MEUS BANHOS PELA EUROPA

Em 2017 fiz, na companhia de meu mais querido amigo, uma viagem à Grécia (Atenas, Mikonos e Santorini) e Itália (Pisa e Florença). As maravilhas naturais e históricas são notórias, e embora nada substitua o que a retina grava ao vivo e os sentidos registram na memória, podem ser também admiradas por fotos hoje ao alcance de qualquer pessoa com acesso à internet. Por isso as maravilhas vistas e visitadas não serão, hoje, o tema desta escrita.

Viajantes sempre têm alguma história sobre banheiros, e eu, claro, tenho as minhas. O que vi (e sofri) na Bolívia e Peru com os “Serviços Higiênicos”, como muito ironicamente eles chamam, por lá, os banheiros, estão em meu diário de viagem já publicado aqui no Blog. Hoje vou contar a experiência que tive com os banheiros dos hoteis que me hospedaram na Europa, realmente dignos de “nota” à parte.

Em Atenas, onde ficamos em um hotel pequeno, mas muito bem localizado, o banheiro era minúsculo e, como se tivesse vontade, “gostava” de tomar banho junto com os turistas em seus momentos de higiene. Sem qualquer coisa que servisse como box ou anteparo, tudo era “lavado” junto com o turista: pia, chão, espelho, vaso sanitário.

Inexistia barreira para que a água ficasse represada no pouco metro quadrado destinado à área de banho. Assim, no fim do dia o banho não era tão agradável como se esperava. Exigia destreza. Eu ainda estava no início da viagem, inocentemente sem poder prever que aquele “banheiro ruim” seria o melhor de toda a jornada.

Seguimos para Santorini. O banheiro do hotel, promissoramente espaçoso, tinha até box. Que luxo! O chuveiro era daqueles “móveis”, que podem ser pendurados em um suporte na parede ou ser deles retirado, como se fosse um “chuveirinho gigante”. A mim esses chuveiros lembram um telefone antigo, no qual a água sai por onde seria o bocal (do telefone).

Estava então o “telefone” colocado no suporte da parede. Não sei como (e se) as europeias conseguem, mas eu não sou capaz de lavar os cabelos com uma mão e segurar o chuveiro com a outra, então preciso utilizar o suporte da parede para pendurar o chuveiro e tomar banho “à moda brasileira”, com a água saindo de um chuveiro sobre a cabeça.

O suporte estava frouxo, então o chuveiro não ficava em uma angulação adequada. “Despencado”, o chuveiro lançava a água muito próxima à parede, então eu tinha que me posicionar de forma a distanciar-me da parede com o máximo proveito de água.

No primeiro banho, no segundo minuto a água esfriou e no terceiro o chuveiro caiu, deixando-me uma pequena marca no nariz, presente nas primeiras fotos da viagem, e uma dolorosa história para contar. Nos dias seguintes o suporte foi arrumado, mas a água não foi esquentada. Água abundante, área com box e água fria todos os dias.

Próximo destino: Mikonos. O hotel era charmosíssimo e a água do banho era quente. Assim… muito, MUITO quente. Provavelmente “tática do hotel” porque sem a opção de torneira de água fria para “temperar” a água, o banho precisava ser rápido, o tempo necessário para evitar ser escaldada. Isso sem contar a participação especial de uma lasciva cortina que servia como “box”. Aquele troço literalmente te envolve. O banho era uma luta contra o tempo e contra o atrevimento da libidinosa – e não muito higiênica – cortina, ávida por tocar-me a pele e tentar incursões, digamos, desnecessárias.

Em Pisa fica o hotel mais antigo da Itália (segundo uma placa de bronze afixada no local) e lá ficamos nós. Se a placa nos contou a verdade não posso afirmar, mas o hotel era realmente muito antigo. Sem coragem de enfrentar o elevador (tão antigo quanto o próprio hotel), subimos as largas escadas de mármore. O quarto era enorme, com uma configuração “que só se via antigamente”, a exemplo de uma pia e bidê protegidos por um biombo, dentro do próprio quarto.

O banheiro se alcançava por alguns degraus de escada e não tinha em seu interior uma pia (claro, já havia a que estava escondida pelo biombo). Mas tinha um aparentemente bom chuveiro com box. Tendo como parâmetro os banheiros anteriores, aquilo nos parecia um presente dos deuses romanos.

A reconfortante e cara surpresa foi a abundância e a temperatura da água. Mas como tudo o que nos é “caro”, precisou ser feito em prestações. A delimitação do box era feita por uma “caixa” de plástico, de cerca de 1 metro quadrado, local onde devíamos entrar para o banho.

O ralo que se revelou entupido fazia com que a água rapidamente subisse, ameaçando transbordar dos limites da lateral da caixa, o que nos obrigava a controlar o tempo do banho pela velocidade da subida da água e, como isso acontecia mais rápido do que nos era conveniente, éramos obrigados a desligar o chuveiro, aguardar a lenta descida da água até que pudéssemos, em uma segunda (ou até terceira) etapa concluir o complexo momento de higiene.

Destino final: Florença. Ah…, Florença. Impactante. Traumatizante.

O hotel ficava em um andar de um prédio residencial. Novamente abrimos mão do elevador para, em prol da segurança, adotarmos as escadas. O quarto não era grande, nem bom nem ruim. Meu parceiro de viagem abriu a porta do banheiro e imediatamente a fechou. “Não fique nervosa”, ele me alertou, antes de cair na gargalhada. Ele não me deixava aproximar-me do banheiro e a cada vez que me exortava a ficar calma, seus olhos se enchiam de lágrimas provocadas pelo riso.

Quando finalmente consegui ver o banheiro, eu não quis acreditar, embora a realidade estivesse exatamente ali na minha frente, escarnecendo e desafiando meu humor. Até existia um chuveiro (aquele mesmo modelo “telefone”, pendurado entre a pia e o vaso sanitário), mas não havia nenhum espaço dedicado ao banho. Nenhum mesmo.

Imagine um banheiro só com uma pia e um vaso sanitário, e lá em cima, na parede, no exíguo espaço entre eles, um chuveiro. Parecia enfeite de mau gosto.

Tragicomédia é a única palavra que me socorre para contar o infortúnio. Para a “higiene com ducha”, era necessário tirar até o papel higiênico de seu suporte, senão seria irremediavelmente encharcado, já que o vaso sanitário era o único local onde era possível “instalar-se” para o banho. Roupas e toalhas também precisavam ficar do lado de fora, sob pena de terem o mesmo destino do rolo de papel. E ao final da “higienização” eram necessários rodo e pano para enxugar todo o banheiro, do chão “quase” ao teto.

Recentemente li em um livro que na época da colonização os portugueses ficaram horrorizados ao descobrir que os índios matavam as pessoas e as comiam. E que os índios ficaram horrorizados quando descobriram que os portugueses matavam as pessoas e não as comiam. Sei que os europeus se chocam ao saber que nós temos o hábito de tomar banho todos os dias, mas eu também me choco (embora saiba das justificativas de escassez de água e frio intenso) ao constatar in locu a pouca importância que eles aparentemente dão ao banho.

Quando se passa algum tempo fora do país, na volta para casa as pessoas costumam ansiar pela própria cama e pelo “arroz e feijão”. Eu só ansiava por um bom, quente e não entupido banho.

Coincidências – Nasce “CONCHINHAS”

Conheço uma pessoa que acha que tudo o que acontece é coincidência. Se alguém sugere algo, “coincidentemente” ele já teve aquela mesma ideia (antes, é claro!). Se alguém liga para ele, coincidentemente ele pensou naquela pessoa alguns dias atrás. Suas narrativas e alegações são cheias de “coincidências”. Eu sempre me irritei com isso. Mas sabe que parece que coincidência existe mesmo?

Chegando perto dos 50 anos, estou considerando outras atividades, mudar de ares, mudar de mundo. Em tempos de aconselhamentos e terapia, ao comentar minha desesperada intenção, contei sobre meu namoro com a escrita. Tenho em meu “currículo literário”, desde tenra idade, alguns prêmios em concursos de redação e artigos e nas poucas vezes em que me aventurei a escrever um ou dois textos que muito pretensiosamente chamei de crônicas, ganhei efusivos elogios de minha curtíssima e suspeita lista de leitores, formada por parentes e amigos muito próximos.

Recebi então um conselho para iniciar a almejada guinada na vida: comece a escrever (“por coincidência”, li hoje uma frase atribuída a Walt Disney: O jeito de começar é parar de falar e começar a fazer).

OK. Escrever. O quê?

Romance eu gosto mesmo é de ler. Ken Follet me arrebata. Livros-reportagem, biografias e relatos de casos reais ganham totalmente minha atenção. Não, prefiro ler a escrever romances (pelo menos neste momento).

Poesia não é minha praia. Perdão aos que a admiram, mas eu nunca soube ler poesia. Gosto mesmo é de histórias, de “causos”, de narrativas, personagens, intrigas, suspense, reviravoltas. Sou, ainda, mais leitora do que escritora. Mas gosto de escrever. Então… vamos lá. Escrever. O quê?

Foi então que a coincidência, que tanto me irrita, apareceu para me calar a boca (e a irritação).

Buscando títulos no pacote mensal que pago para ler e-books no meu “dispositivo de leitura”, deparei-me com Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves. Interessei-me pelo título e, antes de atentar-me para quem o escrevera, imaginei que fosse algum tema de gestão.

Embora eu não seja uma gestora, em meu atual momento de insatisfação profissional poderia ser uma leitura que me “trouxesse alguma luz”. A julgar pelo título, eu poderia vir a produzir alguma pérola (a joia, não a expressão jocosa).

O livro de Rubem é uma reunião de crônicas, algumas com menos de 10 linhas. Em uma delas ele explica: “O problema com os aprendizes é que eles pensam que literatura se faz com coisas importantes. O que torna a conchinha importante não é o seu tamanho, mas o fato de que alguém a cata da areia e a mostra para quem não a viu: ‘Veja…´. Literatura é mostrar conchinhas”.

Que coincidência, no exato momento em que resolvo dedicar-me à escrita, cair-me nas mãos um livro cujo estilo é exatamente a inspiração do que seguir neste meu novo caminho das letras. Cheia de presunção, quero escrever como Rubem Alves, quero oferecer conchinhas.

Confesso: empáfia nota dez, originalidade zero.

Outra confissão: coincidência existe.

Não sou, ainda, uma “escritora de livros”. Mas sou uma contadora de histórias, de “causos”, e sou cheia de opiniões. A ideia, já confessada, não é original, mas as histórias eu garanto que são. Coisas que vi, coisas que vivi, coisas que conheci, coisas que imaginei e coisas que criei.

Com a cabeça e a vida cheia de histórias, para esse novo projeto, “por coincidência”, é só colocá-las “no papel”, na tela do computador, do celular, do tablet, dos dispositivos de leitura e tecnologia ainda por vir.

Espero que seja uma feliz coincidência. E que seja uma praia cheia de conchinhas.

*Quando o Blog foi criado, tinha o nome de CONCHINHAS, mas posteriormente foi alterado para ALHOS E BUGALHOS

ONTEM EU ESTAVA SEM CHÃO; HOJE EU TENHO UM CASTELO

Sou brasileira. Sou curitibana. Fui jornalista e sou advogada. Sou leitora voraz. Sou escritora apaixonada.

Imatura e despreparada para escolher uma profissão aos 17 anos de idade – como costuma acontecer com todo jovem em idade de prestar vestibular – , eu quis ser jornalista. Formei-me pela PUC-PR e fiz alguns estágios em jornais, no tempo das máquinas de escrever, do papel carbono, do past-up.

Atraída pela imprensa escrita, tive a oportunidade de passar pelo Indústria & Comércio (o mais moderno na época, o primeiro a ter computador, daqueles de cursor verde piscando em uma tela texturizada) e pelo Estado do Paraná, em ambos como estagiária não remunerada.

Meu primeiro emprego, após graduada, foi como assessora de imprensa em um grande grupo de ensino em Curitiba. Aprendi muito, mas eu não me adaptava à profissão, eu não me encaixava no perfil de jornalista e percebi logo que minhas ambições não seriam atendidas pelo parco salário que se pagava a profissionais desta área.

Certo dia uma pessoa que eu admiro muito e que sempre foi para mim uma fonte de inspiração, perguntou-me por que eu havia cursado Jornalismo. “Porque eu gosto de escrever”, foi a óbvia e sincera resposta. “Então está na profissão errada”, foi a ainda mais sincera réplica, “devia ter feito Direito”.

Na época bastante tímida, e sem advogados na família, minha ideia da profissão eram os seriados americanos (que eu adorava), cheios de “Protesto, Excelência” e “Ordem no Tribunal”. Para mim era impensável “falar publicamente”. Ficava incomodada só de imaginar. Quanta vergonha “falar na frente dos outros”.

É aí que você se engana”, argumentou a causídica que me inspirou, “o advogado trabalha escrevendo”. Lembro daquela conversa em detalhes (ainda me vem à mente a sala, os móveis, a luminosidade do lugar,…). Aquela informação ofereceu-me um novo horizonte, uma nova esperança de vida.

Como consequência lá fui eu matricular-me em cursinho pré-vestibular. Para concorrer com a garotada que estava no “segundo grau” (era assim que chamávamos o Ensino Médio “na minha época”) e só estudando para o vestibular nos pelo menos últimos três anos, eu precisava “meter o nariz nos estudos”, “levar a brincadeira a sério”. Saí então do emprego e por 6 meses estudei dia e noite, de segunda a sexta, finais de semana, feriados, incansavelmente (para ser sincera, eu me cansava bastante sim). Matriculei, estudei, passei. Vim, vi e venci.

No momento em que escrevo este texto já acumulo 16 anos na “nova” profissão de advogada. Tenho o orgulho de contar que sou sócia do escritório onde comecei como estagiária em 2001, há 19 anos. Há quem me julgue bem sucedida. E se eu for me autojulgar pelos anseios que tinha quando iniciei na carreira, sou bem sucedida sim. Realizei sonhos, conquistei patrimônio e, mais importante, sei que conquistei admiração e reconhecimento pelo o que faço com tanta dedicação.

Tudo parece muito bom, muito bem, mas…. não está. Apesar de meu status, de minha condição financeira e social, de todas as minhas conquistas, simplesmente não está bom, não estou plenamente feliz. Falta algo. E este algo a que me refiro não é encontrar um amor (como de forma clichê poderia parecer), pois também nessa área sou muitíssimo bem sucedida: tenho um marido por quem sou apaixonada, a quem amo por completar-me tão plenamente. Ainda assim, falta algo.

Recentemente ouvi uma palestra que ficou muito famosa desde que proferida: Steve Jobs falando para a turma de formandos de Stanford em 2005 (fácil de achar no You Tube). Contando três histórias de sua vida, Jobs narra que ele teve a sorte de muito cedo ter descoberto o que ele amava fazer.

Como ele amava o que fazia, ao ser afastado da empresa que criou (ele foi mandado embora pelo Conselho, 10 anos depois de iniciar a Apple), ele substituiu o peso de ser famoso pela leveza de ser um iniciante (nas palavras dele próprio), tendo fundado mais duas empresas, sendo uma delas a premiada e famosa Pixar (aquela mesmo, dos desenhos animados). A explicação de Jobs para sua história de sucesso: “Estou convencido que a única coisa que me manteve em frente foi que eu amava o que eu fazia. Você tem que encontrar o que você ama”.

Eis aí o algo que faltava: fazer o que se ama, ou, ao revés, amar o que se faz.

Amar o que se faz não é um ato de sorte, mas um ato de coragem, um ato de fé em si mesmo, que exige determinação para, muitas vezes, começar tudo de novo, literalmente “sem medo de ser feliz”. Mas não basta amar. É preciso acreditar. E é preciso agir.

Com a angústia da insatisfação começando a corroer-me, apesar de toda minha história e de minha experiência (não deveria eu já me dar por satisfeita?), eu precisava definir e certificar-me sobre o que eu amo fazer.

Aproveitando um prolongado feriado, doei-me à reflexão e constatei que em minha trajetória profissional eu não amava o Jornalismo ou ser jornalista. Eu amava escrever. Eu não amo o Direito nem amo ser advogada. Eu amo escrever.

É por isso que agora estou aqui, tendo a honra de tê-lo – talvez brevemente, tomara que perenemente – como leitor ou leitora testemunhando o que amo fazer: ESCREVER.

Em um dia eu estava sem chão, angustiada por não ter a plena satisfação e felicidade no exercício de minha profissão. Ao começar a entregar-me ao que minha alma deseja, ao fazer o que realmente amo, ao comprazer-me com a escrita e com a sonhada profissão de escritora, tenho agora um castelo. Sem querer ser piegas, mas inevitável e constrangedoramente sendo, meu desejo é ter você visitando os recônditos deste castelo. Seja muito bem-vindo(a).

VENHAM COMER CONOSCO

Era uma família de novos ricos que tiveram a sorte de ganhar dinheiro abundante, rápido e inesperado. A cultura e conhecimento, por outro lado, eram ainda bem escassos.

Recém-moradores de uma cidadezinha do interior, a fama que a ostentação da fortuna proporciona rendeu-lhes um convite para um jantar na casa do Prefeito. “Venham comer conosco”, foi o convite da primeira-dama à matriarca da rica família.

No dia do jantar, mesa posta à imitação de grandes banquetes, muita pompa, foi servida a entrada. “Um ovo metido à besta”, avaliou em pensamento a matriarca, ovo cozido com cara de coxinha, passado em farinha de rosca e fritado na frigideira.

Como prato principal veio um assado de carne acompanhado com douradíssimas batatas. “Nada de diferente”, pensou a matriarca, “isso eu também conheço e até faço em casa”.

Por fim, a sobremesa. Uma substância amarela, pastosa, parecendo pudim, bastante doce e polvilhada com canela. Satisfeita com a experiência de saborear a desconhecida iguaria, à moda de agradecimento elogiou a primeira dama: “muito gostoso o seu conosco”.

Perdão?”, perguntou a interlocutora. “Não compreendi”. “O conosco que a senhora nos serve está muito saboroso”, repetiu a velha senhora.

Conosco?”, estranhou a primeira dama. “Sim, foi a senhora que nos convidou para comer conosco. Esse é o único prato que eu não conheço, então deduzo que esse seja o conosco. Não é?”.

Daquele dia em diante, nunca mais se comeu curau na casa do Prefeito. Passou-se a comer conosco. Deliciosos conoscos.

QUANDO UM CEGO GUIA OUTRO

Sexta-feira, horário do almoço e o pessoal do escritório resolveu sair para almoçarmos todos juntos. A escolha da maioria: shopping center.

Chegamos na praça de alimentação do Shopping Muller e o local, obviamente, estava cheio. Cada um fez seu pedido e nos reunimos para aguardar os luminosos chamarem nossos números. Enquanto aguardávamos, alguém comentou que não conseguia ler as letras (mais ou menos) miúdas de um banner de publicidade. Foi o que bastou para começar a competição para sabermos quem enxergava mais e quem seria o Magoo da turma.

Como não enxergo nenhuma letra de pequena a média a qualquer distância que seja maior do que o comprimento do meu braço, fui logo me proclamando incapaz de levar o primeiro prêmio da primeira categoria.

Dois de nossos colegas, que se julgam muito saudáveis, tentaram colocar fim ao assunto proclamando que da distância em que estávamos do banner ninguém conseguiria ler aquelas letras. Afinal, eles não tinham problema de visão e daquele ponto nenhum dos dois tinha clareza na leitura. Fim de papo.

Outra colega tirou seus óculos e ofereceu-os a ambos: “Coloquem e me digam se melhora ou piora alguma coisa”. Presenciamos dois ex-saudáveis enxergadores de queixo caído. “De repente” eles conseguiram ler o que daquela distância “ninguém conseguiria”. De repente ambos descobriram que não tinham a visão tão perfeita quanto julgavam. E ambos deram-se conta que dali pra frente um não poderia validar a qualidade do que o outro via, como haviam feito somente há alguns dias, quando em uma palestra um perguntou ao outro:

A imagem do slide está desfocada?

– Está sim.

– Ainda bem. Então está tudo certo. Pensei que eu teria que usar óculos.

BOA TARDE, DONA ILKA

Eu precisava que meu estagiário entrasse em contato com uma empresa para confirmar se um documento enviado havia sido recebido pelo destinatário. Passei-lhe o número do telefone e pedi que verificasse se o Dr. João já os tinha em mãos.

– Ilka, boa tarde.

– Boa tarde, dona Ilka.

– Boa tarde, em que posso ajudá-lo?

– Dona Ilka, meu nome é Rogério, eu trabalho com a Dra. Marilia e ela pediu para eu confirmar se o Dr. João já recebeu o documento que enviamos hoje pela manhã.

– Acabamos de receber. Assim que o Dr. João chegar eu entregarei a ele.

– Dona Ilka, a senhora pode, por favor, pedir que ele entre em contato com a Dra. Marilia, assim que ele tiver lido o documento?

– Claro, darei o recado a ele.

– Muito obrigada, Dona Ilka. Tenha uma boa tarde, Dona Ilka.

Tanta foi a eficiência e educação com que o estagiário cumpriu a simples tarefa, que não tive coragem de contar a ele que a secretária da Ilka Indústrias Têxteis, com quem ele acabara de falar, chamava-se Inês.

UNA MARIJUANA, POR FAVOR

Viajei com meu marido para a paradisíaca Punta Cana. Ficamos em um resort all inclusive. Comida e bebida à vontade. Era só pedir ou pegar.

Na lista de opções de bebidas estava a Mama Juana, uma bebida típica da República Dominicana feita à base de casca de árvore e ervas embebidas em rum, vinho tinto e mel. Meu marido adorou. Variando muito pouco apesar da extensa lista de opções, ele quase sempre escolhia a Mama Juana.

Com a fala começando a ficar engrolada e a intimidade que todo candidato a bêbado vai adquirindo na medida em que o grau alcoólico vai subindo, meu marido chega no bar e faz aquele gesto que pede para o bartender se aproximar, para algo a ser falado quase como um segredo. O bartender, obviamente já acostumado com esse tipo de “intimidade” de “conversa ao pé do ouvido”, aproxima-se para ouvir o que de tão importante o ébrio brasileiro tem a pedir: “Una marijuana, por favor”.

UM CARRO COM ESCADA EM CIMA

Meu pai estava em um compromisso profissional e uma pessoa combinou de passar buscá-lo. “Será bem fácil me identificar, meu carro estará com uma escada amarrada em cima”.

Quando vi um carro com escada em cima se aproximando, já me preparei para entrar, mas não era ele. Depois passou mais um, e mais um, mais um. Nunca vi tanto carro com escada em cima”, contou-me mais tarde meu pai.

Os carros com escada em cima estão sempre circulando, exibindo-se bem debaixo de nossos narizes, passando-nos despercebidos. E isso porque nós simplesmente não paramos para prestar atenção que eles existem. Nosso foco não estão neles. Mas eles existem.

Você já parou para pensar que quando estamos interessados em algum assunto “por coincidência” esse assunto sempre aparece? Obviamente, não estou aqui falando dos algoritmos de computador. Experimente pesquisar o preço de uma passagem aérea para o Caribe no Google e depois entre em suas redes sociais e em outros sites, de notícias, por exemplo. As ofertas de passagens para o Caribe vão invadir as páginas que você visitar. Não, não estou falando desse tipo de “coincidência”, desse tipo de “aparição”.

Quando sua atenção está voltada para algo, você simplesmente passa a perceber o que já está na sua frente, mas que em outra situação você nem veria que existe. É como se o universo estivesse falando com você, é como se “tudo” passasse a, de repente, em um passe de mágica, concentrar-se no que desperta o seu interesse.

Em um dia eu estava conversando com minha terapeuta sobre alternativas de carreira, sobre dedicar-me ao que me dá satisfação, e no dia seguinte, sem que eu tivesse feito qualquer pesquisa sobre o tema na internet, meu Instagram e Facebook estavam cheios de mensagens sobre “pare de falar e comece a fazer”, “dedique-se ao que você ama”, “corra atrás de seus sonhos”, e por aí vai. Noooooooossa, “isso é um sinal”, “o universo está falando comigo”,…

Aquelas mensagens estariam lá de uma forma ou de outra. O que mudou é que eu ativei minha atenção para aquele tema, então “tudo” o que se referia a isso passou a capturar minha atenção.

É por isso que quando você coloca seu coração em alguma atividade, em algum projeto, em alguma guinada em sua vida, “tudo conspira a favor”.

Os carros com escada em cima sempre desfilaram diante de você. Você só precisa prestar atenção na existência deles.

EMPREGO EM RÁDIO

Recém-formada em Jornalismo, eu estava desesperada por um emprego na área. A despeito de todos os maus prognósticos do mercado de trabalho, eu tinha um diploma que me dizia jornalista e eu precisava, eu queria trabalhar.

Certa tarde, aguardando minha vez de atendimento em um pequeno salão de beleza de bairro, daqueles em que não se marca hora, mas se respeita a ordem de chegada, entra um senhor, de camisa de mangas curtas, cabelo curto nas laterais e longo atrás, senta e começa a conversar com outra pessoa que aguardava sua vez. “Eu trabalho em uma rádio”, ouvi-o dizer.

Empolgadíssima com a oportunidade de apresentar-me a um emprego, disse a ele meu nome e declarei, muito orgulhosa: “sou jornalista e estou procurando uma oportunidade para mostrar e desenvolver meu trabalho”. Ele me olhou, aparentemente sem entender nada, e só disse: “que legal, parabéns”.

Quanta frustração eu senti. Não consegui nem progredir com a conversa. Ele não me deu a mínima atenção. Lá se foi minha chance de mandar meu currículo. Recolhi-me em minha insignificância, aguardei minha vez para aparar a franja e quando eu estava saindo, após aquele tchau coletivo, dirigido a todos e a ninguém em especial, ele levantou-se e me entregou seu cartão: “Romildo – motorista – Rádio Táxi Sereia”.

AMNÉSIA ALCOÓLICA

Amnésia alcoólica é papo de bêbado. Juro que piamente eu acreditava nisso, até que fui apresentada à tequila.

Feriado, recebi alguns amigos em casa, que chegaram com uma garrafa cheinha de tequila. Preparamos a guacamole, as tortilhas de milho, sal, limão e partimos para a brincadeira: lamber o sal sobre a mão, beber todo o shot de tequila e morder o limão (a tortilha com guacamole ficou em segundo plano).

Um shot, dois, três, e nada de eu sentir os efeitos da gradativa embriaguez. Sem graça isso. O legal é ir ficando “altinha” à medida que se bebe.

Meu erro foi confundir tequila com escada, quando é de fato um elevador. Ela não sobe devagar. Ela chega do térreo ao último andar em segundos.

Não sei o que aconteceu. Sério mesmo. Em um momento eu estava bebendo os shots, no segundo seguinte alguém esmurrava a porta do banheiro para tentar me tirar de lá e no segundo imediatamente posterior eu chorava copiosamente sentada no chão da cozinha. Assim mesmo, nessa ordem, como se fosse uma sequência logicamente temporal de acontecimentos, segundo atrás de segundo. Como é que eu fui parar no banheiro e depois apareci no chão da cozinha eu realmente nunca vou saber. Não lembro.

O pior é do que eu lembro só mais ou menos. Lembro de estar ao telefone. Falando o quê com quem permanece um mistério. Como não perdi nenhuma amizade por aqueles tempos, quero crer que foi só algum infeliz de telemarketing tentando me vender algo (que nem sóbria eu compro).

Essa bebida é do mau. Ou é mágica. Ou então muito persuasiva, já que que me provou existir o que com tanto escárnio eu afirmava sem titubear que era “papo de bêbado”. Olha…. não é não.

Ah… sobre os amigos que levaram a tequila, não lembro quando e como foram embora. Aqueles eram amigos mesmo, de verdade, parceiraços. Recusaram-se a contar o que falei e fiz (se é que eles lembram de algo).