheguei na última página, mais de três horas da madrugada”. Nenhum outro tradicional elogio teria mais força do que esse para lisonjear-me.

Por fim, o quarto e último – e confesso, o que mais me tocou – foi o que que recebi de uma ex-colega de trabalho, minha xará, que me comparou à Malévola.

Sim, Malévola, a personagem antagonista de um conto de fadas, uma “fada do mal” que tendo nascido uma jovem de coração puro, após uma terrível traição transforma-se em uma mulher amarga e vingativa.

PARA TU-DO!!! Nasci sim de coração puro (quem não nasce?), mas não me tornei amarga e vingativa (eu acho, é claro), tampouco sofri uma terrível traição (não que eu saiba). Não, não é esse o ponto de convergência com a linda personagem (só porque interpretada por Angelina Jolie, por supuesto).

Nas exatas palavras de quem assim me comparou: “Tudo isso para dizer que sim, você é foda!!! Já viu a Malévola interpretada pela Angelina Jolie no cinema, essa nova versão da Disney? Sim, para mim você sempre será esse tipo de fada madrinha. (…) Você é sensacional e autêntica. Pode ser que seja a diaba porque é áries com ascendente em áries… mas pra mim isso aí é apenas a personagem, porque na real você é uma menina de pés descalços que só quer correr no barro molhado e viajar nas fantasias que a leitura e todas as histórias proporcionam. Pode ser que no meio do caminho exista a necessidade de alguma batalha e você vire adulta para fazer um bom trabalho na advocacia (como sempre), mas logo a batalha encerra, novas aparecem, e o sol brilha radiante nas fantasias e você pode voltar a sonhar e correr. (…) A vilã Malévola, de má não tem nada, pelo contrário, ela faz o que ninguém quer fazer para ter um retorno positivo de suas ações. Por isso é julgada equivocadamente”.

Ainda choro (de emoção, é claro), quando leio estas palavras, porque me tocam muito.

Então, quando você receber um elogio “meio torto”, incomum, sui generis, analise a intenção de quem o/a elogiou. Eu, na condição de Malévola baronesa gorda e desgraçada, colhi os louros de puros e sinceros elogios.

ANA L.

Lá no escritório adotamos como endereço de e-mail o primeiro nome da pessoa seguido do domínio do escritório. Então nossos e-mails são ana@…., marilia@…., marcelo@,…, e por aí vai.

À medida que novas pessoas iam entrando no escritório, mas o primeiro nome já possuía um homônimo anterior proprietário do e-mail, tínhamos que criar algo levemente diferente, como a inicial do primeiro nome seguido do sobrenome, ou apenas o sobrenome, ou qualquer outra variação que permitisse um novo e exclusivo e-mail ao novo usuário.

Certo dia começou a trabalhar no escritório uma advogada chamada Ana Lúcia. Delegamos a tarefa de criar o e-mail a uma funcionária também recentemente admitida no escritório.

Devidamente instalada em sua mesa e pronta para trabalhar, Ana Lúcia inaugurou seu e-mail enviando uma mensagem de agradecimento aos sócios, agradecendo pela oportunidade.

Ao receber esse e-mail inaugural, sem acreditar no que lia, o sócio fundador do escritório chamou em sua sala a responsável pela criação do e-mail e exalando seus últimos suspiros de mal disfarçada paciência perguntou:

O que é I-S-S-O?

– Isso o quê?

– Esse e-mail?

– É o e-mail da Ana Lúcia, a advogada nova.

– E por que você escolheu ESTE nome de e-mail?

– Porque já tem o e-mail ana@…., da Ana Carolina.

– Você LEU o e-mail que você criou?

– Sim, Dr. “Ana Éle”, Ana de Ana e “L” de Lúcia.

– E aqui está escrito “Ana Éle”?

– Sim.

– Leia de novo.

– anal@…..

QUANDO O GATO FOGE…

Enquanto morei na casa de meus pais – e isso durou décadas – eu sempre tive animais de estimação. ADORO. Gatos e cachorros. Um deles teve em minha vida papel mais importante e impactante do que muitos homo sapiens. Mas essa é outra história. Outro dia eu conto, porque apesar dos muitos anos em que ele nos deixou, ainda me emociono muito e não vai rolar escrever sem rolar lágrima.

Quando depois de já bem adulta resolvi ter meu próprio espaço e alugar um apartamento para morar, a adaptação da nova vida – aquela em que fruta não brota na fruteira, leite não se materializa na geladeira e roupas sujas não são autolimpantes nem autodobráveis – seria muito mais difícil sem alguma presença de quatro patas.

Convencida pela nobreza de uma amiga defensora de animais, ao invés de buscar minha peluda companhia em lojas de animais, procurei sites de doação. Eu queria um gato preto e me apaixonei pela foto de um com olhos verdes que gritavam “vem me buscar”.

Na companhia da amiga incentivadora, em uma manhã de sábado fui buscar o gato. Ao chegar no local, o endiabrado corria por tudo na companhia de um amarelinho, tigrado. “Dá muita pena separar os irmãos; olha como brincam juntos”, começou a “muy amiga”. Já pra resumir: adotei os dois.

Por ser uma declarada fã de Elvis, e ao rapidamente perceber que o amarelinho dominava (mandava e se impunha) sobre o pretinho, sem dificuldade escolhi os nomes: Elvis para o pretinho (apenas uma homenagem às nigérrimas madeixas do Rei) e Coronel Parker, que com maestria infernizava a vida do outro.

Apesar de terem “destruído” o apartamento (rasgaram cortinas, toalhas, fundo de sofá, base da cama,…) eram minhas companhias e eu adorava. Como as janelas do apartamento não tinham rede de proteção, as janelas só ficavam abertas quando eu estava em casa, porque assim eu conseguia controlar o (não) acesso dos gatos à janela.

Mas um dia (sempre tem um dia)… a diarista que limpava o apartamento não fechou as janelas antes de ir embora, e quando voltei do trabalho no final do dia, Elvis tinha se dado liberdade.

Passei a primeira noite sentada no sofá esperando um sinal de vida do gato, que poderia tentar voltar. Passei a segunda noite sentada no sofá. E a terceira também, mas nada de Elvis regressar ao lar.

Na quarta noite, quando já tinha voltado a dormir na horizontal, a campainha tocou às 2h30 da manhã. Acordei assustada e, sem saber muito o que estava fazendo, quando dei por mim já estava abrindo a porta, de pijama, descabelada, rosto inchado de sono, voz engrolada.

Na porta estava o vizinho do primeiro andar, de pijama, descabelado, rosto inchado de sono, voz irritada. “Seu gato está debaixo da minha cama”, anunciou ele.

Precisando de vários segundos para concatenar a situação e a informação, acompanhei-o até seu apartamento para resgatar o gato (naquela mesma situação: de pijama, descabelada,…).

Minha mulher me falou à tarde que tinha um gato debaixo da cama, mas…bem… você sabe a condição dela, então só a acalmei dizendo que eu tiraria o gato mais tarde”. A mulher dele sofria de uma deficiência mental e os moradores do prédio já estavam acostumados com ela tentando entrar em apartamentos alheios, falando sozinha pelos corredores ou “inventando” histórias de gente e animais que entravam na casa dela.

Como o apartamento daquele vizinho ficava exatamente debaixo do meu, ao tentar voltar para casa Elvis pulou na janela mais fácil de entrar. Tendo os apartamentos exatamente a mesma configuração, o gato foi direto para debaixo da cama, que é onde estava acostumado a ficar.

Convencido que o gato era fruto da insanidade da companheira, o vizinho simplesmente ignorou a informação. Mas durante a madrugada um gato nada imaginário começou a miar debaixo da cama. Não era um miado tímido, “fofinho”, mas aqueles escandalosos, esganiçados, aflitivos, enlouquecedores. Ele até tentou tirar o gato, mas sem êxito resolveu buscar a dona – eu!! – para a operação resgate.

Ao entrar no apartamento já dei de cara com o filho-adolescente-com-cara-de-vou-te-matar-vizinha-desgraçada fulminando-me com cara de sono e raiva por ter que levantar dali a poucas horas para mais um cansativo dia de aula pré-vestibular.

Pedindo desculpas até para as paredes, entrei no quarto do casal. A senhorinha com dificuldades cognitivas aparentava bastante lucidez com a cantilena “eu disse que tinha um gato, eu disse que tinha um gato, eu disse que tinha um gato…”.

A cena que se seguiu dilacerou a pouca dignidade que me restava às 2h40 da manhã. A base da cama era um “caixote” sobre o qual o colchão era encaixado. Enquanto o casal, lado a lado, erguia os braços para sustentar o colchão de maneira que eu pudesse entrar no caixote, com a buzanfa pra cima eu tentava desgrudar as unhas do gato do carpete debaixo da cama.

Quanto mais eu puxava o gato, mais ele miava, mais se agarrava no carpete e mais o casal suava com o esforço de sustentar o colchão. Não sei precisar quanto tempo a sessão pastelão durou, mas me pareceram horas. Com o bundão pra cima, lutando com a inacreditável força do gato, eu me desmanchava em desculpas entupidas de vergonha, venho meus vizinhos de um improvável ângulo, quase já cedendo ao peso do colchão.

O esforço foi recompensado com a ansiada separação entre gato e carpete. Pedindo centenas de milhares de desculpas, despedi-me dos vizinhos, sem coragem de encarar o adolescente vestibulando, e voltei para casa procurando pelo cantinho do castigo para refletir sobre meu comportamento.

Não recebi nenhuma reclamação do condomínio e não sei se o chocolate com que presentei os vizinhos teve mais sucesso do que a exagerada quantidade de pedidos de desculpas verbais, mas precisei doar os gatos.

Não… não foi só pela fuga de Elvis. Depois Coronel Parker também fugiu (que, acreditem, foi parar no apartamento dos mesmos vizinhos) e por fim um amigo que cuidava de ambos durante minhas viagens confundiu o depósito de papel do síndico com o depósito de lixo para descartar os dejetos felinos. Este último e derradeiro episódio descobri quando ao voltar de viagem encontrei uma carta não muito educada endereçada “ao responsável, seja ele quem for” que inutilizou os papeis separados para reciclagem com excremento animal.

Foi muita vergonha para uma pessoa só (a “louca dos gatos”). Com dor no coração (mas alívio por cessar a fonte de embaraços com os vizinhos), doei os felinos a quem tinha mais condições de cuidar deles e nunca mais tive animal de estimação em apartamento.

Se eu sinto falta? Muita! Até das vergonhas que viraram histórias pra contar.

QUASE MORRI

Nas aulas de Português aprendemos sobre a hipérbole, uma figura de linguagem utilizada para definir algo de forma dramática, transmitindo uma ideia aumentada da realidade. “Quase morri de fome”, “Morri de susto”, “Morro de vontade”,…

Certa vez, voltando de uma visita a um cliente, a advogada que estava ao volante, minha queridíssima xará, entrou na contramão em uma alça de rodovia. “Quase morremos”, iniciou a narrativa que contamos quando chegamos no escritório. “Essa louca quase me mata tentando entrar na rodovia pela contramão”. Não quase morremos porque felizmente nenhum veículo trafegava na mão correta. Mas poderíamos ter quase morrido se vários “ses” tivessem acontecido naquele dia.

Deixando a hipérbole de lado (porque todo mundo já “quase morreu de fome, de susto, de raiva ou pelo menos de vergonha”), você já passou alguma situação em que realmente quase morreu? Eu sim, em pelo menos duas situações. Sem hipérbole.

Estava eu com meu amigo e super companheiro de viagem (o mesmo que viveu comigo a experiência contada em MEUS BANHOS PELA EUROPA) transitando em um minúsculo carro pelas estradas de Santorini, na Grécia. As estradas lá são terríveis, estreitíssimas, sem sinalização. Foram muitos os litros de combustível que gastamos inutilmente rodando perdidos na pequena e paradisíaca ilha.

Em uma de nossas incursões por Santorini, entramos em uma curva fechada e ao quase terminá-la deparamo-nos com uma obra e com um caminhão betoneira à nossa frente, parado na estradinha. Paramos também. Não podíamos continuar, tampouco voltar porque não havia como sair de lá por falta de espaço para retorno.

O caminhão, de repente, começou a dar marcha ré. Meu amigo, que estava ao meu lado no volante, paralisado pelo terror, não conseguia reagir (que no caso seria acionar a buzina, por falta de alternativa). Víamos o caminhão aproximando-se do carro, agigantando-se, conduzindo-nos cada vez mais para a passagem para o outro mundo (seja ele qual for).

Tive uma descarga de adrenalina que sinto até hoje, ao relembrar o momento. Lá, naquela situação, tive a certeza de que não voltaria ao Brasil sentada, viva, na classe econômica de uma aeronave. Se não tive a certeza da morte, ao menos pressenti muitos ossos quebrados.

Por sorte, por obra das divindades gregas ou do ser superior em que acredito, um operário que estava por perto abriu um berreiro e o caminhão parou a milímetros do para-choque dianteiro do carro, que separava minhas pernas da parte traseira do caminhão. Foi uma gritaria, com o motorista do caminhão (provavelmente) xingando-nos em grego e nós devolvendo os impropérios em alto, bom e claro (apesar de chulo) Português.

Precisamos de muitos minutos até que os ânimos se acalmassem e nossos batimentos cardíacos voltassem próximo aos normais e até que os veículos fossem manobrados de modo a permitir que fizéssemos o retorno e ir embora. O susto calou-nos e voltamos ao hotel em absoluto silêncio, pensando na fragilidade da vida e agradecendo pela oportunidade de podermos mantê-la em curso.

A outra experiência, vivida alguns meses depois, não foi tão “glamourosa” (só porque eu não estava na Grécia), mas lembro vividamente de pensar: “estou morrendo”. Engasguei com um pedaço de pão. Simples assim. A migalha alojou-se na traqueia de modo que nenhum – NENHUM – ar entrava nem saía.

Eu tinha plena consciência do que estava acontecendo e clareza para obedecer às ordens de meus desesperados familiares. “Levanta o braço”. “Tosse”. “Ajoelha no chão e se curve sobre a cadeira”. “Bate nas costas dela”. Eu ouvia tudo com muita clareza, absolutamente sem poder respirar.

Minha mãe gritava: “pega o carro, vamos levar ela para o hospital”. E muito conscientemente me lembro de pensar: “não dá tempo, estou morrendo”. E eu realmente senti que estava morrendo porque nenhum ar entrava, por mais força que eu fizesse.

Foi então que meu marido – na época ainda namorado –, que trabalha em empresa que presta serviços de emergência em saúde, aplicou-me a manobra de Heimlich, aquela em que se pressiona o abdômen na altura da “boca do estômago” para expelir o que está trancando a respiração.

Tão logo o malfadado pão “voou” de seu alojamento, com muita dificuldade voltei a respirar. Minutos antes, eu tive certeza que estava, de fato, morrendo, e hoje tenho certeza que se não fosse por meu marido, não teria sobrevivido (pelo menos não sem danos fisiológicos) porque dos que estavam comigo, ninguém mais conhecia a manobra, tampouco tinha a força física para poder aplicá-la.

Dizem que quando se está morrendo, “um filme da sua vida passa pela cabeça”. Eu não vi filme nenhum. Eu só pensava “estou morrendo, estou morrendo”. Talvez eu precisasse passar mais tempo privada de oxigênio para o filme começar. Não sei. Só sei que a vida é muito fugaz e uma migalha de pão pode acabar com tudo.

Todo dia alguém acorda para o seu último dia de vida. Felizmente acordei muitos outros dias depois do caminhão na Grécia e do pão engasgado em Guaratuba. Sigo vivendo. E espero que muitos anos se passem antes que eu tenha que ver “aquele filme”.

EU LEVO OS PATOS OU DEIXO OS PATOS?

Por mais que o Direito e os tempos hajam evoluído, ainda remanesce em alguns juízes (e também advogados) o hábito de “escrever difícil”, com palavras supostamente “bonitas”, indicativas de alto conhecimento vernacular.

A linguagem técnica faz parte do diálogo, e isso acontece com todas as profissões, mas há um limite, em especial porque o Poder Judiciário presta um serviço ao cidadão. A decisão judicial é dirigida a uma pessoa ou a uma empresa, e por isso precisa ser clara, direta. O jurisdicionado (eis aqui uma linguagem técnica) precisa entender o que foi decidido, precisa entender se ganhou ou perdeu, o que ganhou ou o que perdeu, sem ter que recorrer ao dicionário.

Outro dia fui intimada de uma decisão que apesar de lida várias vezes, não me levava a lugar nenhum. Não apenas as palavras estavam já em desuso, mas a estrutura do texto era um desastre. Imediatamente me veio à mente uma anedota que já recebi várias vezes em grupos de WhatsApp, com o título “O roubo do pato”, e é bem provável que você já a conheça. É essa a história:

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Foi averiguar e constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:

Oh, bucéfalo anácrono!…Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei á quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, confuso, diz:

Dotô, rezumino…  Eu levo ou dêxo os pato?

É exatamente essa a pergunta que me dá ganas de fazer ao juiz quando recebo uma decisão recheado de inútil “juridiquês”: “Vossa excelência, por meio destes Embargos de Declaração o Réu requer esclarecimentos à decisão: o Réu leva os patos ou o Réu deixa os patos”?

POSSUÍDO

Um recrutador de Recursos Humanos chamou para a entrevista de emprego um dos candidatos que preenchera o formulário para concorrer à vaga. Ainda que desqualificado, o candidato chamou atenção pelo o que preencheu no campo em que deveria informar sua ocupação anterior: “possuído”.

Instigado pela curiosidade, o recrutador agendou a entrevista e nem perdeu tempo com perguntas introdutórias, reiterando apenas a pergunta para a qual já sabia a resposta e pela qual queria ouvir o candidato.

O senhor está trabalhando?

Não senhor, estou desempregado.

E o que o senhor fazia antes?

Eu era possuído.

Possuído?

Sim, possuído.

Desculpe, mas eu não entendi. Como assim, possuído? O que exatamente o senhor fazia?

Ué, quando o pastor invocava o demônio na igreja eu era o possuído. Trabalhei como possuído vários meses, até que tiveram que trocar de possuído porque todo mundo já me conhecia. Mas eu fui possuído. É como eu escrevi lá no papel do emprego. Eu era possuído.

SALVO PELOS DEDOS

“Piá de prédio” é uma gíria usada para definir meninos – e também homens, especialmente aqueles que apesar da idade não abandonam o colo e a casa da mãe – que por serem extremamente protegidos pelos pais, não têm malandragem nem sabem lidar com as situações da vida. Um piá de prédio se conhece pelo comportamento, pelas opiniões e pela inabilidade de lidar com situações inesperadas.

Adriano é um advogado que por muitos anos trabalhou em meu escritório. Uma pessoa incrível, queridíssimo, competentíssimo, um amor de “menino”, e um indubitável piá de prédio.

Certa tarde, após o almoço, Adriano voltava ao escritório dirigindo seu carro, que um ou dois dias antes havia sofrido um arrombamento e estava com aquela janelinha ao lado do volante quebrada. Sem ter tido tempo de providenciar o conserto do vidro, Adriano improvisou uma barreira com plástico e fita adesiva.

Antes de chegar ao escritório, Adriano passou por uma viatura policial, que ao perceber o carro com as evidências de arrombamento, deu ordem de parada a Adriano. Sem saber que o motorista era a vítima e não o agente do arrombamento, os policiais, em uma desnecessária truculência cinematográfica, gritavam e apontavam suas armas: “SAI DO CARRO, SAI DO CARRO, VAGABUNDO. MANDEI SAIR DO CARRO”.

Obviamente desesperado com a violenta abordagem, Adriano sai do carro, voz e pernas trêmulas, tentando entender o que acontecia. “MÃOS NA CABEÇA, VAGABUNDO. MANDEI PÔR A MÃO NA CABEÇA. VOCÊ É RETARDADO? NÃO SABE PÔR A MÃO NA CABEÇA?”. Adriano ergueu os braços e colocou as mãos atrás da cabeça”. “ACHA DIVERTIDO ARROMBAR CARRO, VAGABUNDO? ACHOU QUE IA ESCAPAR?”. “Este carro é meu; eu não fiz nada; estou indo trabalhar. Este carro é meu”, explicava o aflito Adriano.

CRUZA OS DEDOS. CRUZA OS DEDOS”, gritava um dos policiais, com a arma em riste, cano bafejando na têmpora de Adriano. Em sua inocência de piá de prédio, desconhecedor até mesmo de cenas de CSI e Law and Order, Adriano cruzou os dedos.

Mas não os cruzou como o policial queria, ou como qualquer bandido faria, entrelaçando os dedos da mão direita com os dedos da mão esquerda. Adriano cruzou os dedos em um cômico malabarismo para deixar os 4 dedos da mão direita “cruzados” entre si, como figas sobrepostas, fazendo exatamente o mesmo com a mão esquerda.

Não precisou mais nada para os policiais atestarem que Adriano não era um meliante arrombador de veículos. Nenhum facínora malfeitor se humilharia com aquela vexatória cruzada de dedos diante dos policiais. “É piá de prédio”, disse um policial ao outro, sem qualquer esforço para disfarçar o riso que se avolumava. “Bandido que se preze sabe cruzar os dedos”. “Ok, filho, acreditamos em você, pode ir para o trabalho”, disse o antes raivoso policial, explodindo agora em gargalhadas.

VOCÊ TORCE PELO BANDIDO?

Eu sim. E tenho (quase) certeza que você também. Quer ver?

Eu era uma alienada sobre qualquer coisa que se referisse à saga Guerra nas Estrelas (Star Wars). Eu até sabia que Darth Vader era do mal, mas meu conhecimento parava por aí, até que um dia resolvemos, meu marido e eu, encarar uma maratona para ver todos os filmes (deixando o último – Star Wars: A Ascensão Skywalker – para ser assistido no cinema).

Desde então, tenho, na estante aqui de casa, um Funko Pop e um copo com a cabeça de personagens e o caderno que meu marido usa no curso que ele está estudando também é estampado com os personagens. Mas nada de Princesa Léia, Han Solo ou Chewbacca. Os personagens são os que representam o lado negro da força: Darth Vader e Stormtroopers. Porque eles são muito mais legais e interessantes. Os vilões sempre são mais autênticos. São o que são. Não têm que agradar ninguém.

Outro exemplo: La Casa de Papel, o estrondoso sucesso espanhol da Netflix. Já com 4 temporadas, a série conta a história de um grupo de bandidos – sim, são ladrões e assassinos – liderados por uma mente (do mal) brilhante e astuta, o charmosíssimo e intrigante Professor. O que fazemos nós, espectadores? Torcemos pelos bandidos e choramos com os que são abatidos durante “o ofício”.

Outro seriado: Breaking Bad. O personagem principal é um super bandido. Começou devagar, “quase inocente”, mas à medida em que o seriado evolui não existe mais escrúpulos nem limites. Matar é eliminar problemas. Mas mesmo assim gostamos de Walter White e do drogadito Jesse Pinkman. Nós gostamos deles. Mas… por quê? Não são do mal?

Se fosse possível transpor esses personagens para a vida real, teríamos o mesmo carinho por eles? Se a metanfetamina produzida por Mr. White fosse o motivo da overdose que matasse um ente querido nosso, teríamos a mesma simpatia? Se o motorista que dirigia o carro que Tokyo explodiu quando o veículo aproximou-se do Banco da Espanha fosse um nosso irmão, marido, primo ou mesmo cunhado, gostaríamos tanto dela? Torceríamos por ela?

A questão é que conhecemos o ponto de vista do lado em que a história está sendo contada. Se assistimos CSI ou law and Order, torcemos para que o criminoso seja pego, mas se assistimos La Casa de Papel, queremos que a polícia seja feita de boba e nossos “herois” escapem ilesos e ricos (e lindos, claro).

Mas não só por isso. Quando assistimos a história contada pelo lado da polícia, os bandidos são feios, mal encarados, preferem grunhir a falar, têm dentes podres, pele ruim, cabelos oleosos, roupa suja, tiques nojentos e repulsivos. Quando a história é contada pelo lado dos criminosos, os policiais são bobões ou muito mau caráter, corruptos, desprezíveis. Já os bandidos queridinhos são bonitos, musculosos, charmosos. Ou pelo menos muito simpáticos ou engraçados (quem não gosta da Nairóbi?).

Recentemente assisti ao primeiro episódio do documentário “100 Humanos”, em que um grupo de 100 voluntários participa de experimentos sobre idade, gênero, felicidade e outros aspectos da vida humana. Uma das experiências separou os voluntários em 2 grupos. A cada um deles foram apresentados 3 fotos de supostos criminosos (eram na verdade atores).

Aos dois grupos foram contadas as mesmas histórias de cada um dos “criminosos” e ao final os apresentadores informaram qual eram os limites de pena sugeridos pelos juízes (por exemplo: de 5 a 15 anos) e perguntavam aos participantes quantos anos de prisão eles dariam a cada um dos “criminosos”. A diferença foi que para um grupo as fotos eram de pessoas bonitas, e para o outro grupo os atores não eram, digamos assim, tããããão bonitos. “Normais”, mais para feios. Resultado: os criminosos bonitos receberam, em média, metade da pena que receberam os criminosos feios (pelos exatos MESMOS crimes). Já dizia Vinícius de Morais: “Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental“.

Enfim, sem entrar em discussões políticas e filosóficas sobre beleza, discriminação, educação, justiça social e afins, o que está na tela é para diversão. No momento do lazer ninguém tem que se ater ao politicamente correto (ou incorreto), à moral, aos bons costumes. Só queremos sentar no sofá, relaxar, surpreender-nos com uma boa narrativa, pelo lado do bem ou pelo lado do mal. Não temos que parar de torcer pelos bandidos das telas, mas o que nos leva a ser tão simpatizantes pode merecer uns minutos de reflexão.

NADA NESTA “FAIXA ETÁRIA”

Uma conhecida ganhou um presente de aniversário mas precisou ir até a loja trocá-lo. Quem a presenteou elogiosamente acreditava que ela entraria em um tamanho P, o que estava bem longe da realidade.

A loja, bonita e imponente, foi concebida para barbies ricas e magérrimas. O maior tamanho que permitiam em suas brilhantes araras, e ainda assim para pouquíssimos exemplares, era um M, entregue pela vendedora com severo ar reprovador de quem condena quem não controla as calorias.

Como a presenteada, nem como muita fé, conseguiria entrar em uma roupa M, a opção foi escolher um acessório em substituição. Depois de muito escolher – tendo o cuidado de optar por um objeto que não ultrapassasse o preço do presente trocado –, a presenteada informou à vendedora a sua peça eleita para finalizar os procedimentos de troca. Ao comparar os preços entre as peças trocadas, a vendedora informou: “A senhora ainda tem um crédito de R$3,00”.

Com a curiosidade aguçadíssima, eu, que acompanhava a presenteada, não resisti e perguntei: “Moça, o que tem NESTA loja por R$ 3,00?”. Visivelmente com dificuldade para assimilar a pergunta, aparentemente nunca feita dentro daquele chique santuário de compras, a vendedora me olhou como se tivera recém vivenciado uma epifania e constatou: “é… nessa ´faixa etária´ não tem nada mesmo“.

VERDADE SEJA DITA

Em um jantar a conversa era, além da própria comida, as agruras e lutas que a maioria dos muito bem nutridos enfrenta com a balança.

Uma mulher, casada já há uns bons 25 anos, indisfarçadamente bastante acima do peso, lamentava-se ao grupo de comensais:

Não sei o que acontece. Como tão pouco, mas não consigo emagrecer.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaah não…, pronunciou-se o indignado e muito sincero marido, “…olha, gorda eu aceito; mentirosa não”.